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Luli Radfahrer
Luli Radfahrer Consultor e Professor-Doutor da ECA/USP

PhD em Comunicação Digital, já dirigiu a divisão de web de algumas das maiores agências e portais do país. Professor-Doutor da ECA-USP, Professor-convidado da Columbia University, Consultor, Luli também é autor. Sua última obra é "A Arte da Guerra para quem Mexeu no Queijo do Pai Rico".

Arquivo da Categoria ‘Tendências’

Gigatendências, parte II – Zeitgeist e Weltanschauung

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

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Quando o bom senso mostra o contrário, penso em Galileu resmungando: “e, no entanto, ela se move…”

Inovação é observação. Quando olhada sob a fita métrica da história, a maioria das descobertas e invenções científicas, tecnológicas e em modelos de negócios surgiu da prestação de um serviço que fazia todo sentido ao eliminar, acelerar, reduzir, limpar… otimizar, enfim, algum processo cotidiano ou simplesmente remover próteses que, apesar de corriqueiras, não faziam o menor sentido. O sucesso de RSS, podcasts, YouTube e o download de músicas, filmes e séries de TV vem muito mais de uma questão prática que de uma econômica.

Já houve tempo em que era considerado normal ser dono de uma cópia particular de uma música ou um filme. Já foi comum enfrentar o pedágio de ter sua diversão interrompida por mensagens comerciais porque alguém teria que pagar a conta – e nada mais natural que fosse você. Impérios financeiros com grande poder e influência nasceram do fato corriqueiro que informação tinha preço, e era vendida em bancas ou livrarias. Outros impérios se apoiaram em cobrar por cada minuto de interação – pessoal ou profissional, tanto fazia. E ainda tem gente que se espanta ao vê-los ruir. Não é crise: esses modelos quebram simplesmente por não fazerem sentido. O surpreendente é que tenham durado tanto.

433px-elizabeth-2O futuro é igual ao presente, tirado dele as coisas que não fazem sentido. Não é fácil perceber que o Rei está nu (ou que, para esses efeitos, a função da Rainha em um país democrático como o Reino Unido é simplesmente e pragmaticamente turística). Muitos dos que se incomodam com a situação logo se acomodam ao perceber sua impotência e logo desistem ou partem para a ficção, como Leonardo, Hergé e Júlio Verne.

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Os tempos mudaram e revoluções individuais nunca foram tão fáceis. No entanto, muitos profissionais criativos, de designers a empreendedores, se comportam como crianças mimadas ao cultivarem suas idéias e percepções do mundo sem procurar validá-las na realidade. Agem como o adolescente que visualiza seu romance com a mulher dos seus sonhos sem perguntar se ela se interessa por ele, ou como o comerciante que se vê milionário antes mesmo de mandar sua proposta.

Em futebol, é comum perguntar por ironia ao jogador ou técnico que tanto canta suas glórias se ele tem o resultado combinado com o adversário. Em futebol também se diz que os que se acomodam com vitórias fáceis perdem de virada. Sábias lições.

Costumo dizer que criatividade não é exceção, mas regra. Novas idéias surgem o tempo todo, não há nada de especial em tê-las. Muitas pessoas, no entanto, são reprimidas – por sua educação, ambiente de trabalho, superego, medo do ridículo ou simplesmente acomodação – e se desacostumam da prática regular de buscar por novas idéias. Esse sedentarismo mental costuma levar a uma lerdeza criativa, traduzida pela resistência ao novo e adoção da primeira idéia que surgir ou, depois de lutar para conquistar o novo, se apoiar, ofegante, pelos louros conquistados – e ser engolido pela concorrência.

motorola_aura-4A indolência mental não é exclusividade dos pequenos. Na indústria de telefones celulares existem vários exemplos.

A Motorola investe em design e toma a dianteira, mas esquece de se preocupar com usabilidade e arquitetura de informação, e perde mercado para a Nokia. Esta se acomoda ao perceber que está bem à frente das empresas em seu segmento e perde a soberania para duas empresas sem tradição alguma em telefonia: RIM e Apple. Estas, se bobearem, poderão ser superadas por alguém que observa os problemas que hoje temos mas não nos animamos a melhorar. O que realmente ameaça não parece ameaçar.

É por isso que não acredito em Windows Mobile ou SilverLight: forçar uma solução pronta para dentro de outro aparelho sem pesquisar suas particularidades não é inovar, mas forçar a barra nos piores pontos de uma relação que já não está em seus melhores dias.

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Por que ninguém reclama de PDF?

O pior problema do Flash é ser um plug-in instalável, de código complexo e fechado, operação difícil e SEO praticamente impossível. Isso sem falar que ele é uma nulidade em termos de acessibilidade por dispositivos fora de padrão, como celulares ou videogames e invisível para pessoas com necessidades especiais. Ele tem a seu favor o fato de ter sido pioneiro, se popularizado e ter uma legião de profissionais habilitados para tirar dele recursos muito além do que a maioria dos browsers oferecia. O Silverlight resolve algum desses problemas? Não. É só mais um plug-in, mais uma tralha a instalar, mais uma linguagem de programação a aprender, mais um empecilho para os profissionais de métricas, usabilidade e arquitetura de informação. Já tinha perdido a batalha antes mesmo de entrar nela.

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O problema não está na Microsoft, mas em sua atitude. Ela tinha condições de atualizar compulsoriamente o Internet Explorer 6 e abrir seu código, mas grande e teimosa feito burocrata comunista, se recusa a fazer a gentileza.
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Mesmo fora do segmento eletroeletrônico a regra se mantém. Adidas já foi a rainha do mercado de tênis esportivos. Perdeu espaço para a Nike, que foi alcançada pela Reebok e New Balance. A Mizuno estava entrando na festa quando a Nike resolveu investir em tecnologia (+iPod etc) e a Adidas, em estilo. Mizuno voltou ao nicho e Reebok… quem fala em Reebok hoje?

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Os dois palavrões que entitulam este post mostram a importância da observação no processo de inovação. Retirados do psicologês, eles estão mais para jargão que para barbarismo. Zeitgeist, em alemão, quer dizer “espírito dos tempos”, mas não tem nada de místico. Ele se refere ao conjunto de estímulos que, derivado das mais variadas fontes, resulta na “personalidade” de uma época. Os loucos anos 20, a revolução sexual, o otimismo generalizado com o fim da II Guerra Mundial e com a queda dos regimes autoritários do leste europeu, os excessos da época da bolha pontocom são alguns exemplos, como também o são a depressão depois da quebra da Bolsa de Nova York em 1929, a tensão da Guerra Fria, a depressão dos anos Reagan, o pessimismo depois dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001.

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Sim, Twitter também é um bom medidor do Zeitgeist.

