.  Luli Radfahrer

Luli Radfahrer
Luli Radfahrer Consultor e Professor-Doutor da ECA/USP

PhD em Comunicação Digital, já dirigiu a divisão de web de algumas das maiores agências e portais do país. Professor-Doutor da ECA-USP, Professor-convidado da Columbia University, Consultor, Luli também é autor. Sua última obra é "A Arte da Guerra para quem Mexeu no Queijo do Pai Rico".

Arquivo da Categoria ‘Design’

Na máquina dos outros

sábado, 27 de junho de 2009

wipeout

Para matar o tempo de vocês enquanto eu não produzo conteúdo novo, seguem duas coisas que talvez vocês já tenham visto. A primeira é meu artigo para a revista Webdesign de dezembro que, passados seis meses, pode ser tornado público aqui. Ele trata do fato que quase sempre esquecemos ao produzir idéias criativas: que elas serão consumidas pelos outros, que rodarão no computador dos outros, enfim. Acredito que seja mais por concentração que por desleixo, muitas boas idéias parecem se esquecer do outro, no melhor estilo “temo tudo para ganhar este jogo mas… faltou combinar com o adversário”. Não é dos meus melhores textos, mas acredito que vale postá-lo aqui nem que seja para servir simplesmente como lembrete.

Quem acompanha este blog há algum tempo (ou que tenha visitado minha seleção dos 10 61 posts de que mais gostei) pode ter dado de cara com um post de quase dois anos atrás, chamado Surf e tendências. Recentemente, em uma brincadeira com os estilos de storytelling que se pode desenvolver em apresentações - um tema que eu prometo desenvolver mais tarde por aqui - resolvi transformar parte do conteúdo do post em uma apresentação de 30 slides, que está a seguir. Quem conhece o post, experimente a comparação e me diga o que achou. Quem não o conhece, me diga se a apresentação consegue transmitir a mensagem. Ela nada mais é que um exercício de estilo:

Quem conhece essa comparação mas tem certeza de nunca ter lido nada a respeito talvez se lembre do iMasters InterCon 2007 em que, no papel de mestre de cerimônias, tive que “enrolar” a platéia por 25 minutos enquanto o Raphael Vasconcellos estava sendo retido na AgênciaClick pelo JeffPaiva. Na época não os conhecia bem o suficiente para sair distribuindo tapanoreias e tive que improvisar. Nada melhor que usar uma história que, como quase todas as outras deste blog, surgiu em um momento que eu estava de bobeira fazendo algo que não tinha nada a ver com a tal da Internet. É aquela história da verdade estar lá fora, etc.

Boa leitura. Prometo que volto com conteúdo novo se não explodir de tantas pendências atrasadas antes disso.

Trajano foi ao cinema (e ainda não voltou)

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Entre todas as ocupações que um designer pode ter, poucas fascinam mais que os cartazes de cinema. Existem coisas muito mais esquisitas, como projetar parafusos e bules de chá e outras que, de tão nerds, até chamam a atenção, como desenhar cenários para videogames ou ambientes de imersão. Mas Cinema é cinema, e o cartaz de cinema, por toda a liberdade temática que oferece, está entre as coisas mais criativas que um designer gráfico pode fazer.

Saul Bass

Ou estava. Não é preciso um olho minimamente treinado para reconhecer que filmes tão diferentes quanto Uma mente brilhante, Freddy vs. Jason e Nancy Drew usam, em seus títulos, a mesma - mesmíssima - família tipográfica:

Beautiful mind

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Nancy drew

O que um drama, um thriller e um filme de adolescentes têm em comum? Ora, o mesmo que este, este, este, este, este, este, este, este, este, este, este, este, este, e principalmente este filme têm. Títulos compostos com a família tipográfica Trajan em seus cartazes, ué.

