Gigatendências, parte II – Zeitgeist e Weltanschauung
sexta-feira, 20 de novembro de 2009
Quando o bom senso mostra o contrário, penso em Galileu resmungando: “e, no entanto, ela se move…”
Inovação é observação. Quando olhada sob a fita métrica da história, a maioria das descobertas e invenções científicas, tecnológicas e em modelos de negócios surgiu da prestação de um serviço que fazia todo sentido ao eliminar, acelerar, reduzir, limpar… otimizar, enfim, algum processo cotidiano ou simplesmente remover próteses que, apesar de corriqueiras, não faziam o menor sentido. O sucesso de RSS, podcasts, YouTube e o download de músicas, filmes e séries de TV vem muito mais de uma questão prática que de uma econômica.
Já houve tempo em que era considerado normal ser dono de uma cópia particular de uma música ou um filme. Já foi comum enfrentar o pedágio de ter sua diversão interrompida por mensagens comerciais porque alguém teria que pagar a conta – e nada mais natural que fosse você. Impérios financeiros com grande poder e influência nasceram do fato corriqueiro que informação tinha preço, e era vendida em bancas ou livrarias. Outros impérios se apoiaram em cobrar por cada minuto de interação – pessoal ou profissional, tanto fazia. E ainda tem gente que se espanta ao vê-los ruir. Não é crise: esses modelos quebram simplesmente por não fazerem sentido. O surpreendente é que tenham durado tanto.
O futuro é igual ao presente, tirado dele as coisas que não fazem sentido. Não é fácil perceber que o Rei está nu (ou que, para esses efeitos, a função da Rainha em um país democrático como o Reino Unido é simplesmente e pragmaticamente turística). Muitos dos que se incomodam com a situação logo se acomodam ao perceber sua impotência e logo desistem ou partem para a ficção, como Leonardo, Hergé e Júlio Verne.

Os tempos mudaram e revoluções individuais nunca foram tão fáceis. No entanto, muitos profissionais criativos, de designers a empreendedores, se comportam como crianças mimadas ao cultivarem suas idéias e percepções do mundo sem procurar validá-las na realidade. Agem como o adolescente que visualiza seu romance com a mulher dos seus sonhos sem perguntar se ela se interessa por ele, ou como o comerciante que se vê milionário antes mesmo de mandar sua proposta.
Em futebol, é comum perguntar por ironia ao jogador ou técnico que tanto canta suas glórias se ele tem o resultado combinado com o adversário. Em futebol também se diz que os que se acomodam com vitórias fáceis perdem de virada. Sábias lições.
Costumo dizer que criatividade não é exceção, mas regra. Novas idéias surgem o tempo todo, não há nada de especial em tê-las. Muitas pessoas, no entanto, são reprimidas – por sua educação, ambiente de trabalho, superego, medo do ridículo ou simplesmente acomodação – e se desacostumam da prática regular de buscar por novas idéias. Esse sedentarismo mental costuma levar a uma lerdeza criativa, traduzida pela resistência ao novo e adoção da primeira idéia que surgir ou, depois de lutar para conquistar o novo, se apoiar, ofegante, pelos louros conquistados – e ser engolido pela concorrência.
A indolência mental não é exclusividade dos pequenos. Na indústria de telefones celulares existem vários exemplos.
A Motorola investe em design e toma a dianteira, mas esquece de se preocupar com usabilidade e arquitetura de informação, e perde mercado para a Nokia. Esta se acomoda ao perceber que está bem à frente das empresas em seu segmento e perde a soberania para duas empresas sem tradição alguma em telefonia: RIM e Apple. Estas, se bobearem, poderão ser superadas por alguém que observa os problemas que hoje temos mas não nos animamos a melhorar. O que realmente ameaça não parece ameaçar.
É por isso que não acredito em Windows Mobile ou SilverLight: forçar uma solução pronta para dentro de outro aparelho sem pesquisar suas particularidades não é inovar, mas forçar a barra nos piores pontos de uma relação que já não está em seus melhores dias.

Por que ninguém reclama de PDF?
O pior problema do Flash é ser um plug-in instalável, de código complexo e fechado, operação difícil e SEO praticamente impossível. Isso sem falar que ele é uma nulidade em termos de acessibilidade por dispositivos fora de padrão, como celulares ou videogames e invisível para pessoas com necessidades especiais. Ele tem a seu favor o fato de ter sido pioneiro, se popularizado e ter uma legião de profissionais habilitados para tirar dele recursos muito além do que a maioria dos browsers oferecia. O Silverlight resolve algum desses problemas? Não. É só mais um plug-in, mais uma tralha a instalar, mais uma linguagem de programação a aprender, mais um empecilho para os profissionais de métricas, usabilidade e arquitetura de informação. Já tinha perdido a batalha antes mesmo de entrar nela.