Identificar o Zeitgeist não é nada fácil. Demanda entrevistas, leituras, comparações, análises e muita, muita observação. Institutos de pesquisa de mercado e consultorias de tendências se desdobram na busca por definir com alguma precisão o que permanece e o que muda a cada novo movimento econômico / político / social / tecnológico. Você consegue imaginar o efeito que a eleição de Barack Obama teve sobre a indústria de cosméticos? Ou o impacto das falsificações chinesas na redução de preços para o consumidor ocidental – e conseqüente redução no prazo de renovação do guarda-roupa? Pois é, muita gente vive de investigar possíveis respostas para estas e várias outras perguntas, e cobra somas bastante consideráveis pelos seus insights.

Hoje a busca pelo espírito dos tempos não é mais privilégio de empresas especializadas. Pelo contrário, deveria ser tarefa de todos. Mesmo que instrumentos caseiros não sejam tão precisos ou que não se imagine nenhuma aplicação imediata de suas descobertas, a compreensão do zeitgeist é fundamental para que as mudanças sejam absorvidas, assimiladas e utilizadas de forma sensata.

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Todos deveriam, independente da área de atuação, fazer para si mesmos a pergunta “por que as coisas são do jeito que são hoje em dia?”, seguido de “o que está errado e pode ser melhorado?”. Muitas perguntas ficarão, obviamente, sem resposta. Não importa. Como em uma jornada zen de autodescoberta, o caminho é mais importante e significativo que o destino final. As respostas mudam com o cenário, que nunca é fixo.
Nos anos 1930, pais sonhavam com um futuro em que cada filho tivesse um automóvel, hoje sonhamos com a geração que não precisará deles. Nos anos 50, astronautas de episódios de Twilight Zone fumavam na lua e em foguetes. Nos anos 70, James Bond pegava uma estrela-do-mar e a jogava no barco com o mesmo desapego com que jogava um saco plástico na água.

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A visão de mundo, quanto mais ampla e bem informada, mais criativa, inovadora e livre de preconceitos costuma ser. O Tao Te Ch’Ing diz que os seres vivos, ao nascer, são flexíveis e maleáveis e, ao morrer, se tornam duros e resistentes. A elasticidade dos pensamentos e crenças é, segundo eles, discípula da vida. A rigidez, seguidora da morte.

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As redes sociais podem ser, ao mesmo tempo, potencial e perigo para o cultivo dessa observação. Ao estimularem o contato com formas diferentes de se pensar funcionarão, como grandes viagens, para ampliar a perspectiva e melhorar a compreensão dos tempos. Se funcionarem como câmaras de eco para velhas idéias, vícios e preconceitos terão o efeito contrário.

Aí que entra o outro palavrão do psicologês usado neste título: Weltanschauung – isso mesmo, com dois “uu”, Alemão é quase um código secreto. O termo vem de olhar (anschauen) o mundo (die Welt, ou “a” mundo) e é exatamente isso que o processo contínuo e freqüente de mensuração do Zeitgeist promete: uma visão/observação do mundo com familiaridade.

Perceber o mundo como um membro da família, reconhecê-lo em suas qualidades e defeitos, aceitar sua personalidade sem afetações, surpresas ou restrições é, hoje em dia, uma habilidade admirável. Espero que, em um futuro próximo, ela seja corriqueira.

É bom estar de volta. Obrigado pelo carinho e paciência.

Quando você ouviu falar de Barack Obama?

quinta-feira, 16 de julho de 2009

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Já que todo mundo adoooora citar o caso da eleição presidencial dos Estados Unidos como um case de “bom uso” de mídias sociais - fato incontestável, que eu até detalho mais neste post - mas que aconteceu há mais do que uma gestação, quero trazer uma reflexão diferente para este post de retomada. Por mais que a decisão dos políticos tenha sido acertada e que o ambiente digital tenha contribuído, sem sombra de dúvida, para consolidar a sua campanha, acredito que há um fato mais importante - e com uma aplicação prática muito maior e mais imediata no dia-a-dia de todos - que o uso das comunidades online na promoção de um candidato razoavelmente desconhecido para um posto tão alto do governo de um país em um momento tão delicado.

Minha pergunta, mais direta, já foi feita no título deste post. A desdobro aqui:

Como, quando e de que fonte você ouviu falar
pela primeira vez de Barack Hussein Obama?

Como, quando e de que fonte você ouviu falar
que seu nome do meio era Hussein?

Como, quando e de que fonte você viu,
pela primeira vez, a foto daquele que se tornaria
(pelo menos pelos próximos meses)
o homem mais poderoso e influente do mundo?

Pode até parecer paranóia de roteiro ruim de ficção científica, mas não é. Até porque eu simpatizo - pelo menos por enquanto - com o sujeito.

artkissafpgiSe a gestão Obama será boa para os EUA ou para o resto do mundo, se ele chegou tarde demais ou se nem São Maquiavel de Churchill salvariam o grande Titanic do Norte, como sempre, não vem ao caso. O que me chama a atenção, hoje bem mais que o fenômeno pontual da eleição, é a história da popularidade do candidato. De repente, de forma viral (como a calcinha da Hermione Granger, não como a Gripe Suína, que fique bem claro), todo mundo só falava nele. E ninguém para quem eu pergunto - e olha que venho fazendo essa pergunta há vários meses para pessoas bastante qualificadas - ninguém, nem uma única pessoa é capaz de responder com alguma precisão às perguntas acima.

O máximo de precisão que recebo chega a fazer inveja às médias de pesquisa de mercado, já que é algo como “Na Internet, provavelmente em um site, blog ou podcast americano, entre Março e Maio de 2007“. Não preciso dizer que, com uma precisão dessas, um vôo de São Paulo a Londres pode se considerar sortudo se pousar em Damasco ou Mogadíscio.

witchesofeastwickEssa história me lembrou algumas cenas divertidíssimas de um filme bem velho, Bruxas de Eastwick, em que as personagens, encantadas pela aparição de um sujeito galanteador e charmoso, ficavam perplexas ao perceber que não conseguiam guardar seu nome. Não acredito que haja um quê de diabólico, conspiratório (ou pior, publicitário) no bom Barack, mas que essa história tem algo de diferente, ora isso tem. Ainda mais se a confrontarmos com outras notícias de impacto parecido.

Você provavelmente ainda se lembra de como, quando e onde ouviu falar, pela primeira vez, do episódio em que Michael Jackson se juntou a Elvis Presley. Mesmo que tenha sido tão genérico como “na Internet” ou “pelo Twitter”, com um pouco de esforço chega-se facilmente à fonte que o impactou pela primeira vez. À medida que o resto da mídia passou a repetir essa informação, sua origem perdeu relevância. Mas como ainda é recente, poderia ser facilmente recuperada, se fosse importante.