300px-trajanspec3asvgCriada por Carol Twombly (que pelo que sei não é parente do Cy Twombly) em 1989, Trajan é um exemplo claro de uma família tipográfica Glífica, ou seja, inspirada em um alfabeto esculpido na pedra. Por isso ele tem umas curvas tão suaves e, às vezes, uns terminais tão compridos.

É por isso também que esse alfabeto não tem minúsculas. Na Roma antiga, época em que o texto que inspirou essa família tipográfica foi escrito, elas simplesmente não tinham sido inventadas.

O alfabeto que ela escolheu como inspiração para o trabalho não poderia ser mais importante: ele é o inscrito em mármore no monumento que comemora a vitória do Imperador Trajano sobre os Dácios (mas que você pode chamar simplesmente de Coluna de Trajano se não quiser parecer pedante).

Construída no comecinho do século II, em Roma, a coluna - e a estátua de bronze de São Pedro colocada em seu topo quase 15 séculos depois - garante assunto para vários posts e, a princípio, não tem absolutamente nada a ver com cinema.

Ela é importante porque depois de vários séculos de Idade Média, a caligrafia esculpida no mármore foi substituída pela escrita uncial das Bíblias e, quando chegou o Renascimento, praticamente ninguém sabia mais que forma tinham as letras maiúsculas do alfabeto. Pode parecer bizarro, mas não era nada fácil derivar um G de um g. Ou um R de um r.

A Coluna de Trajano, para alegria da geral, tinha o alfabeto inteirinho, tão bem desenhado e preservado que só faltava estar escrito “The quick brown fox jumps over the lazy dog”.

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Uncial. Pode chamar de Celta, mas ela é mais do que isso. O Império Romano foi tão grande que esse tipo de caligrafia é encontrada em toda Europa ocidental, das ilhas britânicas à Turquia.

OK, mas o que isso tem a ver com cinema? Nada. Absolutamente nada. Taí um mistério contemporâneo mais impressionante do que as vendas de “O Segredo” ou a popularidade da Microsoft. Uma teoria que corre por aí é que um cara que “faz designer” (sic) e trabalhava com cinema resolveu usá-la em um filme épico romano. Depois a usaram em outros tipos de filmes épicos. Depois simplesmente em filmes. Agora tanto faz, virou um chavão mais ou menos como aquele narrador de traillers.

Para se fazer design é preciso ver. Observar o layout que é feito, seja de um ícone para o MSN ou para um cartaz de cinema, como quem realiza um processo ativo e interage com a imagem que é vista. De todos os desenhos usados em um cartaz, as letras são certamente os mais reconhecidos, por isso devem ser variados o bastante para que sejam capazes de transmitir a expressão, ironia ou paixão de um discurso, coisa que se faz tão facilmente com tons de voz e olhares, mas que perde sua força quando por escrito.

Tabela periódica

É para isso que existem tantas famílias tipográficas. É por isso também que as palavras texto, textura e tecido têm a mesma origem e se usa tantas metáforas têxteis quando se fala em pensamento ou discurso. Mas isso fica para outro post, para não quebrar a linha de raciocínio =D

Pra encerrar, mais dois filmes que não têm nada a ver com a Coluna de Trajano:

Conquista da Honra

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Recomendações profissionais para quem pretende viver um século

sexta-feira, 20 de março de 2009

Outro dia reencontrei um grande amigo que não via há cerca de 18 anos. Combinamos de almoçar um dia desses e, depois de vários desencontros, conseguimos finalmente colocar a conversa em dia. Para minha grande alegria, ele estava muito bem. O aspecto profissional era inegável: ele ocupava um cargo importante dentro de uma empresa multinacional, responsável por várias decisões de porte. Tinha vivido um tempo nos Estados Unidos e não lhe faltavam ofertas para voltar para lá, em posições ainda mais altas. Mas não foi nada disso que me impressionou.

