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Luli Radfahrer
Luli Radfahrer Consultor e Professor-Doutor da ECA/USP

PhD em Comunicação Digital, já dirigiu a divisão de web de algumas das maiores agências e portais do país. Professor-Doutor da ECA-USP, Professor-convidado da Columbia University, Consultor, Luli também é autor. Sua última obra é "A Arte da Guerra para quem Mexeu no Queijo do Pai Rico".

Gigatendências, parte I – inovação e observação

Tem coisa que a gente não pode deixar passar. “Mad Avenue Blues“, paródia brilhante do folk-fanho-chiclete “American Pie“, de 1971, é uma delas. Cheia de jargões típicos do mercadinho de propaganda americano – alguns difíceis de traduzir, alguns intraduzíveis – resume muito bem o cenário aterrorizante para uma indústria que, feito zumbi mal-resolvido, se recusa a aceitar que morreu.

Se der eu traduzo a letra mais tarde, ver o vídeo me deu um certo enjôo dos tempos em que eu trabalhava em uma indústria da qual não me orgulho:

Para quem está habituado com a revolução proporcionada pelas mídias sociais, a paródia não tem nada de novo. Ela, aliás, é quase tão óbvia quanto a importância da reciclagem e dos carros elétricos. Mas chega a ser chocante ao mostrar que nós, nascidos e criados no século passado, achávamos normal o enorme desperdício de tempo e recursos.

Naquela época existiam “publicitários”, profissionais cuja única função era tornar a mensagem de uma marca pública. Categoria em vias de extinção, ela era caracterizada por um ego imenso, só superado pela influência que tinha junto aos “formadores de opinião” – figurinhas carentes que usurpavam o palco e o jornalismo ao usar suas imagens públicas, não necessariamente verdadeiras, para referendar algum produto ou serviço. Acredito que o neto que um dia terei me perguntará porque não blogávamos ou tuitávamos ou facebucávamos ou orcutávamos ou… OK, você entendeu.

brevehist-706898Este post não foi escrito para chicotear cavalo morto, mas para mostrar como é difícil ver a inovação se você está do lado de dentro de uma indústria estabelecida. “Não se mexe em time que está ganhando”, diz a sabedoria(?) popular, embora a história da ciência mostre exatamente o contrário: as descobertas costumam ser revolucionárias a ponto de questionar o mundo como o conhecíamos e perceber que as coisas não são tão simples assim. Foi o que aconteceu quando se descobriu a América, as placas tectônicas, as bactérias, a radioatividade e as leis do espaço-tempo propostas por aquele burocrata que, apesar de brilhante, nunca entendeu direito a Mecânica Quântica nem aceitou que ela pudesse ser verdadeira, a ponto de desperdiçar o fim de sua carreira para tentar provar que ela estava errada.

Não há dúvidas que uma mente capaz de propor, sem citar praticamente ninguém nem conduzir experimentos, que o que conhecíamos por universo estava errado e que espaço e tempo estavam intimamente relacionados (entre outras coisinhas) é brilhante. E, no entanto, mesmo um Einstein chega a um momento da vida em que se apega às conquistas estabelecidas, recusa o novo, se cristaliza e afunda. É da natureza humana.

Na velocidade com que as coisas mudam, não podemos nos dar mais a tais luxos. É preciso estar sempre alerta e preparado para mudar o tempo todo. A única forma para isso é evitar qualquer forma de apego a idéias estabelecidas e estar sempre preparado para examinar o novo. Veja bem, eu disse EXAMINAR, não aceitar. Nem sempre a inovação é boa, o mundo seria melhor se alguns inventores nunca tivessem exercido a profissão. Na dúvida, lembre-se do Bug do Milênio ou do SecondLife.

Por falar neste último, vamos dar uma olhadinha em mais um vídeo:

Esses italianos fizeram uns logotipos lindos, não?

Hummm… algo não cheira bem. Todos sabem que o Vida de Segunda não deu exatamente certo e que essas projeções são um bocado estranhas. O resultado é que o vídeo ficou um pouco velho para quem tinha aspirações futurólogas. A ponto deste aqui, ainda mais antigo, parecer mais real:

Mesmo assim ele ainda dá umas mancadas bem básicas, como realçar a importância do Friendster e ignorar boa parte das redes sociais. Em um dos vídeos, Google e Amazon são concorrentes. No outro, juntam forças. Talvez falte um para dizer que se aniquilarão mutuamente. Ninguém fala da Apple. Mas não por isso, deixemos a Microsoft falar:

O vídeo mostra iPhones em paredes, vidros, mesas, cartões.
Será que o futuro terá tanto texto? Eu duvido.

Não é fácil prever o futuro. Afinal de contas, as mudanças recentes desta virada de milênio acumularam um conjunto tão grande de novas tecnologias a ponto que hoje dá para olhar para alguém de 28 anos com a mesma admiração com que antigamente se olhava para pessoas centenárias e pensar “nossa, você deve ter visto tanta coisa na vida…” – mas isso não é desculpa para a preguiça intelectual que nos leva a acreditar que “chegamos lá” ou que os próximos anos trarão uma consolidação das tecnologias, “mais e melhor do mesmo”.

Muito pelo contrário. Uma forma fácil de se considerar o futuro é usar uma frase que pensei há alguns anos e que repito sempre:

“o futuro é igual ao presente,
tirado dele as coisas que não fazem sentido”

Cartórios, trânsito, mídia de massa, publicidade irritante que interrompe a experiência, guardar de cabeça números de telefone, milhões de senhas e endereços de e-mail serão coisas que devem desaparecer nos próximos anos. E o devem fazer discretamente, como aconteceu com orelhões, máquinas de escrever, cartões perfurados, máquinas de fax e aparelhos VHS.

Mas para isso é preciso aprender a examinar as informações que nos chegam. O vídeo a seguir, muito comentado, traz um erro crucial de raciocínio:

Mas eu só o contarei no próximo post. Enquanto isso, proponho um segundo desafio: diga-me o que há de “estranho” nesse vídeo xarope de auto-ajuda (fora, é claro, o fato de ele ser um vídeo xarope de auto-ajuda):

Algumas coisas para ajudar você a desvendar o que está estranho:

1. O texto deste vídeo não foi feito pela DM9DDB nem tinha a intenção de ser um roteiro de vídeo;
2. O texto correu a Internet, ainda por e-mail, em uma época ingênua que acreditávamos em “Blair Witch Project“;
3. A autoria do texto rapidamente foi perdida, outros nomes apareceram como possíveis autores, de Kurt Vonnegut até o bem menos glorioso Nisão Guanáis – todos o teriam dito em um discurso de formatura, mas não há registro de quem se lembre de ter ouvido um discurso tão memorável, ao contrário daquele feito pelo Steve Jobs;
4. O roteiro foi feito primeiro, a música veio depois – ela faz parte da trilha sonora de “Romeu+Julieta“;
5. A história lembra bem a deste vídeo, que eu conto neste artigo. Curiosamente, o tema também é inovação.

Uma frase, no entanto, chama a atenção: “os verdadeiros problemas da sua vida tenderão a ser coisas que nunca passaram pela sua cabeça. O tipo que cruza a sua frente às 4 da tarde de uma terça-feira ociosa”. Me arrisco a dizer que as verdadeiras inovações seguem o mesmo rumo.

Mas isso é assunto para um próximo post.

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Um comentário para “Gigatendências, parte I – inovação e observação”

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