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A memória também parece funcionar com precisão quando o assunto é muito chocante, como a queda das torres feias e gigantescas de Nova York em 11/9/2001, naquele ataque arquitetado pelo homem das cavernas tão bilionário quanto psicopata (a vida é muito mais criativa que a arte). Todo mundo que tinha mais do que 8 anos de idade na época parece lembrar com precisão de como foi aquele dia - até alguns mais novos se lembram.

Mas, afinal de contas, por que eu implico tanto com o Obama que você não leu na Veja, Estadão, Folha, JB, Globo ou Zero Hora? Qual o problema do Obama que não lhe foi apresentado pela Globo, Bandeirantes, CBN ou MTV? A princípio, nenhum. Não com ele. Mas se examinarmos que hoje estamos envelopados em conteúdo e que praticamente toda notícia que recebemos chega pela nuvem, não identificada, sem autor ou fonte clara, bem daí as coisas se complicam.

Qualquer fonte de informação vem de algum lugar. Se você não a testemunhou diretamente, ela deve ter chegado até você mediada por um autor ou editor. Este personagem, queira ou não, é um filtro. Qualquer aspirante a jornalista sabe que fotógrafos selecionam, através de seu enquadramento, a mensagem que pretendem transmitir. Nenhuma história é neutra e nenhuma verdade, absoluta. Qualquer narrador escolhe um ponto por onde começar, algo a ressaltar, algo a suprimir. Editores de veículos fazem o mesmo através de seus títulos, cortes e composição na revista. O resultado de todo esse trabalho de retórica - consciente ou não - é a linha editorial da história. E ela funciona dos dois lados.

Não sou jornalista, por isso relato o ponto de vista de quem lê. Um dos primeiros aprendizados sociais que temos é relativizar a informação recebida (tarefa dificílima para crianças e autistas). Se um tiozinho careta, um repórter sensacionalista, um carro de som de sindicato em greve ou um integrante de qualquer BBB fala algo, a informação tem uma importância diferente de um médico ou advogado ou professor. Quantas vezes você não ouviu que tal jornal é de direita, que tal revista tem sérios problemas editoriais ou bajula o governo porque depende de seus patrocínios? É o filtro em ação.

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O problema fica sério quando, na anonimidade da Internet, o emissor desaparece ou se torna desconhecido. Quem chama isso de democracia da informação corre o risco de cometer um grave erro conceitual: democracia é um sistema em que a maioria vence e a minoria, derrotada, é obrigada a aceitar a vontade da maioria, mesmo que isso não signifiquem idéias melhores. O sistema em que cada um fala o que quiser e ouve o que bem entende não é democracia, é Anarquia.

Não cabe aqui defender um sistema ou outro, mas a falta de uma autoridade responsável pela informação pode levar à formação de lendas urbanas, boatos e a uma série de falsas verdades como as que a classe médica hoje enfrenta por concorrência do Dr. Google, que torna a maior parte dos doutores como portadores de “segunda opinião”, às vezes até terceira ou quarta. Não preciso dizer o quanto isso é grave, ainda mais se considerarmos que o único critério que os mecanismos de busca podem ter - e não é culpa deles - é a popularidade do conteúdo, não sua precisão ou veracidade.

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A sociedade da busca em um mar de dados abundantes demanda, cada vez mais, critério e consciência. Se você acha que isso é papo de pesquisador sem conexão com a realidade, imagine o problema de marketing que  uma empresa pode ter se os carros que vendem passam a ter fama de inseguros, seqüestráveis, preferidos dos ladrões? Ou o prejuízo que uma corretora de imóveis ou incorporadora pode sofrer se o bairro em que atua ganhar fama de perigoso, decadente, cafona? Imagine se todas essas informações forem mentiras e não houver nada de errado com o carro ou com o bairro ou a roupa que não desbota ou o desodorante que não irrita a pele ou a vitamina que não engorda ou a escola que não tem pedófilos? Quem vai acreditar em propaganda ou RP ou na opinião da vítima injustiçada e endeminiada nessas horas?

Reputações nunca foram tão frágeis e a informação nunca demandou tanta verificação. É isso, mais do que qualquer caso de business 2.0, que me impressiona e que deveria chamar a sua atenção na história do Obama.

A retomada do humano

quarta-feira, 1 de abril de 2009

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Muita gente “entra” no mundo digital como quem cai de um barco: de uma vez, estabanadamente, sem planejamento algum. Como quem cai de um barco, muita gente “entra” na Internet de cabeça ou de costas, mergulha fundo e se engasga com o que vê. Na tentativa de administrar a situação, muitos se debatem e se desesperam, se esquecendo de verificar o tamanho das ondas, a força das correntes, a distância da costa ou até mesmo a profundidade do mergulho. Voltar para o barco, como “sair” da Internet, costuma ser trabalhoso e pouco viável, nas raras ocasiões em que é possível. De qualquer forma o corpo não se livra facilmente do ambiente em que foi embebido. E sua sobrevivência depende exatamente desse reconhecimento de terreno.

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A interpretação das novas tecnologias nunca é fácil. A mudança de hábito que elas trazem costuma levar a uma crise de referências proporcional a seu impacto. Os novos acontecimentos precisam de novas palavras para descrevê-los, os rótulos antigos só servem como metáforas temporárias. Hoje é fácil explicar que o e-mail tem tanto de correio quanto a web tem de páginas ou o celular de telefone, mas no começo da década de 1990 esses paralelos eram fundamentais para que os novos processos fossem compreendidos.

arouzer_stress_ball1Assimilados os novos conceitos, eles passam a servir de base para a construção de novas idéias. Só depois que alguém sabe o que é um automóvel é que consegue compreender o câmbio automático, o trânsito, um capotamento. Para entender o sucesso que novidades como o iPhone e o twitter provocam é, portanto, fundamental ter consciência do processo em que elas se encaixam.

Não é preciso uma análise profunda para perceber que os novos produtos e serviços digitais vêm mostrando uma transformação na natureza da Internet. A rede mundial que já foi de computadores e de informação agora abrange uma quantidade cada vez maior de aparelhos individuais e conteúdos opinativos - é, mais do que nunca, a “rede de pessoas” de que tanto se falava - e prova na prática a velha máxima do Jornalismo que defende não ser possível informação neutra. Qualquer estudante de primeiro ano de estudos de comunicação sabe bem que imparcialidade é mito e que toda mensagem é tendenciosa, por mais que a mídia de massa tenha tentado, por muito tempo e até com algum sucesso, provar o contrário.

imagem31Mas antes que este post despenque para uma discussão chata e comunista sobre agenda setting e seus desdobramentos, voltemos ao foco da discussão: os meios digitais, que já foram vistos como próteses e anabolizantes da comunicação, passaram a catalisar aquilo que há de mais pessoal e intransferível no homem: sua personalidade.