O problema não está na Microsoft, mas em sua atitude. Ela tinha condições de atualizar compulsoriamente o Internet Explorer 6 e abrir seu código, mas grande e teimosa feito burocrata comunista, se recusa a fazer a gentileza.

Mesmo fora do segmento eletroeletrônico a regra se mantém. Adidas já foi a rainha do mercado de tênis esportivos. Perdeu espaço para a Nike, que foi alcançada pela Reebok e New Balance. A Mizuno estava entrando na festa quando a Nike resolveu investir em tecnologia (+iPod etc) e a Adidas, em estilo. Mizuno voltou ao nicho e Reebok… quem fala em Reebok hoje?

Os dois palavrões que entitulam este post mostram a importância da observação no processo de inovação. Retirados do psicologês, eles estão mais para jargão que para barbarismo. Zeitgeist, em alemão, quer dizer “espírito dos tempos”, mas não tem nada de místico. Ele se refere ao conjunto de estímulos que, derivado das mais variadas fontes, resulta na “personalidade” de uma época. Os loucos anos 20, a revolução sexual, o otimismo generalizado com o fim da II Guerra Mundial e com a queda dos regimes autoritários do leste europeu, os excessos da época da bolha pontocom são alguns exemplos, como também o são a depressão depois da quebra da Bolsa de Nova York em 1929, a tensão da Guerra Fria, a depressão dos anos Reagan, o pessimismo depois dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001.

Sim, Twitter também é um bom medidor do Zeitgeist.
Identificar o Zeitgeist não é nada fácil. Demanda entrevistas, leituras, comparações, análises e muita, muita observação. Institutos de pesquisa de mercado e consultorias de tendências se desdobram na busca por definir com alguma precisão o que permanece e o que muda a cada novo movimento econômico / político / social / tecnológico. Você consegue imaginar o efeito que a eleição de Barack Obama teve sobre a indústria de cosméticos? Ou o impacto das falsificações chinesas na redução de preços para o consumidor ocidental – e conseqüente redução no prazo de renovação do guarda-roupa? Pois é, muita gente vive de investigar possíveis respostas para estas e várias outras perguntas, e cobra somas bastante consideráveis pelos seus insights.
Hoje a busca pelo espírito dos tempos não é mais privilégio de empresas especializadas. Pelo contrário, deveria ser tarefa de todos. Mesmo que instrumentos caseiros não sejam tão precisos ou que não se imagine nenhuma aplicação imediata de suas descobertas, a compreensão do zeitgeist é fundamental para que as mudanças sejam absorvidas, assimiladas e utilizadas de forma sensata.

Todos deveriam, independente da área de atuação, fazer para si mesmos a pergunta “por que as coisas são do jeito que são hoje em dia?”, seguido de “o que está errado e pode ser melhorado?”. Muitas perguntas ficarão, obviamente, sem resposta. Não importa. Como em uma jornada zen de autodescoberta, o caminho é mais importante e significativo que o destino final. As respostas mudam com o cenário, que nunca é fixo.
Nos anos 1930, pais sonhavam com um futuro em que cada filho tivesse um automóvel, hoje sonhamos com a geração que não precisará deles. Nos anos 50, astronautas de episódios de Twilight Zone fumavam na lua e em foguetes. Nos anos 70, James Bond pegava uma estrela-do-mar e a jogava no barco com o mesmo desapego com que jogava um saco plástico na água.

A visão de mundo, quanto mais ampla e bem informada, mais criativa, inovadora e livre de preconceitos costuma ser. O Tao Te Ch’Ing diz que os seres vivos, ao nascer, são flexíveis e maleáveis e, ao morrer, se tornam duros e resistentes. A elasticidade dos pensamentos e crenças é, segundo eles, discípula da vida. A rigidez, seguidora da morte.

