.  Luli Radfahrer

Luli Radfahrer
Luli Radfahrer Consultor e Professor-Doutor da ECA/USP

PhD em Comunicação Digital, já dirigiu a divisão de web de algumas das maiores agências e portais do país. Professor-Doutor da ECA-USP, Professor-convidado da Columbia University, Consultor, Luli também é autor. Sua última obra é "A Arte da Guerra para quem Mexeu no Queijo do Pai Rico".

Mega saldão de tendências

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Nunca se falou tanto em tendências quanto hoje em dia. E nunca foram tantas.

Já era de se esperar. Uma das explicações que é dada para o surgimento do pós-modernismo e a desaparição dos absolutos é que o aumento da comunicação entre países e a conseqüente expressão de seus povos fez com que múltiplas culturas – cada qual com sua própria estrutura de conceitos, verdades e valores – entrassem em contato, dando origem a um relativismo sem fim. A BBC tem um debate muito bacana sobre as diversas questões que essa corrente levanta, que não serão discutidas aqui.

Aqueles que se deram por gente depois da queda do muro de Berlim podem achar estranho e limitado o mundo dicotômico que se vivia até um bom pedaço da década de oitenta, época em que você era, obrigatoriamente uma coisa ou outra. Pouco importava que as descobertas do tio Feynman e do tio Heisenberg – e mesmo o gato do tio Schrödinger – já tivessem provado fazia mais de meio século que as coisas não eram tão preto ou branco.

Hoje em dia, quando parecia que tudo estava mais ou menos assentado na aceleração furiosa, eis que a diversidade ataca novamente. Quando se imaginava que o mundo tinha, finalmente, se estabilizado e, com ele, alinhado as marés de diferentes culturas, novas tsunamis de inovação e tendências culturais parecem surgir de todos os lados do maremoto social em que vivemos. Novamente, era natural que isso acontecesse.

O “choque de culturas” que a globalização e a Internet promoveram não foi, na verdade, muito mais do que uma marolinha. Nunca houve – e ainda está longe de acontecer – um verdadeiro contato mundial. Que eu saiba, você não tem acesso fácil a um dentista da Tanzânia, ou mesmo a um piloto sueco. Ou às idéias de um sapateiro de Omã ou um luthier chinês. O encontro foi de sociedades, a maioria delas ocidentais, que já tinham algum contato e habitavam sistemas de valores parecidos. Falar alemão ou japonês, afinal, é muito mais fácil do que falar !Xóõ.

À medida que a web 2.0 vai ganhando popularidade, os estrangeiros às ferramentas digitais começam a operá-las, manuseá-las, brincar com elas e experimentá-las. Aos poucos, vão perdendo o medo e a timidez, deixam de ser ariscos e começam a compartilhar sua opinião e valores. Um passo importante foi dado nessa direção em 16 de Novembro passado, quando a Icann passou a aceitar solicitações de nomes de domínios não-latinos.

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Eles já haviam dado um passo nessa direção ao permitir caracteres acentuados (o que, na minha opinião, só demorou o que demorou pela web ser dominada por conteúdos em língua inglesa, que não sabem a diferença fonética de um coração para a ilha de Curaçao – para não falar com cocos ou cágados). Com a liberação de domínios em outros sistemas de caracteres, o acesso à rede – e conseqüente publicação – tende a ser muito, muito maior. Um domínio pode parecer uma coisa pequena porque estamos todos acostumados a digitar em teclados QWERTY, inventados nos Estados Unidos, naturalmente com caracteres latinos. Mesmo as versões internacionais, como este teclado em chinês e este em árabe seguem a mesma estrutura – que até pode ser cômoda para nós, mas deve ser uma bela dor de cabeça para eles. Imagine-se digitando um domínio nesta belezura abaixo:

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Sacou o drama? Pra quem foi alfabetizado em Kanji, no entanto, esse teclado pode ser um sossego, difíceis talvez sejam as forminhas daquelas letras quase iguais – b d p q – que parecem um c misturado com um l. Ou aquela letra alemã, ß, que não tem som de “b”… OK, você entendeu. Agora imagine a quantidade de russos, coreanos, árabes de vários países, indianos, tailandeses e, naturalmente, chineses que passarão a acessar mais sites em suas próprias línguas, ter acesso a maior conteúdo e se sentirem estimulados a criar domínios e blogar etc.

