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Luli Radfahrer
Luli Radfahrer Consultor e Professor-Doutor da ECA/USP

PhD em Comunicação Digital, já dirigiu a divisão de web de algumas das maiores agências e portais do país. Professor-Doutor da ECA-USP, Professor-convidado da Columbia University, Consultor, Luli também é autor. Sua última obra é "A Arte da Guerra para quem Mexeu no Queijo do Pai Rico".

Arquivo da Categoria ‘Carreira’

Interlúdio: virais, contágio e DM9

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Interrompemos excepcionalmente nossa série sobre gigatendências para comentar dois erros de percepção um bocado desagradáveis cometidos por aquela que deveria ser uma das mais importantes agências de propaganda do país. Über-premiada em Cannes, não é a primeira vez que ela leva o título um bocado discutível de “agência do ano”, coisa que fez questão de comentar em uma tentativa capenga de vídeo “viral”. (aiaiai, quando esses caras vão entender que viral é efeito, não causa – e que não é sinônimo de mal-feito?)

No melhor estilo de profecia auto-realizável, o tal vídeo se tornou popular e distribuído pelas redes. Mas infelizmente para eles – e para a alegria geral do resto – a versão distribuída não era a oficial, mas uma divertida apropriação.

Seria cômico, se não fosse triste. Quem trabalha no mercado de criação e produção digital sabe que Cannes já viveu dias de maiores glórias. Desatualizado e sem compreender direito a mudança nos novos meios, seu comitê organizador cria novas categorias a cada ano – hoje são Film, Press, Outdoor, Direct, Media, Cyber, Radio, Lions, Titanium and Integrated, Design e PR, em uma confusão tamanha que ninguém consegue dizer com clareza e confiança a diferença de um Promo para um Direct para um Cyber para um Titanium. Na dúvida, inscrevem-se as peças em várias categorias (à bagatela de US$ 1000 por peça) e, como uma velha maçonaria em que todos se revezam em dar tapinhas uns nas costas dos outros, todos voltam bronzeados da Riviera falando maravilhas do festival. Em uma adaptação do ditado americano sobre Las Vegas, “o que acontece no Palais fica no Palais”. Falo mais de Cannes neste post em que comento o fato de estar perto e fazer questão de passar longe.

Voltando ao vídeo do filtro solar, que dá o tom para esta série, não é de se estranhar que a agência vedete do festival, tão prolífica em inscrições em tudo o que é categoria, tenha “deixado escapar” um vídeo de apelo popular tão forte? Minha experiência na área me diz que se os prêmios de uma peça não foram comentados, deve ser porque ela não levou nenhum. Mas quem conhece bem o mercado sabe que isso é praticamente impossível, considerada a quantidade de prêmios e a variedade mínima de suas mesas julgadoras.

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Se o vídeo nunca levou um prêmio deve ser porque não foi inscrito. Se não foi inscrito, só pode ser por um motivo: ele não deve ser da DM9. Pelo menos não integralmente. Isso me chamou a atenção, mas ainda era pouco. Havia algo de fundamentalmente errado naquele vídeo. Como não pretendo submetê-lo à tortura de revê-lo, se você quiser pode dar uma olhada no texto aqui (repare que o Terra dá o crédito do texto para o Pedro Bial, o que é ainda mais grotesco). A versão legendada que publiquei tem a narrativa de um homem com uma voz que transparece uma boa idade, e acredita-se que a experiência que dispensa seja derivada dela.

Imagine-se conversando com seu avô. Não seria estranho ouvi-lo dizer “Você não é tão gordo(a) quanto pensa”; ou “Não tenha medo de seu corpo ou do que as outras pessoas possam achar dele”; ou ainda “Não leia revistas de beleza. Elas só vão fazer você se achar feio”? Hummm…pensando bem, até “Você, também, vai envelhecer” e “Não mexa demais nos cabelos senão quando você chegar aos quarenta vai aparentar oitenta e cinco” começam a soar estranhos, não? Cadê o “não gaste muito dinheiro com carros. Eles só servem para transportar você de um lado para o outro” ou qualquer referência a musculatura, futebol, sedentarismo ou potência sexual – triste reconhecer, claras obsessões masculinas?

pri1-2Será que precisamos arranjar um armário maior pro vovô? Pro Bial? Ou será que ele, como o Nissan Guaranás, não se ligou que o texto foi, obviamente, escrito por uma mulher? Como foi que esse “mero detalhe” não passou pelas cabeças de pessoas tão perspicazes enquanto eles se apressavam em tomar posse, assinar e narrar a lengalenga de auto-ajuda que caiu em seus colos via Internet?
Não é fácil perceber o óbvio. Mesmo (e principalmente) entre aqueles que se julgam portadores de uma visão mais criativa da sociedade. O resultado é, como não poderia deixar de ser, Ivete Sangalo vendendo Sense e Simplicity, intercalada por um rapper que diz que “a tecnologia é uma espécie de magia que o cérebro humano não cria”.

Genial, não? Claro que não.

A história do Everybody’s Free (To Wear Sunscreen) é bem conhecida, embora muitos ainda creiam que seja da DM9 ou do Bial – coisa que ambos, espertos que são, não afirmam nem negam. Na época em que vi o vídeo pela primeira vez, as coisas eram bem mais difíceis de se achar. O texto era um velho conhecido: tinha chegado por e-mail vindo de várias fontes, ainda no ano 2000. Algumas fontes citavam um discurso de formatura do publicitário, outras falavam de palestrantes americanos bem mais ilustres. Em um mundo pré-YouTube, achar uma coisa dessas não era nada fácil.

Quando o número de pessoas A-DORAN-DO o tal vídeo começou a se tornar irritante, acabei sendo levado a vê-lo umas 4 ou 5 vezes, em diferentes eventos. A sensação de algo estranho permanecia… fui atrás e acabei por descobrir um artigo da BBC que me levou a um antigo blog e algumas páginas no Geocities, contando a mesma história que hoje é tão fácil de ler na Wikipedia: ele surgiu como um artigo escrito por Mary Schmich (veja bem, uma mulher) para o jornal Chicago Tribune em 97. Só isso, um artigo de jornal, nada de discurso de formatura alguma.