O que me deixou realmente feliz foi perceber que, mesmo com todo esse “sucesso” - que tanto eu como ele sabemos, é externo, efêmero e artificial - ele continuava o mesmo sujeito divertido, franco e simpático com quem é sempre um prazer trocar idéias, e nada ali era menos importante do que o cargo que ele ocupava. Saí do almoço inspirado, pensando como a vida e a carreira são longas hoje em dia, e como é importante administrar o legado que se deixa.

Curiosamente ao chegar em casa me esperava na portaria a nova edição da Revista Webdesign e, com ela, a possibilidade de postar meu artigo publicado há seis meses. Ele tratava do mesmo tema: que viveremos provavelmente mais do que um século, e que teremos a carreira mais comprida da história da humanidade, ao trabalhar dos vinte aos oitenta anos.

Ele se chama “Os primeiros dez por cento“, e pode ser lido logo abaixo.

Os primeiros 10%

junho de 2008 - Revista Webdesign nº 54

Uma das características mais marcantes de quem está em começo de carreira é uma enorme pressa. Pressa em aprender todas as técnicas, pressa em montar um portfólio, pressa em arranjar um emprego, pressa em sair da faculdade, pressa em “acontecer”, pressa, pressa, pressa, pressa… mas pra que tanta pressa? Poucos sabem, mas mesmo assim continuam a ter pressa. Afinal de contas o Pelé, aos 17, já era campeão mundial. O Michael Phelps, aos 15, já tinha mais medalhas que o Brasil. Segundo essa linha apressada, se você não “virou” antes dos 25, já era.

Essa lógica, além de perversa, não faz o menor sentido. Duvido que o designer de 25 anos quisesse ter sua casa projetada por um arquiteto da mesma idade. Ou sua causa defendida por um advogado sem um fio de cabelo branco. Por mais competente e seguro que fosse, não acredito que ele encararia tranqüilo ao ser operado por um médico recém-saído da residência. Acho até que mesmo um jovem gerente de banco não inspiraria a sua confiança. O medo faz sentido: por mais habilidoso que seja, o que me garante que um piloto com poucas horas de vôo seja capaz de enfrentar uma tempestade, se as únicas que viu foram em um simulador?

Você pode até argumentar que em criação é diferente, mas está errado. Marcello Serpa, Alexandre Gama e Nizan Guanaes estão na faixa dos 50 anos, Washington Olivetto na dos 60 – junto com Chico, Caetano e Gil. Os fundadores da DPZ ainda estão ativos, com bem mais de 70. E o que dizer do Niemeyer, nosso highlander da arquitetura?

A pressa, já dizia a sua avó, é inimiga da perfeição. Nunca se viveu tanto e nunca se trabalhou por tanto tempo. Quando eu era criança, “velho” era quem tinha 40 anos. Hoje é preciso ter umas duas décadas ou três a mais. Do jeito que a tecnologia avança, não é preciso ser otimista para acreditar que você certamente viverá mais de 100 anos – se não for fumante, claro. Também não é difícil acreditar que você dificilmente se aposentará antes de ter completado seus 80 e estiver com a cabeça bem cheia de cabelos brancos. Em uma vida tão longa, os primeiros vinte por cento são claramente desprezíveis: eles são o período de aprendizado, em que o profissional está se formando para encarar umas seis boas décadas de maratona. Aquele que largar desesperado dificilmente terá fôlego para chegar longe.

Apesar das bobagens faladas pelos livros e revistas de auto-ajuda executiva, você não se aposentará antes dos quarenta. Nem que tenha ganho um, dez ou cem milhões de euros. O trabalho é a atividade intelectual que nos mantém vivos e ativos, por mais que não gostemos dele. Mesmo que você não precise do salário, trabalhará pelo prazer de ver idéias acontecerem, de interagir com pessoas, de criar coisas. Vestir o pijama é jogar a toalha, e é isso que tanto deprime os desempregados, muito mais do que a falta de dinheiro.