Que sonhos poderíamos ter?se perguntava aquele menino Hamlet há um tempinho. Não faço idéia, mas mal posso esperar. Nesse ambiente crescente e mutante, tendências são mato e se multiplicam furiosamente. A partir dos próximos posts vou detalhar algumas que tenho visto, mas já dá para passar um aperitivo de DEZOITO coisas para prestar atenção em 2010:

1. ACOMPANHAMENTO – também conhecido como tracking, vem tomando espaço da busca. Desde que a FedEx permitiu que se soubesse onde está a sua encomenda, reforçado pelo Twitter em celulares e pelo Google Latitude, o Big Brother hoje não está satisfeito em saber tudo sobre você. Ele também faz questão de saber aonde encontrá-lo.
2. AUTISMO – o autismo coletivo, mediado por aparelhos que conectam você a todo mundo via celulares com realidade aumentada mas que ainda não parece ter dado importância para o fato de ainda alertá-lo para olhar para todos os lados da rua antes de atravessá-la.
3. NOMADISMO – o trabalho está cada vez mais remoto, o mundo está cada vez mais achatado, os processos estão cada vez mais equivalentes, as cidades estão cada vez mais parecidas e genéricas, diferenças crescem em importância. Se “onde você está” é cada vez mais importante, “onde você mora”, se torna mais e mais irrelevante.
4. INTEGRAÇÃO – os dados e interfaces estão cada vez mais modulares, APIs abertas são praticamente obrigatórias, o próximo passo é integrar e digitalizar negócios, experiências e até cidades inteiras, por que não?
5. REALIDADE ALTERNATIVA – não a do Raul, nem a aumentada em PCs, que ainda tem muito de firula gráfico-interativa. Mas o conceito de real se dissolve dentro dos ambientes meritocráticos e justos dos metaversos, cada vez mais transportado para o mundo real (embora com exageros).
6. GAMES – jogos estão na moda. Cursos universitários são criados para eles, uma nova categoria da propaganda é baseada neles, o que era brincadeira se torna cada vez mais sério. Do sucesso de coisinhas feito Farmville ao volume de dinheiro que ambientes feito o Warcraft inventaram a partir de nada, muita coisa bacana vem por aí. Mais ainda se a Microsoft (aquela que faz HALO e, se não me engano, algum outro aplicativo, acho que até um sistema operacional, mas não estou bem certo) mostrar que o Project Natal é algo mais do que um protótipo fantasma.
7. PIRATARIA – em especial, Shanzhai. Você acha que a China é mansa? Pois prepare-se para sentir saudades dos tempos em que os EUA eram a superpotência. A China se vinga.
8. PORNOGRAFIA – em todas as suas formas, de fetiche e Otaku, ela está mais forte do que nunca. Desde Jeff Koons e Cicciolina, nunca foi tão cult. E, é claro, um pouco do softcore Julie&Julia.
9. ACHATAMENTO – achatamento cultural, à medida que as mesmas fórmulas de alien entretenimento popular são aplicadas ao redor do mundo. Uma sensacional resposta afegã, para mostrar que ainda há esperança, justo quando se achava que o mundo não tinha mais jeito. De qualquer forma as coisas se tornam mais amigáveis à medida que ficam menos interessantes.
10. COLABORAÇÃO – cada vez mais comum e popular, em todas as suas formas. Doar tempo, espaço no sofá, dedicação. Em alguns casos, até dinheiro serve.
11. ACESSIBILIDADE – não mais aceitar a diferença, mas cultuá-la em mercados de um só. Long Tail Extreme.
12. HARDWARE – e tudo que se pode fazer com os novos kits. Ainda dependemos das grandes empresas, mas seus produtos parecem cada vez mais peças de LEGO.
13. DINHEIRO – sempre foi a mais virtual das coisas com que convivemos. O próximo passo é se livrar de vez de seu lastro físico.
14. DESIGN – conteúdos complexos em informação não podem mais ser completamente absorvidos através de tecnologias lineares como o texto. Bloomberg era o novo Gutemberg e não sabia.
15. STORYTELLING – pense em Avatar. Agora inverta tudo.
16. VALOR – uma das únicas saídas possíveis para a propaganda é ela deixar de ser “ishpierta” e começar a gerar valor. As marcas querem isso. Os consumidores querem isso. Só os publicitários ainda acreditam na velha publicidade pentelha, que interrompe a experiência com historinhas que ninguém quer ouvir. Deve ser por corporativismo.
17. MÉDIA – Pare de falar em classe C. O mundo é classe C. A pirâmide sócio-econômica está se transformando em um losango.
18. FÍSICO – Ações offline que replicam o online, como as versões impressas da Wikipedia e do Google Calendar, livros impressos on-demand, custom printing etc etc etc.

Pois é, dezoito caminhos. E olha que eu nem fuçei muito. De qualquer maneira, daqui a pouco as tendências serão tantas, e tão diversificadas, que praticamente tudo será tendência, já que todos serão público. Falar delas, daí, será patético.

aerobics_web-4Como na época do Punk, a velha mídia (que você pode chamar de “sistema”, se quiser) tenta cooptar e se apropriar das inovações. Chega a posar de descolada em algumas tentativas de se rejuvenecer, mas é tão tadinha na escolha de seus exemplos que dá pena. Feito aquele tio com faixa na testa e prendedor de óculos, se sentindo o Rambo em aula de exercício cardiovascular enquanto sua feito uma esponja espremida e erra todos os movimentos.

Como já se viu na época do Punk, não vai dar certo. Não pode dar certo. São muitas as tendências e estamos só no começo.

Feliz ano novo, então.

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