Por isso você não o vê lido em lugar algum, a não ser em homenagens retroativas de escolas que poderiam se contentar com algo melhor.

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O artigo se chamava originalmente “Advice, like youth, probably just wasted on the young” (conselhos, como juventude, provavelmente desperdiçados com jovens). Sua autora quis dar a ele o tom de um discurso de formatura, provavelmente para realçar a importância do conselho desperdiçado com ouvintes de pouca idade, e também porque a época de sua publicação (começo de Junho) coincidia com muitas formaturas e “inaugurações”, aqueles discursos de abertura dos anos letivos que chamamos de “Aulas Magnas” (a propósito, a que dei na ECA não é um bom exemplo desse tipo de cerimônia).

Não é preciso prestar muita atenção no roteiro do vídeo para perceber que as imagens são redundantes a ponto de parecerem mímicas. O discurso é ainda pior, com estruturas, subordinações e construções típicas do texto escrito, que se tornam bem chatinhas quando narradas.

Mesmo assim, não demorou para alguém copiar o artigo do jornal e transmiti-lo por e-mail. Se tem gente que faz isso até com os artigos que escrevo em revistas e não publico aqui, o que dizer de um texto tão emocional, apelativo e “fácil” em tempos de auto-ajuda?

Na pressa em copiar, rapidamente sumiu a fonte e a autora, e o texto se torna uma lenda urbana. Quem nunca recebeu por e-mail algum texto atribuído ao Luis Fernando Veríssimo (mas que ele jamais reconheceria a paternidade, de tão primário que é?). Seguindo a mesma receita, rapidamente o anexaram o texto da tia Mary a alguém célebre, para dar maior respeito ao pastel de vento.

Por seu formato, não tardou para alguém ter a idéia “criativa” de transformá-lo na palestra de abertura do MIT, dada por Kurt Vonnegut no mesmo ano. Só se esqueceram de verificar se ele teria falado lá naquela época. Na verdade, quem fez a palestra de abertura naquele ano foi o Kofi Annan, e não passou pela cabeça dele falar em FPS outras formas de proteção UVA/B.

Enquanto isso a palavra corria solta pela Internet, em suas mais variadas traduções. Se poucos mudaram o tom ou o teor do discurso, sua autoria ganhou todo tipo de tradução. Curiosamente, todas masculinas. Como se uma mulher nao fosse capaz de escrever esse discurso (o que até considero um elogio, já que a baixa qualidade do mesmo rivaliza em profundidade com letras de axé e sertanejo).

Do outro lado do mundo, o diretor de cinema australiano Baz Luhrmann resolve transformar o texto ruim em um vídeo ainda pior. Se você acha impossível, veja aqui.

Mesmo assim o vídeo ganha fama ainda maior do que a alcançada pelo texto, graças a um remix pop-pegajoso do único hit que a cantora Zambiana Rozalla emplacou fora de Lusaka – embora a versão dela seja beeeeem melhor.

(e pensar que eu dancei bastante essa música…. o tempo nos torna mais críticos e sábios, ou talvez simplesmente chatos)

De qualquer forma, toda essa história é velha demais, e só vale ser ressucitada como um (longo) exemplo da importância de se prestar atenção em cada detalhe do ambiente em que se está para se poder falar verdadeiramente em inovação. Em tempos de informação abundante, a ignorância não é mais uma desculpa aceitável.

Curiosamente são as agências de propaganda e os veículos de mídia de massa que ficam cada dia mais distantes de qualquer tentativa de inovação (sempre vale relembrar o fenomenal erro de português do 2º publicitário mais conhecido do Brasil ao defender o antigo regime e propor que não se “invistam DO novo”). Preocupado que está em perpetuar estereótipos e forçar associações, este segmento morto da área de comunicação se distancia cada mais de qualquer atitude inovadora ou criativa a cada dia.

Para que você não pense que eu tenho qualquer preconceito contra as agências (guardo meus preconceitos para a MicroSoft), termino este post com mais um belo exemplo de como a DM9 parece ter esquecido as regras mínimas de convivência em seu próprio mercado:

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Esse anúncio pavoroso, mal-feito, de lógica torta e valores imperdoáveis até mesmo em executivos de marketing metidos a “criativos” e estágiários filhos de clientes já foi extensamente comentado por blogs mais qualificados que o meu para o assunto. Acreditem se quiser, a campanha fantasma foi premiada pelo respeitado(?) The One Show mesmo nunca tendo sido aprovada (ou mesmo mostrada) para o cliente.

Se você não acredita em fantasmas, precisa visitar um festival de propaganda.

Por uma torta ironia do destino, a DM9 parece ter finalmente conseguido emplacar o viral que tanto desejava. As reações não poderiam ser mais emocionais e certamente há um ou outro RP estúpido que ainda acredita que a regra “falem mal, mas falem de mim” ainda tem valor. Veja uma das reações típicas a partir dos 2′30″ deste vídeo.

Muito bem dito pelo comentarista: “what is the point, by the way?” Respeitar o planeta por… MEDO de Tsunamis? Duvido que uma modelo fizesse melhor.

Como todos sabemos, a polêmica vai acabar em pizza, demitirão um estagiário, todos os 347 diretores de criação negarão ter visto o trabalho, assessores de imprensa dirão que a ficha técnica foi falsificada, o prêmio será devolvido com declarações indignadas de todos os lados, o dinheiro da inscrição desaparecerá de todos os livros contábeis e daqui a 15 minutos ninguém mais lembrará do conjunto de imbecis que criou, aprovou, produziu, finalizou e inscreveu uma peça que compara a Tsunami ao 11 de Setembro – e os dois a ações do homem contra a natureza. Será o mesmo exemplo do Sunscreen, com sua mecânica invertida. Tsk.

É contra esse tipo de atitude que se luta quando se defende a inovação. Veja aqui.

O que você faz?

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Este foi o tema do iMasters InterACT 2009, em Belo Horizonte. Tudo começou com uma conversa com o Tiago Baeta, do iMasters, logo após o InterCon. Ele convidou a mim e ao Rapha para sermos curadores e montarmos um espaço para apresentações e provocações. Ao ver a planta do hotel em que o evento aconteceria, percebi que a boïte seria o lugar perfeito para esse tipo de evento, com seu palquinho, pufes e sofá. Daí pra frente foi só chamar muita gente legal para participar e ficamos bastante felizes com o resultado.

