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Luli Radfahrer
Luli Radfahrer Consultor e Professor-Doutor da ECA/USP

PhD em Comunicação Digital, já dirigiu a divisão de web de algumas das maiores agências e portais do país. Professor-Doutor da ECA-USP, Professor-convidado da Columbia University, Consultor, Luli também é autor. Sua última obra é "A Arte da Guerra para quem Mexeu no Queijo do Pai Rico".

Arquivo da Categoria ‘Mídia’

Porque a mídia deve se preocupar, parte IV

sábado, 15 de novembro de 2008

Qualquer ação que proporcione prazer físico ou intelectual deixa de proporcioná-lo assim que se torna compulsória. Sexo, sono, comida, viagens… todas são atividades maravilhosas, desde que seja sua opção fazê-las.

Quando obrigatória, até uma viagem às Maldivas pode se tornar um saco. Esse é um dos grandes perigos da época digital: se por um lado é ótimo mudar completamente de cara, corpo e atitude conforme a ocasião, por outro lado é muito chato ser obrigado a fazê-lo o tempo todo.

E no entanto é isso o que mais se faz nas redes sociais: estabelecer e reafirmar a própria identidade. Seu nome de usuário (nick), a forma com que você se apresenta (avatar), as fotos que escolhe, os textos que escreve, os temas que aborda… pode não parecer, mas essas atitudes têm muito pouco a ver com a informação que pretendem transmitir. Em um cotidiano que todos são estrangeiros e não há tempo nem paciência para se ouvir a história de ninguém, as personalidades são extremamente maleáveis.

Você é o que consome.

Já se foi o tempo em que era preciso ter um lado nerd para fazer parte de grupos de IRC e clãs de RPG. Agora que a presença em comunidades é praticamente obrigatória, o indivíduo é descrito pelo que o Google fala dele, pelo que se tuíta a seu respeito, pela forma como se comporta em mídias sociais, pelos avatares que porta e por toda a nuvem de tags que ele próprio cria a seu respeito, intencionalmente ou não, à medida que se transforma em seu próprio Big Brother. Não é de se admirar que tal cenário não tenha sido previsto por autores de ficção científica. Seria estranho demais para ser crível.

É estranho demais para ser crível.

À medida que a informação se popularizou, as identidades se pulverizaram. Sem aviso, o espírito de corpo se tornou uma relíquia dura de explicar nos termos da Teoria do Caos. Fica difícil imaginar um mundo em que só havia uma verdade, uma versão, uma realidade, uma certeza. E no entanto as coisas eram assim há pouco mais de um quarto de século. Sob certos aspectos, ainda o são em comunidades pequenas, grupos fechados, sociedades remotas. Como disse em uma série de posts sobre o Pós-Moderno, não há mais dúvida que Nova York esteja efetivamente mais perto do que o sertão.

Pouco importa o desconforto, ninguém leva a sério a idéia de voltar atrás. Mesmo que fosse possível, não seria desejável. Boa parte da situação que se vê hoje em dia nos grandes centros urbanos conectados é fruto de uma maior liberdade de expressão. De escolha. De ação, enfim.

A pulverização da identidade acompanha de perto a disseminação da informação. Em comunidades fechadas, de Amish a Trekkers, tanto como em cidades pequenas, de Turnu Măgurele a Bálsamo, não há espaço para múltiplas interpretações da realidade. Você é aquilo que o grupo determinou que seja, e não se fala mais no assunto. Se você está confortável, ótimo. Se não, na melhor das hipóteses a porta da rua é serventia da casa.

À medida que a economia da informação se descentralizou, a questão da identidade foi se tornando mais e mais complexa. E complicada. Quando o rei é descendente direto da divindade e tem poder inqüestionável, a idéia de uma sociedade de castas não é tão complicada assim. Você nasceu escravo, vai morrer escravo e se rebelar talvez só acelere o processo. Por mais que tente, a Índia não consegue se livrar dessa enorme mancha em sua reputação até hoje.