Em um ambiente de abundância, o simples ato de portar um aparelho caro não quer dizer mais nada (ou, como um Rolex, um SUV com insulFilm ou um dente de ouro, só quer dizer que seu dono é rico o bastante para torrar dinheiro com bobagens). A partir do ponto em que o produto industrial, massificado e genérico deixa de ser novidade, o uso que é feito dele passa a fazer a diferença. Agora que todos têm iPods, a playlist volta a ser mais importante que o fone de ouvido branco.

A popularização dos serviços gratuitos na Internet cria outro tipo de abundância: a da conveniência. Seus exemplos maiores são o Google e a Wikipédia, fontes instâneas e gratuitas de informação, tradução e resolução de problemas. À medida que não há mais informações nem fontes privilegiadas, a leitura que se faz delas passa a ser o grande valor, talvez o único valor.

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Desde o início da vida em sociedade, o homem se divide entre a vontade de pertencer a um grupo e a necessidade de se destacar dos demais. Até mesmo entre aqueles submetidos aos regimes e códigos de conduta mais restritos é possível reconhecer e identificar não apenas os líderes, mas cada pessoa comum, em suas particularidades cotidianas. Não somos robôs, por mais que queiram alguns ditadores, editores e diretores. Somos indivíduos. Desde crianças inventamos apelidos uns para os outros e gastamos uma parcela considerável de nossas vidas empenhados no esforço de deixarmos alguma espécie de legado.

Nas cidades pequenas - e nas comunidades fechadas, como as de alguns grupos sociais, familiares ou religiosos - a identidade é imposta pelo grupo, sem muito questionamento. Não há punks em Jericoacoara, o filho do Dr. Floriano só pode ser honesto. Confortável? Sem dúvida.

Se você se encaixa no perfil “adequado”, quero dizer.

caras_capaAs cidades grandes não são menos restritas. Invenções modernas como a Globalização (o mundo integrado em um só mercado) e a Massificação (a mesma mensagem para todos), inspiradas pelos valores tortos do consumo excessivo e do acúmulo desenfreado e egoísta de bens cria uma devoção de fazer inveja a muitas seitas. Acredito que um visitante de uma cultura alienígena teria dificuldade em separar a idéia de riqueza da de paraíso, dinheiro de oração ou Amidah, dietas e academias de Sabbaths, Ramadãs ou até de Novenas com flagelos, revistas como a Caras de catecismos, Shopping Centers de mesquitas e suas liquidações de Hajj ou Umrah. Até mesmo os comportamentos mais excessivos dos genocidas das três grandes religiões ao longo da história são banais em uma sociedade que mata por um tênis ou um relógio, que atropela motoboys ou que sacrifica a merenda de crianças para comprar uma casa nova.

Felizmente tais comportamentos não são naturais do ser humano, apenas vícios sociais. Os políticos de antigamente eram mais honestos porque o ambiente os estimulava a sê-lo. O mesmo se pode dizer dos jornais e escolas. Não acredito que o mundo esteja perdido, apenas que a sociedade esteja prestes a vivenciar uma grande mudança. Ao contrário da queda de Roma, do fim da Idade Média ou das grandes revoluções, uma nova estrutura de poder não vai substituir a antiga, nos moldes da “Revolução dos Bichos”. Esta transformação é silenciosa.

Ela, aliás, já vem acontecendo há algum tempo. Não é preciso ser sociólogo ou pesquisador para perceber que o trio Mídia-Política-Religião passou a ter uma importância (e uma influência) cada vez menor entre os melhor informados. Em uma espécie de anarquia informal, as pessoas começam a descobrir que o simples acúmulo de bens não resulta em nada a não ser uma casa repleta de quinquilharias e um mercado de usados superaquecido. Não há nada de humano no acúmulo, cachorros colecionam ossos. O uso que se dá às coisas e ao poder que se tem através delas que define as características pessoais de cada um, essas sim, pessoais e intransferíveis. Nada mais anárquico.

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As estruturas de poder tentaram, por muito tempo, transformar os grupos que controlavam em rebanhos, públicos-alvo, audiências, telespectadores, ouvintes, eleitorado. Apoiados no controle da informação e fundamentados em estatísticas vagas, prometeram paraísos futuros enquanto arrancavam o couro dos crédulos à espera de suas virgens, da bênção do Padre Cícero, de “estar na moda” ou de qualquer outra promessa política. Enquanto isso, subversivas, caladas e inevitáveis, cresciam e se estruturavam as duas características mais humanas que temos: a comunicação e a capacidade de criar, manipular e usar ferramentas, também conhecida por “tecnologia”.

A Internet começou como mais uma dessas ferramentas. A idéia de comércio eletrônico e de Home Banking não vai muito além do conceito de prótese. Com o tempo ela se tornou uma tecnologia de comunicação, aproximando pessoas nas redes de relacionamento que, da blogosfera à Wikipédia, das redes sociais ao YouTube, vêm aos poucos mudando a concepção de mundo e a relação com a informação de uma forma sem precedentes.

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Os bens de grande valor, hoje que muitas coisas são gratuitas ou industrializadas, são aqueles autênticos, pessoais, cheios de personalidade individual. Serão ainda mais valiosos se não puderem ser copiados, clonados, falsificados, reproduzidos ou distribuídos em série. Em um mundo de cópias idênticas, elas são os novos originais. São manifestações de tudo aquilo que um indivíduo comum tem naturalmente, antes que lhe tirem a espontaneidade e o forcem a um discurso corporativo. Seu componente humano, enfim. Tio Shakespeare, quando dizia “que obra de arte é o homem“, se referia a qualquer pessoa. Qualquer, qualquer pessoa comum é uma obra de arte. Não os que um auto-definido grupelho acredita que devam ser, mas qualquer um.

Os novos telefones são bacanas porque são os primeiros computadores verdadeiramente pessoais. Sua customização ainda é limitada, as próximas gerações serão tão maleáveis que será difícil operar um telefone emprestado. Como os blogs e o Flickr o são hoje. A plataforma é igual para todos, o uso que se faz dela é o que diferencia seus usuários.

Mas blogs e Flickr e YouTube e LinkedIn ainda são muito “arrumadinhos”. Por mais informais que sejam, ainda são discursos públicos com uma certa cara de portfólio ou mídia. O mesmo vale para a desktop no ambiente de trabalho ou em qualquer computador compartilhado. Dá uma vergonhazinha de ser verdadeiro nelas, há quem tema perder o emprego ou sofrer qualquer tipo de sanção iraniana simplesmente por exercer sua liberdade de expressão.

Talvez seja isso que serviços como o Twitter tenham de tão apaixonante: ao fazer uma pergunta inocente e despretensiosa sobre o cotidiano de seus usuários, eles funcionam como conversas “quebra-gelo” em ambientes sociais. Mesmo que seu modelo de negócios não vingue, sua forma de usar a rede parece ter vindo para ficar, para desespero de alguns.