A cobertura do evento você pode acompanhar aqui.

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O tema geral do evento estava apoiado na importância de idéias simples e iniciativa para se mudar o mundo - e as apresentações dos curadores tinham que amarrá-lo. A do Rapha veio logo depois da do Bressane, que encheu o auditório e colocou a moçada fervilhando em idéias. Para chamar para o tema, ele fez uma sensacional apresentação sobre os problemas do sistema da comunicação hoje em dia e como ele mata a criatividade. Não vou falar da palestra aqui, porque não dá - cutuquem o homem pra blogar a respeito -  mas adianto o vídeo a seguir, que dá uma bela pista do clima:

Para encerrar (e amarrar) uma sucessão de momentos preciosos, entre eles a sensacional história do Comida de Buteco que, a partir de uma idéia simples promoveu o turismo, a higiene, preservou parte da cultura popular e se tornou uma referência, minha palestra perguntou: “o que você faz?“.

Entenda bem: não perguntei sua profissão ou emprego, mas O QUE VOCÊ FAZ. E como isso pode fazer a diferença. O vídeo mostra o espaço da boïte (que chamamos de ‘club’ para perder o ar Richard Clayderman que o nome carrega) e a minha palestra. Acho que vai ficar fácil de entender por que chamavam o lugar de “cafofo do Luli” ou “favelinha do Luli”.

Recomendo que o vejam acompanhando as telas da apresentação:

Por último, a roupa: me perguntaram o porquê da roupa de lixeiro. Pensei que fosse óbvio, mas vale realçar. É por causa da quantidade de informação a que temos acesso e que é puro lixo tóxico.

Enfim, o evento foi o máximo. O público foi muito bacana, os palestrantes, então, nem se fala. Eu confesso que estava apreensivo. Sabia que o Rapha, com sua cancha de TED, se sairia bem. Mas fiquei muito bem impressionado como a dinâmica foi compreendida por todos - incluindo pelos gigantes Gil Giardelli, Fabiano Coura e Emerson Calegaretti, que adaptaram as suas palestras ao formato do evento em menos de cinco minutos. Não que Michel, Suzana e Alexandre Bessa não se destacassem,mas desses não se esperava menos que algo cativante. Até mesmo temas bem mais técnicos, com os da Ana Erthal e o Horácio, hipnotizaram a moçada, que nem tuitar direito conseguia. Se cuida, Cazé, que o Horácio parece ter nascido para o palco. O RAP WCAG quase começou a balada antes da hora:

CLARO que não poderia deixar de lado a mesmerizante Viviane, do Sebrae, que assume um palco de fim de evento, sem que ninguém a conheça, vestida com roupas de escritório e ganha do público merecidíssimo título de Susan Boyle do dia. Para mim, a melhor palestra do evento, com histórias de aventuras pra botar Indiana Jones no chinelo e pilhas de informação preciosíssima de seu blog “Beco com saída“. Resultado: faziam uns 8-10 anos que eu não subia em um palco tão nervoso (e agora, o que eu falo DEPOIS dessa mulher?!?). Me virei, mas não foi fácil.

Por último, queria deixar um agradecimento especial aqui para o público e parceiros mineiros. Vocês são demais. Todo mundo, de todos os lugares, querendo ajudar. Dá até vergonha de ser paulistano. Adorei o evento, mas ele deve ser o penúltimo que organizarei. É um esforço muito grande e toma muito tempo. Acredito que, depois do InterCon 2009, em Novembro, minha participação se restringirá às palestras.

Semana que vem vou para o Japão e devo ficar por lá umas duas semanas. Não vou tuitar de lá porque, com 12 horas de fuso horário, vou parecer o pássaro madrugador. Mas devo postar uma ou outra coisa interessante que encontrar por lá, mesmo que seja depois de voltar.

Aula Magna - ECA/USP

quarta-feira, 22 de abril de 2009

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Confesso que sempre tive medo de aulas magnas, em sua verdadeira essência. A idéia de uma aula “grandiosa” para receber alunos não me parecia algo que tenha o clima caloroso e aconchegante de quem recebe um estudante novo, assustado e desorientado para um ambiente em que nunca esteve antes na vida. Pelo contrário, sempre acreditei que o excesso de pomposidade e formalidade característicos deste tipo de evento pareciam mais um fator de intimidação e de coerção que de recepção.

Mesmo assim, de vez em quando me chamam para falar em uma delas. Em minha apresentação gosto de mostrar que o mundo do conhecimento é grandioso e fascinante, e que isso não tem nada de assustador, muito pelo contrário. Ignorância, quando acompanhada de curiosidade, é um belo fator de aprendizado e costuma levar a situações fascinantes e inspiradoras. Muita gente é influenciada a acreditar que pode (ou pior, deve) saber de tudo sobre tudo, mas isso é, na minha opinião, completamente estúpido. O máximo de iluminação a que acredito ser possível chegar é a socrática, em que se só poderemos vir a saber o tamanho de nossa ignorância.

Veja que bela a conclusão do Dr. Neil deGrasse Tyson, diretor do Planetário Hayden, sobre o fato de sermos tão “pequenos” no Universo (em que, de fato, ele defende o contrário):

ISSO é que é aula magna, e agora a responsabilidade estava começando a pesar sobre as minhas costas. Mesmo sem entender patavinas de Astrofísica (e de associar Cálculo mais a um problema de saúde que a uma divisão da matemática), acredito que a relação do ser humano com o conhecimento deveria ser a mesma da que ele defende que tenhamos com relação às partículas elementares: deveríamos nos sentir grandes de fazer parte de um aglomerado de conquistas, não pequenos por aquelas que não são exclusivamente nossas. Não há nada exclusivamente individual, se é que você ainda não sabe.

chaplin-dictatorPara muitas pessoas, no entanto, essa percepção da imensidão do mundo é perigosa e assustadora. Assumir-se em um eterno aprender e, nesse processo, rejeitar certezas e maniqueísmos é tornar-se aberto à crítica e ser levado a admitir que suas idéias podem estar erradas. É uma pena. A História mostra que a construção de um raciocínio apoiado em estratégias que não visam se opor a formas de pensar, mas a admitir que existam paradoxos e até contradições entre elas - e que duas ou mais respostas diferentes podem ser igualmente satisfatórias - costuma levar a grandes progressos, por mais que muitos livros de “liderança” e “programação neurolingüística” insistam em afirmar o contrário.