As redes sociais podem ser, ao mesmo tempo, potencial e perigo para o cultivo dessa observação. Ao estimularem o contato com formas diferentes de se pensar funcionarão, como grandes viagens, para ampliar a perspectiva e melhorar a compreensão dos tempos. Se funcionarem como câmaras de eco para velhas idéias, vícios e preconceitos terão o efeito contrário.
Aí que entra o outro palavrão do psicologês usado neste título: Weltanschauung – isso mesmo, com dois “uu”, Alemão é quase um código secreto. O termo vem de olhar (anschauen) o mundo (die Welt, ou “a” mundo) e é exatamente isso que o processo contínuo e freqüente de mensuração do Zeitgeist promete: uma visão/observação do mundo com familiaridade.
Perceber o mundo como um membro da família, reconhecê-lo em suas qualidades e defeitos, aceitar sua personalidade sem afetações, surpresas ou restrições é, hoje em dia, uma habilidade admirável. Espero que, em um futuro próximo, ela seja corriqueira.
É bom estar de volta. Obrigado pelo carinho e paciência.

Este post não foi escrito para chicotear cavalo morto, mas para mostrar como é difícil ver a inovação se você está do lado de dentro de uma indústria estabelecida. “Não se mexe em time que está ganhando”, diz a sabedoria(?) popular, embora a 



2. Formatos fechados, especialmente quando desnecessários: 









A sabedoria popular diz que para bom entendedor, meia palavra basta. Já quem não tem noção e é ignorado não se toca e passa a falar mais alto, a se vestir com cores mais berrantes, a atravessar o caminho de quem o ignora, a assediar insanamente, quando o bom senso indicaria o caminho oposto.
1. Aplicativos sociais - qualquer hot-site ou campanha de propaganda online depende de um problema estrutural: como o usuário não sabe que ele existe, é preciso fazer uma campanha de banners ou e-mail marketing para se chegar até eles. Ou seja, todo o esforço é duplicado, já que o usuário precisa ser impactado e depois se dirigir voluntariamente a um site. Ao se fazer ações dentro das redes sociais, a marca vai até onde o usuário já está, e isso poupa um trabalhão. Uma vez lá, em vez de banners que irritam e interrompem a experiência, pequenos aplicativos sociais que agreguem valor podem aumentar a visitação e agregar valor à marca de forma divertida e engajante. Parece comercial de TV? De certa forma sim, mas com uma significativa diferença: você escolhe que comerciais quer ver, e quem os mostra são seus amigos.



Em um cenário que muda a cada dia e em que as novidades se empilham, criam novas regras e se aniquilam mutuamente feito aquelas 
Existem dezenas milhares de blogs de auto-ajuda em que você vai encontrar as mais variadas receitas de inovação. Este certamente não é um deles. Qualquer receita demanda adaptação e se desatualiza. Em tempos de crise de referências, elas perdem a validade ainda mais rápido. Se você se sente ansioso, atordoado, estressado e desfocado, é provável que o problema esteja na forma com que encara as mudanças, que só tendem a aumentar.
Um conteúdo efetivo e relevante é muito importante para essa nova comunicação, mas não é o único fator que deve ser levado em conta. Existem vários casos, inclusive, em que ele nem é tão importante assim. A escolha adequada dos canais de diálogo, sua pertinência, valor, as atitudes que são tomadas a partir de cada conversa, suas repercussões sociais e - hoje cada vez mais importante - sua mobilidade, acessibilidade e portabilidade são fundamentais para se estabelecer um diálogo produtivo e duradouro.
Depois disso chegamos ao mundo comunitário, em que a melhor forma de se destacar era pertencer. Esquisito? Imagine. Para se destacar você precisaria pertencer a alguma tribo que, por sua vez, se destacava em grupo da sociedade. Nada mais linear e direto, tão simples quanto uma 
Se a gestão Obama será boa para os EUA ou para o resto do mundo, se ele chegou tarde demais ou se nem São Maquiavel de Churchill salvariam o grande Titanic do Norte, como sempre, não vem ao caso. O que me chama a atenção, hoje bem mais que o fenômeno pontual da eleição, é a história da popularidade do candidato. De repente, de forma viral (como a
Essa história me lembrou algumas cenas divertidíssimas de um filme bem velho, 

















No começo dessa transformação muita gente achava todo aquele silicone um bocado esquisito. Até bonito em sua perfeição estética, mas estranho. O visual excessivo, “certo” demais, era muitas vezes incompatível com a idade, proporções ou o 

Daí - e só daí - é que a Internet, uma rede de computadores pragmática, excessivamente técnica e que servia para aumentar a carga de trabalho das pessoas, se torna popular. Justo quando o componente virtual das pessoas, antigamente restrito às suas histórias, memórias, idéias e forma de falar já tinha tomado conta do corpo todo. Mas tatuagens, piercings, maquiagens, depilações, enchimentos e roupas custavam caro, causavam um certo desconforto e, mesmo assim, eram muito limitadas. Já as mídias sociais sempre foram gratuitas e permitiam a qualquer um se comportar como o