Sob esse aspecto, o Século XX foi muito louco, já que buscou argumentos racionais para reproduzir as mesmas estruturas. Intelectuais de diversos segmentos e áreas de interesse apoiaram as insanidades de Stalin a Mao, de Adolf a Mobutu, de Médici a Pinochet.

Todos muito parecidos, com uma divergenciazinha ou outra na questão dos recursos humanos. A idéia básica era mais ou menos a mesma do Império Romano: informação controlada, poder absoluto, manipulação da opinião pública e repressão feroz. Por mais bonito que seja falar da China hoje em dia, ela não é exatamente um exemplo nesse quesito. Cuba, então, muito menos. Mas ninguém mais fala de Cuba hoje em dia.

Uma boa prova de que as idéias de liberdade de imprensa, de associação, de escolha e de expressão são forças irresistíveis está no fato de que, pela primeira vez na História, o povo do Século XX reagiu às forças de opressão e colocou no poder uma estrutura com alguma transparência.

Melhor do que nada.

Winston Churchill já dizia que a democracia é a pior forma de governo, exceto todas as outras que são tentadas de tempos em tempos. Ele também disse que o povo dos Estados Unidos sempre teve a capacidade de fazer a coisa certa depois que todas as outras opções foram testadas. Sob esse aspecto, os experimentos americanos para a ascensão e queda do capitalismo corporativo como o conhecemos foram dignos de nota.

Para combater as restrições impostas pelos governos centralizadores, as grandes empresas propuseram maior liberdade e prosperidade. Assim que assumiram o poder, reproduziram os mesmos velhos hábitos. Na década de 1980, só era “alguém” um indivíduo que tivesse um emprego em uma delas. A própria definição de “sucesso” passava, obrigatoriamente, por uma submissão incondicional aos seus valores.

O fim da guerra de 1945 marca o início da idade mídia (o termo é meu), em que os veículos de comunicação crescem, abrem seu capital, se tornam propriedade de empresários e passam a reproduzir seus ideais. Para se opor a eles, jornais “de esquerda” defendem e são custeados por ditaduras militares. Não consigo imaginar melhor exemplo de uma idade das trevas, ainda mais se levarmos em consideração as variadas ameaças nucleares.

 

A alta idade mídia era bastante maniqueísta: você era uma coisa ou outra, sem meio-termo. Combinar pedaços? Impensável. Para reforçar cada lado de uma questão, várias “personalidades”, de executivos a atores, serviam de modelo de comportamento. Os “astros” e “profissionais de sucesso” eram os novos Faraós.

Só que a liberdade promove inquietações. Por mais variados que fossem os modelos de comportamento, eles não eram muito mais abrangentes ou sofisticados do que os propostos pelos vilarejos culturais de antigamente. Expostos à possibilidade de conviver com a diversidade, as pessoas passaram a querer cada vez mais. O Punk, como retratei no post anterior, foi só uma das formas de contestação. Se eu posso determinar meu próprio estilo, por que me negam acesso aos meios de comunicação?

Mmmm… perguntinha difícil. Ela deu origem à baixa idade mídia, em que o glamour da indústria do espetáculo dá lugar à decadência dos espetáculos de realidade. Neles, são chamados de “celebridades” uns sujeitinhos desestruturados e inseguros, que não fizeram nada de célebre para celebrar.

A economia do prestígio transfere o poder das tais celebridades para pessoas comuns que tenham adquirido credibilidade pelo conjunto da obra. É um trabalho de formiguinha, inglório, em que fórmulas mágicas simplesmente não acontecem. Seu roteiro é tão previsível que chega a ser piegas, com valores que lembram um filme do Tom Hanks. Ou a campanha do Obama.

 

Existe, no entanto, uma enorme diferença entre a economia do prestígio e o ideal clássico de ascensão social. No novo ambiente, todos os temas são importantes, desde que elaborados com afinco. O valor da obra só depende de sua coerência, consistência e profundidade. Um tutorial de legislação é tão importante quanto uma coletânea de textos humorísticos. Cada leitor preza o que achar mais adequado conforme a ocasião. Não tem nada de errado nisso, muito pelo contrário.