Dê uma busca nos nomes que você ouviu terem ficado milionários antes do estouro da bolha das empresas pontocom e provavelmente descobrirá que todos estão trabalhando. Pesado. Os donos do Google batem ponto todos os dias, e mesmo o Bill Gates chamou de “aposentadoria” o que muitos chamariam de mudança de emprego. Para um trabalho mais puxado, vale ressaltar. O que ele faz em sua ONG não tem expediente nem final de semana, muito pelo contrário. Mesmo aquele capitalista mais nojento, tipo Donald Trump, com todos seus aviões e banheiros com torneiras de ouro, não é visto de chinelos em praias tropicais, mas de terno em salas de reunião. Se é assim, em quem você se espelha com toda essa pressa? Se não vai parar de trabalhar, pra que a correria?

Hoje em dia quem tem 26 anos acabou de completar os primeiros 10% de sua carreira. Aos 40, terá chegado a um terço dela. A metade só chegará quando ele chegar à meia-idade. Nem mesmo quando ele chegar aos setenta poderá dizer que o fim está próximo. A não ser que aconteça alguma guerra ou pandemia, a expectativa de vida no meio do século XXI pode ser bem maior do que se imagina hoje.

A experiência faz bem. Quem arranja o primeiro emprego em uma empresa grande não tem tempo de treinar. Quando fizer uma besteira – e todos fazem besteiras o tempo todo, não se iluda – será mais visível e frágil. Quem vira chefe rápido, rapidamente será enganado por seus subordinados, trapaceado por seus colegas ou preterido em uma futura promoção. Quem ganha dinheiro fácil e rápido costuma gastá-lo ainda mais rápido e com mais facilidade, como se vê facilmente em muito jogador de futebol, pagodeiro, apresentador de TV, modelo/atriz, participante do Big Brother ou ganhador da MegaSena.

Antes de sair correndo desembestadamente e gastar toda a sua energia, gaste alguns minutos para perceber aonde está e para onde pretende ir. Não se pode seguir vários caminhos ao mesmo tempo e são poucos os que realmente valem a pena. Estude o máximo que você puder, porque o mundo está cada vez menor e cada vez mais difícil de enganar.

A vida não é fácil. Quem diz que é mente ou está ainda mais perdido que você. Como diria um filósofo Zen, “ao caminhar, apenas ande”. Concentre-se no que pretende fazer, como pretende ser reconhecido, aonde pretende chegar daqui a uns 20 anos. E leve 20 anos para chegar lá. Se conseguir o que quer em 18 anos, estará no lucro. Se chegar em 5, provavelmente definiu a meta errado. Ou chegou ao lugar errado.

Ninguém duvida que o Jobs que criou o iPhone é muito melhor do que o Steve que fundou a Apple. O primeiro mudou o mercado, o segundo foi demitido. Por mais que você acredite estar com “vinte e tantos” anos, saiba que o prefixo “vinte” não admite o complemento “tantos”. Isso é coisa para quem tem trinta ou quarenta. Nessa idade, só se tem “vinte e qualquer coisa”.

É a melhor época da vida para se experimentar e errar – pode ir tranqüilo, ninguém está de olho em você.

Mecânica dos fluidos: Design no ambiente elástico

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Os vídeos deste post foram gravados em uma palestra minha para o 13º Encontro de Web Design, nas edições de Curitiba, Porto Alegre e São Paulo. Fazia tempo que não falava sobre design, por isso fiz uma palestra um pouco longa, de vez em quando bastante conceitual, mas acho que ficou bacana. Para montá-la, dei uma bela pesquisada em uns livros legais e outros sites melhores ainda. Afinal de contas, já que continuo a enrolar vocês com relação ao meu livro que nunca sai, tinha que prestar algumas satisfações. A primeira parte está no vídeo a seguir:

Chamei a palestra de “mecânica dos fluidos” porque, para mim, esse é o maior desafio do designer hoje em dia. Ao contrário do que acontecia no ambiente certinho, estático e previsível em que vivíamos até dois terços do século passado, o mundo hoje é fluido e fragmentado, feito o resto de azeite e vinagre que sobra no prato no quando a salada acaba.