Acima de tudo, grandes profissionais nas mais diversas áreas - principalmente nas criativas - não costumam ter o menor pudor em assumir que as fases mais produtivas e inovadoras de suas vidas foram exatamente as que os forçaram a se portar como aprendizes, sem medo de errar, de cruzar fronteiras de conhecimento, de perguntar o porquê das coisas, de trazer uma nova perspectiva para velhos conceitos e, nesse processo, encontrar atalhos, interligações e curto-circuitos pouco (ou nunca) imaginados.

A genial designer Paula Scher defende brilhantemente este conceito, ao defender que “seriedade” e “solenidade”, que muitos acreditam ser sinônimos, são quase o oposto um do outro:

Essa foi mais ou menos a inspiração que tive para elaborar a minha aula, que deveria recepcionar os calouros, contar para ele que o mundo é cada vez maior e que a comunicação e a interação são essenciais, na procura por remover qualquer comportamento dogmático ou bobagem do tipo “informação é poder”. Como os alunos já tinham um perfil mais conectado, rápido e visual, resolvi montá-la em uma estrutura à Pecha Kucha, mas com 25 minutos e sem se tornar cansativa ou monótona. Um baita desafio.

Maior ainda por ser em casa, na escola me ensinou e formou muito mais depois que eu virei professor do que na época em que eu era aluno. Em uma formatura uma vez eu disse que pagaria para ensinar ali, já que era estimulado - praticamente forçado - a repensar minhas idéias, reciclá-las, renovar o discurso e ser desafiado por mentes brilhantes, mais novas e muito mais conectadas que eu, semestre a semestre, semana a semana.

Encarei a jornada como um aprendiz. Até porque a atitude era extremamente adequada ao momento. O resultado final você pode ver logo abaixo. Acredito que ele que tem várias falhas, mas em linhas gerais eu gostei do resultado.

Terminada a apresentação, alguns alunos vieram falar comigo com os olhos brilhando. Isso não tem preço. Mesmo que eu não me lembre deles daqui a cinco anos - ou que eles se esqueçam de mim ou até mesmo da ECA, o simples fato de ter mostrado para eles uma perspectiva diferente do mundo já justifica o trabalho de um professor. Teve gente que não gostou, o que acho ótimo. Não acredito que toda a unanimidade seja burra, mas certamente é perigosa. Se você só convive com aqueles que pensam da mesma forma que você pensa, corre o risco a passar a acreditar que essa visão do mundo é a realidade, e isso tende a ser preconceituoso, fútil e limitado.

Recomendações profissionais para quem pretende viver um século

sexta-feira, 20 de março de 2009

Outro dia reencontrei um grande amigo que não via há cerca de 18 anos. Combinamos de almoçar um dia desses e, depois de vários desencontros, conseguimos finalmente colocar a conversa em dia. Para minha grande alegria, ele estava muito bem. O aspecto profissional era inegável: ele ocupava um cargo importante dentro de uma empresa multinacional, responsável por várias decisões de porte. Tinha vivido um tempo nos Estados Unidos e não lhe faltavam ofertas para voltar para lá, em posições ainda mais altas. Mas não foi nada disso que me impressionou.

O que me deixou realmente feliz foi perceber que, mesmo com todo esse “sucesso” - que tanto eu como ele sabemos, é externo, efêmero e artificial - ele continuava o mesmo sujeito divertido, franco e simpático com quem é sempre um prazer trocar idéias, e nada ali era menos importante do que o cargo que ele ocupava. Saí do almoço inspirado, pensando como a vida e a carreira são longas hoje em dia, e como é importante administrar o legado que se deixa.

Curiosamente ao chegar em casa me esperava na portaria a nova edição da Revista Webdesign e, com ela, a possibilidade de postar meu artigo publicado há seis meses. Ele tratava do mesmo tema: que viveremos provavelmente mais do que um século, e que teremos a carreira mais comprida da história da humanidade, ao trabalhar dos vinte aos oitenta anos.

Ele se chama “Os primeiros dez por cento“, e pode ser lido logo abaixo.

Os primeiros 10%

junho de 2008 - Revista Webdesign nº 54

Uma das características mais marcantes de quem está em começo de carreira é uma enorme pressa. Pressa em aprender todas as técnicas, pressa em montar um portfólio, pressa em arranjar um emprego, pressa em sair da faculdade, pressa em “acontecer”, pressa, pressa, pressa, pressa… mas pra que tanta pressa? Poucos sabem, mas mesmo assim continuam a ter pressa. Afinal de contas o Pelé, aos 17, já era campeão mundial. O Michael Phelps, aos 15, já tinha mais medalhas que o Brasil. Segundo essa linha apressada, se você não “virou” antes dos 25, já era.

Essa lógica, além de perversa, não faz o menor sentido. Duvido que o designer de 25 anos quisesse ter sua casa projetada por um arquiteto da mesma idade. Ou sua causa defendida por um advogado sem um fio de cabelo branco. Por mais competente e seguro que fosse, não acredito que ele encararia tranqüilo ao ser operado por um médico recém-saído da residência. Acho até que mesmo um jovem gerente de banco não inspiraria a sua confiança. O medo faz sentido: por mais habilidoso que seja, o que me garante que um piloto com poucas horas de vôo seja capaz de enfrentar uma tempestade, se as únicas que viu foram em um simulador?

Você pode até argumentar que em criação é diferente, mas está errado. Marcello Serpa, Alexandre Gama e Nizan Guanaes estão na faixa dos 50 anos, Washington Olivetto na dos 60 – junto com Chico, Caetano e Gil. Os fundadores da DPZ ainda estão ativos, com bem mais de 70. E o que dizer do Niemeyer, nosso highlander da arquitetura?