Como já disse antes, o errado está na busca pelo absoluto.

Se a sociedade contemporânea parece para você muito mais bagunçada e confusa do que este texto tenha sugerido, é porque ainda estamos a caminho. Por mais que pareça corriqueira, a economia da atenção não é fácil de controlar. A descentralização da informação gera um número tão grande de variáveis que administrá-las é quase uma arte. É um processo que toma tempo, demanda estrutura e dá um baita trabalho.

Por isso, se você acha o conteúdo gerado pelas mídias sociais ainda ruim demais, amador demais ou imaturo demais para ser levado a sério, você tem razão. Em parte e por enquanto. De certa forma, isso não é ruim. Significa que ainda há espaço para entrar e fazer a diferença. Seria muito pior se você quisesse ser trompetista de Jazz, pois teria que competir com Chet Baker ou Miles Davis.

Na verdade, as mídias sociais não são ruins. Elas são, em sua maioria, amadoras, em seu melhor sentido. Como este blog, amam o que fazem e buscam, através de seu trabalho, contribuir para mudar o mundo. São diletantes não por fazerem pouco, mas por acharem delicioso o que fazem.

Não consigo pensar em nada mais meritório do que isso.

Esta série acaba aqui. Agora você segue por conta própria. Ou não.

Porque a mídia deve se preocupar, parte II

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Por mais que berre, esperneie e faça escândalo a velha mídia e todos os representantes de uma indústria baseada em escassez de informação, é fato consumado que o conteúdo está cada vez mais pulverizado, abundante e distribuído.

Se você ainda tem dificuldade em “comprar” esse argumento, pense na forma com que veio a saber dos fatos mais relevantes das últimas semanas: a crise financeira mundial, a eleição do prefeito de sua cidade, o resultado do futebol, da Fórmula 1 ou até mesmo um crime passional qualquer. Antigamente – há uns dez anos, mais ou menos – dizia-se a respeito de uma notícia que ela tinha sido “lida na Veja” ou “vista na Globo”. Hoje em dia ninguém mais diz onde viu algo ou até mesmo se sabe quem disse alguma coisa. Essas informações simplesmente não são mais relevantes. A informação é tanta e tão abundante que o veículo não tem mais importância. A não ser, é claro, nos casos em que for autor da informação.

O aumento da entropia da mídia é inevitável, e isso acontece por uma razão muito simples: ele é resultado de uma maior liberdade de expressão. Os mais apressados poderiam chegar à falsa conclusão que estamos em uma época de informação mais democrática. Mmmm… mais ou menos. Por um lado é inegável que o acesso à informação é muito mais fácil e direto, mas não se pode esquecer que a democracia não é sinônimo absoluto de liberdade. Ela também implica em um confronto de idéias em que um lado sai vencedor e o outro precisará aprender com a derrota.

Al Gore é um excelente exemplo do aprendizado proporcionado pela democracia. Depois de perder uma eleição que teve alguns aspectos dignos de republiqueta bananífera, ele teria todo o direito de ficar de chorumelas. Pois ficou? Nada disso. Reconheceu a queda, não desanimou, levantou, sacodiu a poeira, abraçou a causa do aquecimento global e deu a volta por cima. Mesmo se a causa não fosse nobre ele já estaria de parabéns. Já seu oponente…

O mundo democrático permite que velhas estruturas que já foram donas do poder um dia voltem eventualmente a sê-lo. Quer melhor exemplo disso que um PFL em suas diversas encarnações? Já a migração das estruturas de poder é parte de um processo evolutivo muito mais intenso - e que, em si, não tem nada de novo. Da mesma forma que a crise financeira e o estouro da “bolha” pontocom, ela é só um efeito de demandas sociais muito mais poderosas do que poderia imaginar.