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A Internet é anárquica porque sua estrutura é emergente. Seu conteúdo parece caótico porque as conexões são espontâneas e variáveis, tanto em abrangência quanto em profundidade. Ela se comporta, portanto, como a maioria das estruturas sociais livres de quem se tem notícia.

Por mais que seja confortável a ilusão de proteção de uma figura paternalista, ela está em seus últimos dias. Na ausência de outro chefe para substituir as relações de poder, não sobra ao indivíduo do século XXI em diante outra opção a não ser assumir a responsabilidade total sobre seus atos e sua identidade e largar de vez a barra da saia da mamãe, mesmo que a mamãe seja tão poderosa quanto o Governo ou a Unilever. As mudanças sociais são tantas, tamanhas e tão influentes que chegam a ser redundantes. O mundo em volta parece berrar o tempo todo que:

Você está, sim, por conta própria. Cabe só a você a escolha de sua rede de contatos, de sua apresentação pública, de sua postura social.

A Happy hour e a casual friday tomaram conta da semana inteira, e não há forma de convencer as pessoas a voltar à comodidade dos casamentos de conveniência, dos empregos públicos, das bolsas e aposentadorias por tempo de serviço e de todas as comodidades bovinas com que foram subornadas por tanto tempo. As novas tecnologias de relacionamento e expressão - os novos ambientes sociais e seu comportamento neles, enfim - hoje dizem muito mais a respeito de um indivíduo do que qualquer roupa ou acessório que ele use.

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Acima de tudo, como acontece com tatuagens, elas também dizem mais a respeito de quem as segue, repete, elege como favorita, comenta ou critica do que sobre quem as fez ou porta.

Quer algo mais humano do que isso?

Coisas para pensar em 2009 (iii)

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009


History of the Internet from PICOL on Vimeo.
O videodiagrama daí de cima mostra um bom exemplo de como pequenas descobertas isoladas se fortalecem quando combinadas, até chegarem ao ponto de serem vistas como uma massa uniforme. A Internet nossa de cada dia seria inconcebível sem as invenções dos meninos Robert Metcalfe, Tim Berners-Lee e Vint Cerf. Mas acredito que nem mesmo eles seriam capazes de imaginar o alcance que suas idéias teriam.

Não adianta analisar o impacto isolado de cada invenção. Isso é uma abstração que faz cada vez menos sentido. A Internet levou menos tempo que o rádio e a TV para atingir uma multidão porque ela surgiu depois dessas tecnologias e capitalizou sobre seu impacto e influência. O mesmo pode ser dito do iPod e dos filmes em Torrent. Até mesmo idéias aparentemente sem sentido, como Tetris, têm um efeito importante ao aproximar as pessoas do meio. SMS em teclado telefônico, por exemplo, é de um masoquismo ímpar, mas serviu para mostrar pra muita gente que os celulares serviam para algo além de falar.

O mesmo pode ser dito de vários outros produtos e serviços de que já não nos lembramos mais: eles agem como a estaca que apóia a muda da planta: fundamental em seu princípio, esquecida mais tarde. Essa é uma das características mais fascinantes do processo de inovação: cada nova idéia é combinada, intencionalmente ou não, com outras descobertas anteriores a ela, de forma quase casual. Às vezes invenções geniais ficam armazenadas em depósitos, à espera de uma pequena circunstância as libere.

O carro a álcool que o diga.

Por argumentos como esse que questiono a validade do gráfico acima: não acredito que adiante rotular ou classificar cada novo serviço ou tecnologia com metáforas de má qualidade (”o pico das expectativas infladas”? Tenha dó). É preciso compreendê-las. Só assim seremos capazes de entender a abrangência de seu impacto.

A Internet age como uma sopa primordial em que todas essas novidades interagem e são retro-alimentadas. Quem ainda acredita estar sozinho ou ser capaz de agir às escuras está com os dias contados. Em um mundo cada vez mais acelerado e interconectado, transparência não é mais um diferencial: é um pré-requisito.

Mas transparência pode ser um problema para quem, como eu, não está habituado a consumir tanta informação. Os computadores tornaram a mensuração dos processos algo simples, automático até. Não é mais preciso ser estatístico para saber taxas de visitação, percentuais de crescimento ou índices de popularidade. Existem programinhas aos montes para calculá-los e gerar belas tabelas e gráficos. Interpretá-los é outra história.

É por isso que, de repente, infográficos se tornaram tão onipresentes e importantes. O cérebro interpreta a informação visual de uma forma completamente diferente da escrita. Como já disse em meu post sobre Gestalt, a percepção visual se dá de uma só vez, assimilando todo o contexto por comparação e contraste, de forma quase instantânea. Já a interpretação de palavras e números é feita de forma seqüencial, linear e contínua - muito mais lenta e trabalhosa, portanto.

Infográficos reúnem o melhor dos dois hemisférios cerebrais: apresentam a informação instantaneamente e permitem a seus leitores que se aprofundem no detalhe que considerem mais relevante. Adoro os publicados pelo The New York Times, que conseguem ser ao mesmo tempo lindos e muito elucidativos e a cada dia me deparo com novos diagramas em sites inesperados. Alguns de meus prediletos são os da National Geographic, o Map of the market e o do Baby name wizard, que já têm um tempo de estrada. Outros bons exemplos merecem destaque, como os do World Mapper:

Ou mesmo essa bela animação que mostra o volume crescente de contribuições ao Open Street Map, uma mistura de Google Maps com Wikipédia:


OSM 2008: A Year of Edits from ItoWorld on Vimeo.

O acesso à informação é cada vez mais visual, a ponto de até a Amazon considerar mudanças na sua interface, como na Windowshop, que usa a linguagem do CoolIris para criar uma experiência imersiva de compras:

À medida que as empresas e veículos de comunicação descobrem que gráficos e infográficos são formas bonitas, interessantes e bastante persuasivas para se transmitir informação, eles se tornam cada vez mais populares. À medida que seus leitores se acostumam com sua linguagem eles se tornam cada vez mais sofisticados e complexos. A revista Smashing, em um preciosismo dispensável, chegou a classificá-los em várias categorias. Por mais que essa organização pareça ter a validade de um catálogo de espécimes de Pokémon, ela merece atenção por mostrar que esse tipo de linguagem gráfica ainda tem um terreno muito fértil pela frente. Quatro categorias, Mindmaps, Mapas de notícias, Mapas de dados e Mapas de conexões demandam observação.

Mindmaps - existem vários programas para ilustrar a conexão entre diversas idéias e conceitos. Usei um deles, o MindManager, na minha apresentação sobre inovação para o MeioBit Expo. Mas acredito que ninguém bata os Arquitetos de Informação Japoneses, que eu já havia blogado a respeito.