A pressa, já dizia a sua avó, é inimiga da perfeição. Nunca se viveu tanto e nunca se trabalhou por tanto tempo. Quando eu era criança, “velho” era quem tinha 40 anos. Hoje é preciso ter umas duas décadas ou três a mais. Do jeito que a tecnologia avança, não é preciso ser otimista para acreditar que você certamente viverá mais de 100 anos – se não for fumante, claro. Também não é difícil acreditar que você dificilmente se aposentará antes de ter completado seus 80 e estiver com a cabeça bem cheia de cabelos brancos. Em uma vida tão longa, os primeiros vinte por cento são claramente desprezíveis: eles são o período de aprendizado, em que o profissional está se formando para encarar umas seis boas décadas de maratona. Aquele que largar desesperado dificilmente terá fôlego para chegar longe.

Apesar das bobagens faladas pelos livros e revistas de auto-ajuda executiva, você não se aposentará antes dos quarenta. Nem que tenha ganho um, dez ou cem milhões de euros. O trabalho é a atividade intelectual que nos mantém vivos e ativos, por mais que não gostemos dele. Mesmo que você não precise do salário, trabalhará pelo prazer de ver idéias acontecerem, de interagir com pessoas, de criar coisas. Vestir o pijama é jogar a toalha, e é isso que tanto deprime os desempregados, muito mais do que a falta de dinheiro.

Dê uma busca nos nomes que você ouviu terem ficado milionários antes do estouro da bolha das empresas pontocom e provavelmente descobrirá que todos estão trabalhando. Pesado. Os donos do Google batem ponto todos os dias, e mesmo o Bill Gates chamou de “aposentadoria” o que muitos chamariam de mudança de emprego. Para um trabalho mais puxado, vale ressaltar. O que ele faz em sua ONG não tem expediente nem final de semana, muito pelo contrário. Mesmo aquele capitalista mais nojento, tipo Donald Trump, com todos seus aviões e banheiros com torneiras de ouro, não é visto de chinelos em praias tropicais, mas de terno em salas de reunião. Se é assim, em quem você se espelha com toda essa pressa? Se não vai parar de trabalhar, pra que a correria?

Hoje em dia quem tem 26 anos acabou de completar os primeiros 10% de sua carreira. Aos 40, terá chegado a um terço dela. A metade só chegará quando ele chegar à meia-idade. Nem mesmo quando ele chegar aos setenta poderá dizer que o fim está próximo. A não ser que aconteça alguma guerra ou pandemia, a expectativa de vida no meio do século XXI pode ser bem maior do que se imagina hoje.

A experiência faz bem. Quem arranja o primeiro emprego em uma empresa grande não tem tempo de treinar. Quando fizer uma besteira – e todos fazem besteiras o tempo todo, não se iluda – será mais visível e frágil. Quem vira chefe rápido, rapidamente será enganado por seus subordinados, trapaceado por seus colegas ou preterido em uma futura promoção. Quem ganha dinheiro fácil e rápido costuma gastá-lo ainda mais rápido e com mais facilidade, como se vê facilmente em muito jogador de futebol, pagodeiro, apresentador de TV, modelo/atriz, participante do Big Brother ou ganhador da MegaSena.

Antes de sair correndo desembestadamente e gastar toda a sua energia, gaste alguns minutos para perceber aonde está e para onde pretende ir. Não se pode seguir vários caminhos ao mesmo tempo e são poucos os que realmente valem a pena. Estude o máximo que você puder, porque o mundo está cada vez menor e cada vez mais difícil de enganar.

A vida não é fácil. Quem diz que é mente ou está ainda mais perdido que você. Como diria um filósofo Zen, “ao caminhar, apenas ande”. Concentre-se no que pretende fazer, como pretende ser reconhecido, aonde pretende chegar daqui a uns 20 anos. E leve 20 anos para chegar lá. Se conseguir o que quer em 18 anos, estará no lucro. Se chegar em 5, provavelmente definiu a meta errado. Ou chegou ao lugar errado.

Ninguém duvida que o Jobs que criou o iPhone é muito melhor do que o Steve que fundou a Apple. O primeiro mudou o mercado, o segundo foi demitido. Por mais que você acredite estar com “vinte e tantos” anos, saiba que o prefixo “vinte” não admite o complemento “tantos”. Isso é coisa para quem tem trinta ou quarenta. Nessa idade, só se tem “vinte e qualquer coisa”.

É a melhor época da vida para se experimentar e errar – pode ir tranqüilo, ninguém está de olho em você.

Mecânica dos fluidos: Design no ambiente elástico

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Os vídeos deste post foram gravados em uma palestra minha para o 13º Encontro de Web Design, nas edições de Curitiba, Porto Alegre e São Paulo. Fazia tempo que não falava sobre design, por isso fiz uma palestra um pouco longa, de vez em quando bastante conceitual, mas acho que ficou bacana. Para montá-la, dei uma bela pesquisada em uns livros legais e outros sites melhores ainda. Afinal de contas, já que continuo a enrolar vocês com relação ao meu livro que nunca sai, tinha que prestar algumas satisfações. A primeira parte está no vídeo a seguir:

Chamei a palestra de “mecânica dos fluidos” porque, para mim, esse é o maior desafio do designer hoje em dia. Ao contrário do que acontecia no ambiente certinho, estático e previsível em que vivíamos até dois terços do século passado, o mundo hoje é fluido e fragmentado, feito o resto de azeite e vinagre que sobra no prato no quando a salada acaba.

As categorias das coisas se misturam e se complementam, em uma confusão tão grande que fica a cada dia mais difícil classificá-las. Traduzi-las, então, ainda pior.

E é exatamente isso que o designer faz: cabe a ele traduzir a complexidade dos conceitos e idéias novos na simplicidade das formas e interfaces. Pense em como seria difícil explicar a  Internet se não houvesse a web, por exemplo.

Não é uma tarefa fácil. E tem muito pouco - quase nada, aliás - a ver com arte. Arte é uma forma de expressão individual, uma conversa entre o artista e seu público. Em design, o profissional  é só um intermediário: toda atitude e expressão devem estar no produto.

O trabalho de tradução que o designer realiza está por toda parte. Graças a ele as coisas mais exóticas - como o cursor de um mouse ou o sistema de autofoco de uma câmara, por exemplo, deixam de ser sinais elétricos sem cara e passam a ser visíveis e audíveis. Esse é o motivo, na minha opinião, da crescente popularidade do design nos tempos acelerados em que vivemos.