O Punk e seus descendentes não “inventaram” nada, só deram voz a pessoas que se sentiam esmagadas pelas velhas estruturas de mídia ainda mais repressoras do que as que encaramos hoje. Ele é, na minha opinião, é um dos movimentos culturais mais libertários. Ao propor que qualquer pessoa poderia tocar ou cantar como que quisesse, vestir o que quisesse, onde quisesse e editar a revista que quisesse com máquina de escrever, tesoura e xerox, eles abriram caminho para a editoração eletrônica - e subseqüentemente, para a Blogosfera. Claro que a turminha produzida pelo Malcolm McLaren não tinha a menor intenção de promover uma revolução na mídia (nem, naturalmente, poder algum para fazê-lo). Eles apenas pegaram carona em um movimento social poderoso.

A história da democrat popularização das fontes de informação não começou com a Internet (nem vai parar por aqui, para desespeiro de alguns ex-blogueiros que viram casaca feito os porcos gordos da Revolução dos Bichos). Ela é muito, muito longa. No começo do que podemos chamar de civilização organizada, toda a informação, orientação e código de conduta tinham uma só fonte e origem: o monarca governante, descendente direto da divindade e considerado fonte suprema de sabedoria.

Tirânicos ou pacíficos, esclarecidos ou belicosos, bonzinhos ou malvadões, pelo menos uma coisa todos eles tinham em comum: sua palavra era a lei. Naquela época, a simples idéia de se separar religião de Estado seria considerada uma heresia de causar horror.

E no entanto essa crença inquebrável, como é comum com todas as crenças inquebráveis, acabou sendo confrontada e se quebrou. As forças de fé se separaram das forças políticas, e mesmo com os termos da separação sendo quase promíscuos de tão amigáveis, chegou uma hora em que os interesses das duas partes entraram em conflito.

(Imagino o tamanho do escândalo que essa divisão deveria significar para o povaréu da época. O indivisível tinha se partido em dois, e os dois trocavam acusações com uma virulência de fazer inveja a pais mal-divorciados. Pois eles mal sabiam que essa seria só a primeira de uma série de divisões em cascata, em que cada nova etapa implicaria em uma perda ainda maior de poder.)

Anos mais tarde a Igreja se partiria em várias formas de fé, cada uma com igual dose de razão em sua versão dos mundo e seus motivos. Antes que a Monarquia pudesse dar risada da perda de poder de sua ex-companheira, eta também teve de ceder e passou a dividir residência com os três poderes da República. A fonte de informação, que era uma só (o governante, representante direto da divindade), se multiplicou. O que no princípio causou uma baita confusão, em pouco tempo se mostrou mais esclarecedor: quanto mais portadores a verdade tivesse, mais sincera e poderosa ela seria. A lei do mercado aplicada à teoria da informação, nada mal.

Mas a evolução, por definição, é um processo contínuo, e não pdoeria parar por ali. No melhor dos espíritos democráticos surge a indústria da comunicação, e por um tempinho todos se sentiram representados. A publicidade quase conseguiu pegar carona nessa onda, mas seus excessos a transformaram em uma forma alternativa de entretenimento. Na segunda metade do século passado as coisas pareciam ter sossegado.

Daí surgiu a Internet, essa intrometida.

Nos tempos atuais, a abundância de conteúdo faz com que ninguém mais precise dar ouvidos a algum dos (ainda) grandes órgãos de imprensa se não quiser. O Google, a Wikipedia e a Blogosfera tornaram-se recursos (por que não dizer, patrimônios) de uso recorrente tão preciosos que dá trabalho imaginar um mundo sem eles. Quem quiser mensurar seu impacto é só imaginar um mundo sem esses serviços. Pense em todas as dúvidas que você encaminha diariamente para o oráculo da Internet. Para quem você as encaminharia há dez anos?

A resposta não poderia ser mais simples: as perguntas simplesmente não eram feitas e pronto. Todo mundo carregava por aí um belo punhado de incertezas como se isso fosse a coisa mais normal do mundo. Esquisito, naquela época, seria imaginar o contrário, pensar em alguém que pudesse ter ao alcance da mão respostas para praticamente todas as dúvidas da humanidade. Tudo bem, já ouve épocas em que se acreditava ser ruim tomar mais do que um banho por mês.