Mapas de Notícias - O Newsmap é o melhor agregador de notícias que eu conheço. Pena que não seja customizável.

Mapas de Dados - Esses são razoavelmente óbvios, até porque constituem a base do que nós leigos entendemos por estatísticas. Há aplicações de todos os tipos para isso. O WeFeelFine.org é meio inútil, mas altamente adictivo. Acho esse tipo de aplicação interessante para mostrar o poder hipnótico das visualizações de dados - e seu perigo também, pois podem levar a conclusões erradas ou manipuladas. Como é muita informação, e mostrada de forma contínua e assertiva, essa linguagem gráfica tende a ser muito convincente, já que faltam argumentos além do instinto e bom senso para contestá-las.

Mapas de Conexões - Outro exemplo ao mesmo tempo interessante e perigoso. As diversas conexões entre os artigos da Wikipedia não querem dizer nada. As conclusões que se tira a partir dessas ligacões podem levar às mais variadas interpretações.

Outra forma de informação gráfica que ganha mais destaque a cada dia é a do tipo “painel de controle” (ou dashboard, como dizem na gringa). Popularizada pelo Mac OS X e usada em todo lugar, do Vista ao Android, essa interface tem a vantagem de poder ser manipulável - apesar da maioria ainda servir para simples visualização.

A indústria automobilística, veja só, está na vanguarda. O Eco:drive da Fiat é impressionante, e mesmo o painel desse carro conceito da Ford chamaria a atenção até de um George Jetson:

Em resumo, é preciso aprender a interpretar a nova linguagem datagráfica. Como todas as outras formas de linguagem, ela é sujeita a maneirismos e manipulações retóricas que podem confundir quem não for muito fluente. O gráfico a seguir é um bom exemplo:

Em um ambiente de acesso fácil à informação, os novos vilões não são mais aqueles que tentam manter segredos. Esses, pobres coitados, são só ingênuos. Perigosos são os que usam o excesso de dados e métricas para desorientar e confundir, e que serão cada vez mais comuns de agora em diante. A única forma que existe para se defender de sua verborragia nociva é compreender os cenários, não se impressionar com o volume de dados e, acima de tudo, fazer as perguntas certas. A verdade está lá fora.

Na indústria da mídia, isso significa uma troca de siglas que parece sutil, mas é bem significativa: sai DPZ, entra DPC. Não há mais lugar no mercado para as ditas “agências de propaganda”, sejam elas tradicionais, grandes e caretas ou pequenas e metidas a modernas.

À medida que as mídias sociais propiciam e proporcionam uma abordagem e envolvimento cada vez mais focados e transparentes, as mensagens genéricas perdem seu poder de persuasão e, junto com os veículos de mídia de massa estruturados para divulgá-las, perdem seu valor a cada dia. Esse cenário, cada vez mais freqüente, faz com que empresas especializadas em “agenciar” a “aparição pública” de seus clientes se tornem anacrônicas - e o fato de terem o nome de seus fundadores, muitos deles já mortos, não melhora sua situação.

Em um artigo para a Revista Propaganda de Janeiro de 2002, eu mostrava como a bolha das empresas pontocom era parecida com o mundinho das agências de publicidade. Como toda bolha, essa um dia teria de estourar.

As novas empresas de comunicação não devem mais ter pinta de artista e promessas obscuras. Seu diferencial deve ser claro, mensurável e, na medida do possível, científico. Há dados suficientes para isso. Resta saber quanto tempo os clientes da indústria da comunicação ainda levarão para perceber que a frase “metade do dinheiro gasto em propaganda é desperdício, o problema é que eu não sei qual metade”, citada pelo finado papa da propaganda David Ogilvy, não evidencia seu talento, mas uma incompetência que o cliente do século XXI não pode mais tolerar.

Coisas para pensar em 2009 (II)

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Os três exemplos de integração entre tecnologias e mídias mostrados no post anterior mostram que isso não é mais uma tendência, mas uma realidade e condição obrigatória para quem quiser ser minimamente levado a sério daqui para a frente. Não se pode mais separar um produto digital de outro, da mesma forma que não faz mais sentido separar o que acontece “aqui fora” do que se passa “lá” na Internet.

Por mais que se fale da crise e seus efeitos em uma provável recessão, ela não deve frear o passo da inovação, muito pelo contrário. A multiplicidade de idéias deve aumentar em 2009, já que a falta de dinheiro e a concorrência selvagem tendem a balançar a pasmaceira das empresas e estimulá-las a ter idéias cada vez mais novas.

Para as firmas que ainda teimem em não entrar no século XXI, no entanto, o cenário é desanimador. A falta de recursos para investimentos e a retração do mercado são só o começo. Some a isso um consumidor melhor informado e resistente à propaganda, uma pulverização da mídia e do poder de influência, bens de produção baratos ou gratuitos, livre acesso à informação e trânsito de mercadorias e o resultado é uma concorrência pra lá de selvagem.

Para ajudá-lo a se orientar no mar revolto de informações, idéias e tendências que 2009 promete se tornar, fiz uma lista de tecnologias e serviços que merecem atenção. Minha lista não tem a intenção de ser qualquer tipo de aposta, previsão ou viagem à Nostradamus. Pelo contrário, ela nem tem a intenção de ser abrangente (não faço a mais pálida idéia, por exemplo, dos rumos do Agronegócio ou da Bolsa de Hidrocarbonetos) mas busca chamar a atenção para aquelas novidades que você pode ver acontecer por perto, saber vagamente do que se trata e depois esquecer. Natural, você está lotado de informação e obrigações. De qualquer maneira vale olhar um pouco mais essas coisinhas que estão acontecendo bem perto de nós, e que podem provocar grandes surpresas muito antes do surgimento de redes WiMax, geladeiras com acesso à Internet, eletricidade sem fio ou a Microsoft abrir mão do SilverLight de uma vez por todas.

 

1. Pulverização de interfaces

Muita gente ainda associa o termo “interface” a uma tela bidimensional com ícones, normalmente ligada a um computador, teclado e mouse. Até há pouco tempo essa era a única realidade, e essa realidade teve seu lado positivo (ao aproximar as pessoas dos equipamentos digitais de uma forma difícil de se acreditar com cartões perfurados) e negativo (ao fazer com que muitos acreditem que ela era a única possível). Os videogames mudaram um pouco esse cenário, mas durante muito tempo seus produtos eram para um mercado de nicho, cada vez mais hermético e fechado, quase um Cosplay.