Sempre vale a pena lembrar que, por mais que muitos desejem, as tecnologias não vão parar. Pelo contrário, elas devem acelerar cada vez mais, e com elas a necessidade de mais design para traduzir um ambiente mais complexo e mutante. Cada nova tecnologia traz consigo um
a sensação de desconforto, que nada mais é do que o sinal da mudança. Cabe aos designers dar a sua cara,
 torná-las compreensíveis e amigáveis.

A palestra se estende explicando alguns caminhos para realizar esse processo de tradução. Se você quiser saber mais delas, dê uma olhada neste post.

A segunda parte da palestra chama a atenção para o fato que design é uma linguagem, e como toda linguagem, é uma interface, ou ponto de contato entre duas pessoas. Mas um tipo de interface especial, que permite ao conhecimento se deslocar no tempo e no espaço, de uma forma muito envolvente - é uma conversa, como eu já tinha dito aqui.

Vivemos cercados de aparelhos que conversam conosco. Do alarme do carro ao autofoco da câmara fotográfica, do vibracall do celular ao barulho do pisca-pisca, todas essas formas de expressão têm seu léxico e gramática próprios, e precisam ser aprendidos para serem compreendidos. Por isso que é tão difícil para um usuário de Mac pilotar uma máquina Vista: Português e Catalão não são a mesma coisa.

e nego se diverte… adoro este país =)

Por definição, design significa desenho, projeto e desígnio - é uma forma de arte gráfica que obedece a uma finalidade e tem uma função clara. À medida que se torna mais importante, design também pode ser compreendido como substantivo (o design de Mies Van de Rohe), verbo (aquela comunicação demanda redesign), ou até adjetivo (essas cadeiras de design são desconfortáveis). Mas isso é só o começo. Design também pode significar criatividade aplicada, pode ser usado para solucionar problemas, pode ser compreendido como um tipo de aprendizado, uma evolução no modo de se encarar um objeto, serviço ou situação, um processo social, um jogo de descobertas e resolução de problemas, uma exploração por um terreno sensorial desconhecido ou pouco trilhado, um diálogo…

Design, enfim, é comunicação. E comunicação é o que faz de nós, humanos, uma espécie tão fascinante.

Livros para entender o HOJE

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

 

ATENÇÃO: Este não é um post apropriado para uma época de dólar oscilante.
Continue a ler por sua própria conta e risco.

 

Muita gente me pede indicações de bons livros para entender essa maldita sopa primordial de informação e inovação em que vivemos nos últimos anos. Sempre recomendo um ou outro livro, mas senti que minha listinha estava ficando desatualizada. Pedi ajuda a meus amigos via Twitter para completá-la e consegui uma seleção espetacular de livros atuais, livros um pouco velhinhos mas mesmo assim fundamentais, autores de primeira que vale a pena se refestelar (mas que eu recomendo seguir com moderação para não enlouquecer), livros que eu não li, mas me indicaram e eu já tinha ouvido falar e até uma listinha de best-sellers que não são do mal, mas são… inócuos. Eles não falam bobagens, mas têm a velha mania americana de escrever em 300 páginas o que bem caberia em cinco. Divirtam-se. E por favor comentem e dêem mais sugestões para que essa lista fique o mais completa e atualizada possível, para o bem de todos.

 

LIVROS ATUAIS:

 

BENKLER, Yochai. The wealth of networks: how social production transforms markets and freedom. Yale University Press, Estados Unidos, 2006.

FRIEDMAN, Thomas. O mundo é plano. São Paulo, Objetiva, 2007.

GILLMOR, Dan. We the Media: grassroots journalism by the people, for the people. Estados Unidos, O’Reilly, 2006.

GOLDSMITH Jack , WU Tim. Who Controls the Internet? Illusions of a Borderless World. Estados Unidos, Oxford University Press, 2006.

HAWKINS, Jeff. On Intelligence. Times Books, Estados Unidos, 2004.

JENKINS, Henry. Fans, Bloggers, and Gamers: Media Consumers in a Digital Age. Estados Unidos, NYU Press, 2006.

JOHNSON, Steven. Emergência: a dinâmica de rede em formigas, redes, cérebros, cidades e softwares. Rio de Janeiro, Zahar, 2001.

KEEN, Andrew. The Cult of the Amateur: How Today’s Internet is Killing Our Culture. Estados Unidos, Doubleday Business, 2008.

LANHAM, Richard. The Economics of Attention: Style and Substance in the Age of Information. Estados Unidos, University Of Chicago Press; 2007.

McDONOUGH, William, BRAUNGART, Michael. Cradle to Cradle: Remaking the Way We Make Things.  Estados Unidos, North Point Press, 2002.

PINK, Daniel. A Whole New Mind. Estados Unidos, Riverhead Trade, 2006.

SHIRKY, Clay. Here Comes Everybody: The Power of Organizing Without Organization. Estados Unidos, Penguin Press, 2008.

SPYER, Juliano. Conectado. Rio de Janeiro, Zahar, 2007.

SUROWIECKI, James. The Wisdom of Crowds. Estados Unidos, Anchor Books, 2005.

WHEEN, Francis. Como a picaretagem conquistou o mundo: equívocos da modernidade. Rio de Janeiro, Record, 2007.

WRIGHT, Robert. Não Zero: a Lógica do Destino Humano. São Paulo, Campus, 2000.

 

LIVROS VELHINHOS, MAS BONS:

 

BARABÁSI, Albert-Laszló. Linked. The new science of networks. Estados Unidos, Plume, 2003.

BERMAN, Marshall. Tudo que é Sólido Desmancha no Ar. São Paulo, Cia. das Letras, 1989.

BERNERS-LEE, Tim. Weaving the Web: The Original Design and Ultimate Destiny of the World Wide Web. Estados Unidos, Collins Business, 2000.

BEY, Hakim. TAZ: Zona Autônoma Temporária. São Paulo, Conrad, 2001.

BOLTER, David, GRUSIN, Richard. Remediation: Understanding New Media. MIT Press, Estados Unidos, 2000.