A popularização da informação a banaliza (sem segredos fica difícil preservar privilégios) e indica uma mudança considerável na forma com que se vê o mundo. Pode parecer um exagero, mas não é. Veja a crise econômica que se avizinha, por exemplo. Ela pode não ser nada mais do que a falência decretada de um modelo de se transacionar bens e conteúdos baseado em informações privilegiadas, lobbies e conchavos.

O mercado de ações, futuros e derivativos é um mercado de especulação. Em última instância, é um mercado de informação, expectativa e confiança.

Pensando nisso fica curioso notar que a crise coincide com uma epidemia de empreendedorismo sem precedentes. Mais curioso ainda fica perceber que enquanto um segmento da economia (aquele ligado às grandes corporações e macro estruturas) se desfaz enquanto outro (o das pequenas cooperativas, idéias inovadoras, aproveitamento sensato de recursos e conexões inesperadas) prospera maravilhosamente. Curiosíssimo quando se identifica que a parte que vai bem é exatamente aquela que contraria o mandamento Nizanesco e investe, sem medo nem piedade, no novo.

Será preciso ser irremediavelmente otimista para imaginar que estamos às portas de uma mudança radical na sociedade como a conhecemos? A cada diz fazem menos sentido aquelas empresas gigantescas, com mais de cem pessoas só no departamento de RH. Pense bem: como pode dar certo uma estrutura que ostenta mais de 100 profissionais empenhados somente na árdua tarefa de…administrar os outros? Tem algo errado aí.

 

Se para você as grandes empresas parecem uma máquina de Governo inchada, lerda e ineficiente, você não está paranóico (ou estamos todos). O Império que já foi do Estado, da Igreja, da Monarquia e da República agora é das grandes empresas e de sua máquina de comunicação e publicidade. Na década de 40 era chique trabalhar para o poder público. Na de 80, ser executivo de uma multinacional. Hoje o funcionário público precisa de um enorme esforço para provar que é íntegro - e sabe que o faz apesar do Estado. O tiozinho de terno azul e sapato caramelo (com cinto combinando) pode não saber, mas segue o mesmo caminho.

Vivemos hoje uma época de transição. O poder migra hoje das empresas para as pessoas. Tenho várias considerações sobre essa metamorfose, mas o texto já está longo demais. Continuo no próximo post.

Antes que você o leia, recomendo que dê uma olhada na excelente apresentação do meu amigo Cris Dias baseada neste livro do Cory Doctorow. Se quiser, dê também uma olhada neste artigo que a analisa. 

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Porque a mídia deve se preocupar, parte I.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

À primeira vista esse vexame aí de cima seria só mais uma daquelas polêmicas vazias de publicitários. Não se pode levar a sério um bate-boca inconveniente, deslocado e de baixo nível travestido de (ahem) debate se este não estivesse em um tipo de arena circense de cujo público está acostumado com micagens. No melhor estilo dos barracos promovidos por “celebridades” e “artistas”, nada diferenciaria o confronto acima de qualquer bobagem à Caras, completamente irrelevante para o mundo aqui fora. É certo que o gigantesco desdém que o sr. Guanaes aparenta ter com relação à língua portuguesa - “não invistam DO novo“? - levam a pensar que o nome ABC do grupo de empresas que controla deve ser alguma ironia de mau gosto, mas isso é mudar de assunto.

Na minha opinião, os dois perderam. Mas quem sou eu para criticá-los? Prefiro me concentrar no que se lê nas entrelinhas desse arranca-rabo. Não é preciso um bacharelado em psicologia para perceber que a reação exagerada parece típica de quem tem muito dinheiro, poder e influência e está com um medo enorme de perdê-los. Perdidos feito cães acuados, os nobres senhores não sabem direito para onde devem latir. E se descabelam feito turistas perdidos no meio da mata que, percebendo que estão a perigo, começam a culpar uns aos outros em vez de tentar entender aonde estão.