O Nintendo Wii ganhou o mundo ao sair da panelinha e mostrar que qualquer parte do corpo pode ser usada como interface e que jogos não precisam ser complicados para serem divertidos. Ele tem muito potencial para se estabelecer como plataforma de integração, mas o caminho ainda é longo. Uma posssível inspiração está em jogos um pouco mais antigos, como o Guitar Hero ou o Rock Band e suas ações para o lançamento de novas bandas ou até para a reciclagem de algumas que já têm algum tempo de estrada.

É o caso do Metallica que deu um belo vexame digital há pouco tempo e parece ter aprendido uma coisinha ou outra.

Pode não ser a salvação, mas que é uma estratégia de marketing interessante para a indústria fonográfica, ora isso é.

Afinal de contas, música é muito mais divertida quando tocada do que quando ouvida, mas poucos têm talento ou paciência para aprender um instrumento.

Não se deixe impressionar pela guitarrinha ridícula, conheço algumas histórias de músicos de talento que tomaram uma sova de adolescentes que se dizem incapazes de tocar qualquer outro instrumento.

Por mais que essas interfaces - e muitas outras, como a do Nintendogs, por exemplo - pareçam ser apenas mais pirotecnias em uma brincadeira alienante e improdutiva, elas abrem caminho para conquistas sem precedentes no ramo da medicina.

Não é exagero, veja este vídeo:

2. Conteúdo separado da forma

RSS não é mais novidade para mais ninguém, muito menos as folhas de estilo em CSS, a tal ponto que chega a causar espanto constatar que ainda existam tantas páginas ainda estáticas, sejam em HTML, Flash, ou até mesmo em PDF. Isso não é apenas uma evolução técnica, mas uma mudança completa na forma com que nos comunicamos com as máquinas.

Da mesma forma que os websites são tantos a ponto de ser difícil lembrar em qual deles se teve acesso a uma determinada informação, os aparelhos que acessam a rede são cada vez mais baratos e populares, a tal ponto que em breve Internet e computadores pessoais não terão mais uma associação obrigatória. Nem óbvia. Em um palpite modesto, acredito que a quantidade de tamagotchis online em sua casa deverá dobrar neste ano.

O mesmo deverá acontecer com o tão esperado e-paper. Não, o livro não vai morrer tão cedo, continuaremos a matar árvores para imprimir O Segredo, O Código da Vinci e Second Life For Dummies. Mas acredito que certos documentos deixarão seus suportes habituais. Sou um leitor assíduo, e depois de acumular dores de cabeça tentando ler feeds em telefones e computadores, confesso que o Kindle, mesmo com todos os seus defeitos de usabilidade, quebra bem o galho.

Em resumo: daqui a pouco a pergunta “onde você leu isso” ficará ainda mais difícil de responder, pois pode ter sido em um site, em um feed, em um iPhone ou, quem sabe um dia, até na fachada de um prédio.

3. Inteligência artificial

Clip do Radiohead capturado sem câmeras, mas com Geometric Informatics e Velodyne LIDAR. Não esperava ver um vídeo de rock no Google Code.

É cada vez mais natural deixar o computador pensar por nós. Seja em recomendações da Amazon ou em cenários do Spore, o fato é que esses meninos de silício parecem estar finalmente desenvolvendo algum talento. O que eles fazem ainda não é bonito, mas quase. Não, não é uma “estética”, mas a falta dela. Como as capas de álbuns feitos nos anos oitenta com gráficos de Commodore Amiga, não ficarão para a história. Mas impressionarão muita gente à medida que se consolidam.

4. Mobilidade da mobilidade

Muita gente que olhou com desprezo para essa maquininha aí de cima, se perguntando para que ter dois notebooks provavelmente não se lembra de uma discussão parecida que aconteceu há uns 10 anos, quando os primeiros computadores portáteis se tornaram populares. Mobilidade, que já foi um luxo, agora não é mais do que obrigação. Muitos usam o notebook como CPU em casa, o que costuma destruir baterias mas faz um bem ao planeta, já que eles gastam muito menos energia do que as velhas CPUs torre e seus monitores de tubos de raios catódicos.

Não é só o fato de serem verdadeiramente portáteis que faz dos subnotebooks algo tão bacana, mas o fato dos sistemas operacionais dependerem cada vez menos de capacidade de processamento e armazenamento em disco. O software da era Wintel fica cada vez mais com cara de dinossauro, seja por seu porte paquidérmico, seja por sua lerdeza e fome por recursos. Em oposição a ele, web applications são econômicas (em seus clientes, entenda-se) e podem ser operadas de máquinas cada vez mais ágeis.

Ninguém duvide que um dia teremos maquinetas destas com terabytes de RAM ou memória Flash, mas acredito que mesmo assim não passará pela cabeça de alguém sensato ter programas pagos ou arquivos importantes armazenados nelas. Para mim, que penso muito melhor quando estou em movimento, essa evolução não poderia vir mais a calhar. Este post, por exemplo, começou em um computador e passou por outros três, dois blackberries, um PSP e um iPhone antes de ser finalizado.

5. Mídias sociais

Elas, sempre elas. O grande hype de 2007/8 (alguém ainda se lembra da briga dos blogueiros contra o Estadão?) ainda continuará muito vivo e ativo durante o ano que se avizinha. Fala-se em prostituição do meio, em vulgarização do Orkut e no fim dos Blogs, mas o fato é que as mídias sociais estão mais fortes do que nunca. Os meios de publicação, remunerados ou não (obrigado), se consolidaram e se tornaram fontes de informação. Como todas as outras mídias, algumas são mais confiáveis, outras mais fúteis, outras claramente utilitárias, seja lá qual for sua área de interesse. Elas enfrentam os mesmos problemas éticos de outras mídias, e seu público nunca esteve tão capacitado para avaliá-las.

Fala-se no fim do blog, mas isso é uma mera questão semântica. À medida que o conteúdo exposto nos blogs foi ganhando credibilidade, eles se tornaram mais “sérios”. Até o blogueiro mais desencanado dá uma revisada em seu texto, pesquisa direito suas fontes e trabalha as fotos e mídias que pretende expor. Não há dúvida que percam parte de sua naturalidade no processo, já que deixaram de ser “diários informais” para se tornarem publicações. Esta, aliás, sempre foi a intenção deste blog. Caso contrário não escreveria posts quilométricos como este. Se blogs estão mortos, o meu nasceu morto. No entanto, você está aqui…

Morto ou não, o Blog é a cada dia uma fonte mais confiável e influente de informação. Graças a ele o leitor aprendeu a se relacionar com os meios de comunicação de uma forma mais independente, ousada, colaborativa enfim. Em outras palavras, aprendeu a abandonar o conforto anônimo da multidão bovina e mostrar a sua cara em público. Ao manifestar sua opinião, consegue descobrir que há outros como ele e consegue ter acesso a um conteúdo melhor e mais abrangente. Algumas empresas expandiram esse conceito (com termos hype tipo “crowdsourcing”, de que não sou muito fã) e conseguem criar produtos melhores em uma verdadeira simbiose: os usuários dão consultoria gratuita ao dizerem o que querem e a empresa os mima produzindo suas idéias. Inimaginável há poucos anos, esse processo tende a se tornar cada vez mais obrigatório.

mas ainda não há lugar melhor para desfilar essa nova persona cheia de idéias e opiniões do que as novas praças públicas: as redes sociais.