CRITICAL ART ENSEMBLE. Distúrbio Eletrônico. São Paulo, Conrad, 2001.

CSÍKSZENTMIHÁLYI, Mihály. A descoberta do fluxo. São Paulo, Rocco, 1999.

DAWKINS, Richard. O Gene egoísta. São Paulo, Cia. das Letras, 2007.

GILLMOR, Dan. We the Media: Grassroots Journalism By the People, For the People. Estados Unidos, Oreilly & Associates, 2006.

GLEICK, James. Faster: the accelerationm of just about everything. Estados Unidos, Pantheon Books, 1999.

HIMANEN, Pekka, TORVALDS, Linus (colaborador), CASTELLS, Manuel (Epílogo). The Hacker Ethic. Estados Unidos, Random House Trade Paperbacks, 2002.

HOFSTADTER , Douglas R. Gödel, Escher, Bach. Um entrelaçamento de gênios brilhantes. Brasília, Editora UnB, 1979.

GRAHAM, Gordon. The Internet:// a philosophical inquiry. Routledge, Reino Unido, 1999.

HOBSBAWN, Eric. A era dos extremos. São Paulo, Cia. das Letras, 1995.

JOHNSON, Steven. Cultura da Interface. Rio de Janeiro, Zahar, 2001.

LOCKE, Christopher. The Cluetrain Manifesto: The End of Business as Usual. Estados Unidos, Basic Books, 2001.

MELMAN, Charles. O Homem sem gravidade: Gozar a qualquer preço. Rio de Janeiro, Cia. de Freud, 2003.

POOLE, Steven. Trigger Happy. Reino Unido, Arcade Publishing, 2004.

TOFFLER, Alvin. A Terceira Onda. Record, Rio de Janeiro, 1981.

TREND, Dave. Reading Digital Culture. Blackwell publishers. Oxford, Reino Unido, 2001.

TUKLE, Sherry. Life on the screen. Estados Unidos, Simon & Schuster, 1997. Este também saiu em português de Portugal como A Vida no Ecrã, a identidade na era da internet. Portugal, relógio d’água, 1997.

VAIDHYANATHAN, Siva. Copyrights and Copywrongs: The Rise of Intellectual Property and How It Threatens Creativity. Estados Unidos, NYU Press, 2003.

WARDRIP-FRUIN, Noah, MONTFORT, Nick (Eds). The New Media Reader. Estados Unidos, MIT Press, 2003.

 

AUTORES

 

Autores de primeira que buscam explicar a condição atual. Alguns com maior sucesso que outros, alguns com menos firulas que outros. Acho que uns são prolixos, outros até meio infelizes em algumas obras. Sou fã de alguns deles, acho outros esnobes, recomendo a leitura de vários livros de todos eles. Ame-os ou odeie-os, só não deixe de conhecê-los.

 

Félix Guattari

Giles Delleuze

Gilles Lipovetsky

Lawrence Lessig

Manuel Castells

Massimo Canevacci

Michel Maffesoli

Noam Chomsky

Pierre Lévy

Ray Kurzweil

Richard Florida

Steven Pinker

Vilém Flusser

Zygmunt Bauman

 

(para facilitar a sua vida, o Tiago Moresco sugeriu alguns livros deles: Félix Guattari: Caosmose, As Três Ecologias, Cartografias do Desejo - Gilles Deleuze: Foucault - Massimo Canevacci: Antropologia da Comunicação Visual - Pierre Lévy: O que é o Virtual, Cibercultura, A Inteligência Coletiva - Vilém Flusser: O Mundo Codificado, Filosofia da Caixa Preta - Zygmunt Bauman: A Modernidade Líquida. Os marcados em laranja eu também li e recomendo. Mas há mais coisas desses caras)

 

(outra recomendação: o Fabio me relembrou do Michel Maffesoli e do Noam Chomsky, que não estavam na lista original mas foram atualizados para esta - como pude me esquecer deles? Os livros que ele recomenda do Maffesoli são Tempo das Tribos e The Shadow of Dionysus: A Contribution to the Sociology of the Orgy. Do Chomsky tem muita coisa boa de linguagem, muita coisa chata de globalização. escolha com moderação ou não se decepcione mais tarde)

NÃO LI

 

Não se pode ganhar todas. Como essa lista é colaborativa, natural que alguns dos livros eu não tenha lido. Mas ouvi falar bem de todos os livros abaixo. E temo não ter tempo de lê-los todos o quanto antes:

 

CASALEGNO, Federico. Memória Cotidiana. Porto Alegre, Sulina, 2006.

HEATH, Joseph e POTTER, Andrew. Nation of Rebels: Why Counterculture Became Consumer Culture. Estados Unidos, Collins Business, 2004.

HURST, Mark. Bit Literacy: Productivity in the Age of Information and E-mail Overload. Estados Unidos, Good Experience Press, 2007.

JENKINS, Henry. Convergence Culture: Where Old and New Media Collide. Estados Unidos, NYU Press, 2006.

LAKOFF, George e JOHNSON, Mark. Metaphors We Live By. Estados Unidos, University Of Chicago Press, 1980.

LI, Charlene e BERNOFF, Josh. Groundswell: Winning in a World Transformed by Social Technologies. Estados Unidos, Harvard Business School Press, 2008.

MASON, Matt. The Pirate’s Dilemma: How Youth Culture Is Reinventing Capitalism. Estados Unidos, Free Press, 2008.

RHEINGOLD, Howard. Smart Mobs: The Next Social Revolution. Estados Unidos, Basic Books, 2003.

SCHWARTZ, Barry. The Paradox of Choice. Estados Unidos, Harper Perennial, 2005.

SOLOVE, Daniel. The Future of Reputation: Gossip, Rumor, and Privacy on the Internet. Estados Unidos, Yale University Press, 2008.

WEINBERGER, David. A Nova Desordem Digital. São Paulo, Campus, 2007.

ZAKARIA, Fareed. The Post-American World. Estados Unidos, W. W. Norton, 2008.

 

300×5:

 

Por último, a lista mais polêmica. Se você gostou dos livros abaixo, não se ofenda e por favor não fique bravo comigo. Eles são bons livros, mas poderiam ser mais completos e abrangentes. Analisam o específico e ignoram o geral. Provavelmente não serão lembrados em cinco ou dez anos. Valem se você está com pressa ou se quiser ler sua bibliografia:

 

ANDERSON, Chris. A Cauda Longa: do mercado de massa para o de nicho. Campus, Rio de Janeiro, 2006.