As categorias das coisas se misturam e se complementam, em uma confusão tão grande que fica a cada dia mais difícil classificá-las. Traduzi-las, então, ainda pior.

E é exatamente isso que o designer faz: cabe a ele traduzir a complexidade dos conceitos e idéias novos na simplicidade das formas e interfaces. Pense em como seria difícil explicar a  Internet se não houvesse a web, por exemplo.

Não é uma tarefa fácil. E tem muito pouco - quase nada, aliás - a ver com arte. Arte é uma forma de expressão individual, uma conversa entre o artista e seu público. Em design, o profissional  é só um intermediário: toda atitude e expressão devem estar no produto.

O trabalho de tradução que o designer realiza está por toda parte. Graças a ele as coisas mais exóticas - como o cursor de um mouse ou o sistema de autofoco de uma câmara, por exemplo, deixam de ser sinais elétricos sem cara e passam a ser visíveis e audíveis. Esse é o motivo, na minha opinião, da crescente popularidade do design nos tempos acelerados em que vivemos.

Sempre vale a pena lembrar que, por mais que muitos desejem, as tecnologias não vão parar. Pelo contrário, elas devem acelerar cada vez mais, e com elas a necessidade de mais design para traduzir um ambiente mais complexo e mutante. Cada nova tecnologia traz consigo um
a sensação de desconforto, que nada mais é do que o sinal da mudança. Cabe aos designers dar a sua cara,
 torná-las compreensíveis e amigáveis.

A palestra se estende explicando alguns caminhos para realizar esse processo de tradução. Se você quiser saber mais delas, dê uma olhada neste post.

A segunda parte da palestra chama a atenção para o fato que design é uma linguagem, e como toda linguagem, é uma interface, ou ponto de contato entre duas pessoas. Mas um tipo de interface especial, que permite ao conhecimento se deslocar no tempo e no espaço, de uma forma muito envolvente - é uma conversa, como eu já tinha dito aqui.

Vivemos cercados de aparelhos que conversam conosco. Do alarme do carro ao autofoco da câmara fotográfica, do vibracall do celular ao barulho do pisca-pisca, todas essas formas de expressão têm seu léxico e gramática próprios, e precisam ser aprendidos para serem compreendidos. Por isso que é tão difícil para um usuário de Mac pilotar uma máquina Vista: Português e Catalão não são a mesma coisa.

e nego se diverte… adoro este país =)

Por definição, design significa desenho, projeto e desígnio - é uma forma de arte gráfica que obedece a uma finalidade e tem uma função clara. À medida que se torna mais importante, design também pode ser compreendido como substantivo (o design de Mies Van de Rohe), verbo (aquela comunicação demanda redesign), ou até adjetivo (essas cadeiras de design são desconfortáveis). Mas isso é só o começo. Design também pode significar criatividade aplicada, pode ser usado para solucionar problemas, pode ser compreendido como um tipo de aprendizado, uma evolução no modo de se encarar um objeto, serviço ou situação, um processo social, um jogo de descobertas e resolução de problemas, uma exploração por um terreno sensorial desconhecido ou pouco trilhado, um diálogo…

Design, enfim, é comunicação. E comunicação é o que faz de nós, humanos, uma espécie tão fascinante.

Less is more, século XXI » Vida Simples

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Um  mundo de abundância é um mundo de escolhas. Quando praticamente tudo é possível, o que faz a diferença não é mais o volume, mas o critério. É isso que os designers modernistas queriam dizer quando proclamavam que “less is more”: menos só significa mais quando os elementos escolhidos têm valor. Caso contrário, menos só quer dizer pobre.