Não é preciso explicar para o cliente o que um publicitário é capaz de fazer. Ele o sabe bem. Tão bem que começa a pulverizar a verba para uma variedade de fornecedores. Já foi chique ser publicitário. Hoje não é mais. À medida que o prestígio escorre pelos vãos dos dedos feito areia fina, tenta-se de tudo para parar a Tsunami do progresso. E feito uma criança que tampa os olhos e finge que é invisível, tenta-se pregar em fóruns públicos uma realidade alternativa.

 

Virar as costas para o progresso é uma estratégia suicida. Mais do que isso, é incoerente com a própria indústria da criatividade e inovação. Isso não é só a minha opinião. Qualquer zé mané sabe que a crise é a mãe da invenção, até a banda que tocava com o legendário Frank Zappa carrega esse nome. Qualquer powerpoint de auto-ajuda defende a maledeta idéia de um tal ideograma chinês para “crise” seria composto de “perigo+oportunidade” (o que, bem lembra minha amiga Rosana Hermann, é só uma lenda urbana, mas estamos mudando de assunto).

Em resumo: quem propõe evitar o novo não quer causar polêmica, quer manter tudo exatamente do jeito que está.

Mas o que aconteceu com esses caras para mudarem de lado tão rápido? Não deve ter sido o dinheiro ou os clientes, até porque esse movimento é novo e atinge praticamente toda a indústria de mídia de massa, da propaganda aos veículos. Todo mundo, de uma hora para outra, ficou meio “careta”.

Na minha opinião a revolução foi provocada por vocês. Por todos nós que usamos, produzimos e veiculamos conteúdo nessa sopa primordial de dados sem suporte. Nós somos o início de uma revolução sem par. Ela não começou em um dia ou local específico e absolutamente não pode ser mensurada.

As revoluções sociais são assim, elas começam aos poucos e são praticamente imperceptíveis em seus primeiros dias. A queda de Roma não aconteceu em uma terça-feira, a pandemia de AIDS não começou às 14h de um dia de agosto, o aquecimento global não tem data de aniversário e até mesmo para essa crise econômica mundial que se avizinha não é fácil determinar. Por mais que esperneiem os defensores da indústria do petróleo, a Idade da Pedra não acabou por falta de pedras, mas pelo surgimento de novas tecnologias para substituí-las.

É certo que a mídia de massa ainda é um segmento potente e influente da economia, mas não há dúvidas que ela já não é mais como era antigamente. O cenário fica bem pior se você imaginar as grandes empresas do segmento (Abril, Globo, McCann-Erickson) daqui a 10 anos. É preciso ser um otimista desvairado para acreditar que elas continuarão do mesmo tamanho que são hoje, e olhe lá. O mais provável, nesse cenário, é que elas estejam menores. Bem menores. Agora imagine-se investidor. Você colocaria dinheiro em uma empresa cujo melhor cenário em uma década seja permanecer como está? Acredito que não.

Sob esse aspecto fica mais fácil entender o apelo de quem (ainda) é grande em evitar o novo, em bradar que é valente, competente e potente, em usar os últimos fiapos de prestígio que ainda sobram para tentar garantir uma sobrevida. O novo é ameaçador, é preciso matá-lo enquanto ainda é pequeno.

A mudança, no entanto, veio para ficar. Estamos à beira de uma gigantesca mudança na economia. Não me refiro à crise financeira que abala os Estados Unidos e, com eles, todo o mundo. Essa crise, como todas as outras mudanças sociais, estava anunciada há bastante tempo. Nós é que, como os czares da mídia, nunca prestamos atenção nela e alguns ainda fingem que ela não existe.

Tsk.

A mudança de que falo é outra. Ela não é maior nem menor, apenas diferente. A plenitude de conteúdo que vemos hoje em dia torna desnecessária toda uma indústria que se alimentou da escassez de informação. Como bem o sabe qualquer estudante de primeiro ano de Economia, sem escassez não há valor. Sem valor não há mercado. Talvez seja por isso que ainda seja tão difícil promover políticas ambientais.

Continuo no próximo…


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