GLADWELL, Malcolm. O Ponto de Desequilíbrio. Rio de Janeiro, Rocco, 2002. Do mesmo autor, o livro “Blink” ou “A decisão num piscar de olhos” segue a mesma filosofia.

GODIN, Seth. Small Is the New Big: and 183 Other Riffs, Rants, and Remarkable Business Ideas. Estados Unidos, Portfolio, 2006.

LEVITT, Steven D. e DUBNER, Stephen J. Freakonomics: o lado oculto e inesperado de tudo que nos afeta. São Paulo, Campus, 2007.

MAU, Bruce. Massive Change. Estados Unidos, Phaidon Press, 2004.

SUROWIECKI, James. The Wisdom of the crowds. Estados Unidos, Anchor Books, 2005.

TALEB, Nassim Nicholas. A lógica do cisne negro. São Paulo, Best Seller, 2008.

TAPSCOTT, Don, WILLIAMS, Anthony D. Wikinomics: Como a Colaboração em Massa Pode Mudar o Seu Negócio. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2007.

 

UFA! Este post deu trabalho. Mas valeu a pena, não? Acredito que muitos dos livros que citei aqui já devam ter suas versões em português. Se você souber de algum, me avise que eu corrijo a referência.

 

ATENÇÃO: este post não é uma bibliografia minha, mas uma iniciativa que eu tive e que foi complementada por várias sugestões via Twitter e comentários neste blog. Por isso o post será constantemente reeditado e atualizado. Com o tempo, alguns dos comentários abaixo perderão seu sentido.

Less is more, século XXI » Vida Simples

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Um  mundo de abundância é um mundo de escolhas. Quando praticamente tudo é possível, o que faz a diferença não é mais o volume, mas o critério. É isso que os designers modernistas queriam dizer quando proclamavam que “less is more”: menos só significa mais quando os elementos escolhidos têm valor. Caso contrário, menos só quer dizer pobre.

O design contextualiza, explica e familiariza. Cabe ao designer ser o tradutor e intérprete dos novos tempos. Só que não adianta mais fazer algo bonito. Novos tempos demandam novos adjetivos. Selecionei alguns deles para ilustrar:

 
Por apenas mil doletas você também pode ter um par dessas BeoLab 4, pra compensar a $ que você economizou pirateando MP3.

O melhor exemplo desse uso de critério está no que nos acostumamos a chamar de minimalismo. Termos da moda à parte, ele propõe a redução do design aos componentes mais relevantes. No caos urbano, ele representa um abençoado silêncio. Essa simplicidade está muito longe de ser simplória. É preciso prestar muita atenção no detalhe. E fazer mais com menos.

O design pode ser fluido quando a superfície e a estrutura se fundem, a ponto de ficar difícil identificá-los. Apesar de novo em ambientes tecnológicos (como é o caso do GINA, falado no post anterior), é bastante comum em formas orgânicas. Cabe ao designer harmonizar o ambiente com a experiência dos usuários, para que suas fronteiras não sejam perceptíveis.


A hélice desse mixer imita as espirais de um lírio.
Super
Poder dos Limites.

Os avanços da tecnologia permitiram ao design abandonar aquela estrutura “certinha” do plástico e do vetorial. Ele agora pode ser físico e lançar mão de transparências, luzes, sombras e texturas. Alguns podem achar que isso é reação à tecnologia, mas é exatamente o contrário: é expansão.


A poltrona de ursinhos dos irmãos Campana tem tanta textura que mal se vê.
A forma segue a emoção.

Não é preciso ser retrô nem gostar de Brian Setzer para se praticar o design reciclado. Muito pelo contrário, ele é um claro sinal de adaptação aos novos tempos, em que todos os materiais podem ser encarados como matérias-primas. Se bem feita, a intervenção passa a ser muito divertida e claramente identificável. Ou como diriam os curadores de museu e professores de semiótica, tudo é uma questão de repossuir os elementos e ressignificar as velhas formas, embora eu não esteja bem certo do que isso queira dizer.

 
As capas das edições comemorativas do James Bond usam um estilos
de bico de pena, simulando todos os defeitos inerentes ao meio.

Em um mundo hiperconectado, o valor do local não é mais o exótico, mas a forma de pensar. Tradição e essência se misturam em uma sopa geográfica, e cada região contribui como pode. O local pode ser físico, histórico ou cultural. Se for uma mistura dos três, tanto melhor.


Meus alunos da ECA me chocam. A primeira vez que vi usarem o keffieh,
fiquei impressionado pelo tamanho da falta de respeito. Depois acostumei.
Fora do ambiente, a simbologia desaparece e ele é só um lenço.

Costumam associar design a branding porque ele é extremamente identificador. Pensando bem, nós vivemos dentro de redes de mensagens, sinais, informações e aprendizados que produzem nossa experiência do real. Uma marca familiar funciona como um ponto de referência nessa confusão.


Air Jordan. Claro que não é da Adidas.

Por falar em pontos de referência, é interessante falar da função narrativa do design. Ao organizar os elementos de múltiplas fontes, ele pode contar histórias e estimular a imaginação, transformando experiências que seriam tediosas em verdadeiras performances.


Esses museus são muito diferentes daqueles que você conhece.
Eles proporcionam uma imersão tamanha que a sensação é de se conversar com alguém que tem muito a contar.

Por último, como não poderia faltar, há o design incrível, que brinca com os sonhos e emoções em uma mistura que beira o imaginário. É ele que nos mostra a visão de um futuro possível, que não tem medo de delirar. Mesmo que se torne datado ou até mesmo ridículo com o tempo, não custa lembrar que todas as cartas de amor são ridículas.

Espero que este post sirva de inpiração para a próxima vez que você se sentir sem idéias. Elas existem às pencas por aí. O que é difícil é arranjar critério. Não se angustie por não poder pegar tudo, não dá para comer todos os pratos do cardápio. Da mesma forma, um design que use cores ou letras demais costuma provocar uma bela indigestão visual.


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