O design contextualiza, explica e familiariza. Cabe ao designer ser o tradutor e intérprete dos novos tempos. Só que não adianta mais fazer algo bonito. Novos tempos demandam novos adjetivos. Selecionei alguns deles para ilustrar:

 
Por apenas mil doletas você também pode ter um par dessas BeoLab 4, pra compensar a $ que você economizou pirateando MP3.

O melhor exemplo desse uso de critério está no que nos acostumamos a chamar de minimalismo. Termos da moda à parte, ele propõe a redução do design aos componentes mais relevantes. No caos urbano, ele representa um abençoado silêncio. Essa simplicidade está muito longe de ser simplória. É preciso prestar muita atenção no detalhe. E fazer mais com menos.

O design pode ser fluido quando a superfície e a estrutura se fundem, a ponto de ficar difícil identificá-los. Apesar de novo em ambientes tecnológicos (como é o caso do GINA, falado no post anterior), é bastante comum em formas orgânicas. Cabe ao designer harmonizar o ambiente com a experiência dos usuários, para que suas fronteiras não sejam perceptíveis.


A hélice desse mixer imita as espirais de um lírio.
Super
Poder dos Limites.

Os avanços da tecnologia permitiram ao design abandonar aquela estrutura “certinha” do plástico e do vetorial. Ele agora pode ser físico e lançar mão de transparências, luzes, sombras e texturas. Alguns podem achar que isso é reação à tecnologia, mas é exatamente o contrário: é expansão.


A poltrona de ursinhos dos irmãos Campana tem tanta textura que mal se vê.
A forma segue a emoção.

Não é preciso ser retrô nem gostar de Brian Setzer para se praticar o design reciclado. Muito pelo contrário, ele é um claro sinal de adaptação aos novos tempos, em que todos os materiais podem ser encarados como matérias-primas. Se bem feita, a intervenção passa a ser muito divertida e claramente identificável. Ou como diriam os curadores de museu e professores de semiótica, tudo é uma questão de repossuir os elementos e ressignificar as velhas formas, embora eu não esteja bem certo do que isso queira dizer.

 
As capas das edições comemorativas do James Bond usam um estilos
de bico de pena, simulando todos os defeitos inerentes ao meio.

Em um mundo hiperconectado, o valor do local não é mais o exótico, mas a forma de pensar. Tradição e essência se misturam em uma sopa geográfica, e cada região contribui como pode. O local pode ser físico, histórico ou cultural. Se for uma mistura dos três, tanto melhor.


Meus alunos da ECA me chocam. A primeira vez que vi usarem o keffieh,
fiquei impressionado pelo tamanho da falta de respeito. Depois acostumei.
Fora do ambiente, a simbologia desaparece e ele é só um lenço.

Costumam associar design a branding porque ele é extremamente identificador. Pensando bem, nós vivemos dentro de redes de mensagens, sinais, informações e aprendizados que produzem nossa experiência do real. Uma marca familiar funciona como um ponto de referência nessa confusão.


Air Jordan. Claro que não é da Adidas.

Por falar em pontos de referência, é interessante falar da função narrativa do design. Ao organizar os elementos de múltiplas fontes, ele pode contar histórias e estimular a imaginação, transformando experiências que seriam tediosas em verdadeiras performances.


Esses museus são muito diferentes daqueles que você conhece.
Eles proporcionam uma imersão tamanha que a sensação é de se conversar com alguém que tem muito a contar.

Por último, como não poderia faltar, há o design incrível, que brinca com os sonhos e emoções em uma mistura que beira o imaginário. É ele que nos mostra a visão de um futuro possível, que não tem medo de delirar. Mesmo que se torne datado ou até mesmo ridículo com o tempo, não custa lembrar que todas as cartas de amor são ridículas.

Espero que este post sirva de inpiração para a próxima vez que você se sentir sem idéias. Elas existem às pencas por aí. O que é difícil é arranjar critério. Não se angustie por não poder pegar tudo, não dá para comer todos os pratos do cardápio. Da mesma forma, um design que use cores ou letras demais costuma provocar uma bela indigestão visual.


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