A editora Penguin, no Reino Unido, entendeu bem esse movimento e resolveu investir parte de sua estrutura em uma constatação que tinham há mais de um século: que a segunda melhor coisa que se pode fazer a respeito de um livro é compartilhá-lo (a primeira é lê-lo, mente suja). Esse é o segredo dos clubes de leitura, de muitas cadeiras acadêmicas, bibliotecas e, bem ou mal, é parcialmente responsável pelo sucesso (sobrevivência?) do mercado editorial, principalmente no segmento de literatura. Criar uma rede social soa naturalmente como o próximo passo lógico.

Mas já existem redes sociais DEMAIS, e não faria sentido criar mais uma a não ser… que ela tivesse um fim específico, um pouco pragmático e talvez descarado demais para os tempos de Oscar Wilde, mas que vem sendo usado desde muito antes do nosso país ser descoberto: encontrar pessoas com pensamentos e desejos afins e, a partir de uma conversa descompromissada sobre Charles Dickens, partir para umas taças de vinho ainda mais descompromissadas citando Jane Austen e terminar debaixo de um cobertor sob os versos quentes de John Donne. Um acordo com o site de encontros match.com é, sob esses aspectos, divino.

Com intenções muito mais inocentes, mas não menos frutíferas, a empresa de blocos de plástico colorido LEGO percebeu que seu negócio não estava nos paralelepípedos de poliuretano (ou polipropileno, não entendo nada de plásticos, só fiz a frase porque adoro aliterações) mas no ato de criar estruturas e brincar com elas. Pois é, você está mais familiarizado com Metaversos do que pensava.

Para se aprofundar no assunto, dê uma olhada também no LittleBigPlanet. Estou certo que você ainda vai ouvir falar muito dele neste ano.

Independente do crescimento e da popularidade de Facebooks e seus amigos (como o Bebo, que é um sucesso naqueles países que têm castelos no interior), ou mesmo de um Twitter, que cresceu 422% no ano passado, só nos Estados Unidos. O que se deve observar em 2009 não são novas iniciativas no estilo do Joost ou Ning. Elas continuarão a surgir, mas o foco não deve ser nas empresas e sim na sua influência no comportamento das pessoas, que se tornam mais ativas e sociáveis, mesmo que seja por intermédio do digital. É o que você faz online que faz a diferença, não aonde você está.

Cyrano de Bergerac faria a festa.

Por mais que todas essas idéias de participação me empolguem, minha misantropia me leva a perguntar se precisamos tanto assim de interação ou se essas iniciativas de convivência digital acabarão por chegar a um ponto de saturação. Infelizmente não tenho resposta para isso: faz mais de 15 anos que as mídias digitais vêm se tornando a cada dia mais amigáveis e colaborativas, contrariando todas as expectativas. A natureza humana, no entanto, é preguiçosa. Um dia a leseira deve bater.

Caetano já se perguntava “quem lê tanta notícia”? e, no melhor espírito Dorival Caymmi, me dou conta que este post, pra variar, ficou enorme e terá que ser continuado outro dia.

Coisas para pensar em 2009 (I)

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

O ano começa acelerado e antes mesmo que você consiga tirar o Papai Noel da sala, a lista de coisas para fazer já passa das duas páginas. Por mais que a correria insana pressione você a mergulhar de cabeça no serviço para voltar ao que era antes, proponho uma curta pausa para refletir sobre o que vem por aí. Você pode não ter percebido, mas 2008 mudou muita coisa, e quanto mais inteirado você estiver, menos se surpreenderá.

Google Trends. Repare que o Grande Colisor de Hádrons, maior conquista tecnológica da humanidade, não atingiu um sétimo da popularidade da efêmera Sarah Palin.

Agora que o hype Obama acabou, podemos finalmente pensar em outras coisas. A catarse coletiva da eleição levou a algumas ceninhas ridículas, mas até o austero The New York Times soltou a franga e usou um título composto em ousadíssimos 96 pontos, tamanho antes só usado para o homem andando na lua, a renúncia do presidente Nixon, a virada do milênio e o 11 de setembro. Não é pouca coisa.

Do ponto de vista do digital, a campanha está pra lá de parabéns. O uso consistente e coerente de mídias não-convencionais mostra que políticos e governos podem estar na transvanguarda da comunicação, desde que bem assessorados. A contratação de Chris Hughes para tocar o my.barackobama.com, por exemplo, foi genial. A presença serena e consistente do candidato em seus discursos e debates foi replicada para o Twitter, Facebook, iPhone, YouTube… bem, já deu pra entender. Soma-se a isso um filme para TV cujo roteirista escreve uma narração emocionante no estilo “Era cantada pelos imigrantes ao chegarem de praias distantes e por pioneiros que forçaram o caminho para o Oeste, enfrentando um ambiente selvagem sem perdão… sim, nós podemos”.

O mais legal é que a média de idade desses profissionais de ponta é… 25 anos! Mais um mérito dos organizadores da campanha pos selecionar talentos de forma bastante coerente com o que foi pregado na campanha. Quem sabe as empresas que se metem a fazer “propagandas” ao redor do mundo se inspirem com esses resultados e procurem ser minimamente coerentes em 2009 (não peço para que sejam honestas porque seria contrariar sua natureza). Resta agora ver se a presença continua agora que os votos foram dados.

Outra das notícias que dominou o mundo em 2008 foi o iPhone 3G e sua app store. No começo muitos relutaram, mas com o tempo até os críticos mais ferozes daquela maquininha que não copia nem cola e que é considerada meia-boca para os padrões japoneses e coreanos se tornou o celular mais vendido no mundo. Se levarmos em conta que muitos desses telefones - acredito que ainda sejam a maioria - ainda precisam ser desbloqueados e passar por uma série de gambiarras, o fenômeno é ainda mais assombroso. Você correria o risco de inutilizar um Samsung, LG ou até mesmo um Nokia em uma atualização de firmware? Pagaria mais de 300 reais para desbloqueá-lo depois de ter gasto mais de cinco vezes isso só para comprar o aparelho? Duvido.

O sucesso do iPhone vem, como o sucesso da campanha Barack Obama, de uma integração sensata e harmoniosa de forças. Muito antes do iPhone, a harmonia entre iPod, iTunes e Apple Store promovia algo que nenhum outro vendedor poderia oferecer: um tocador de MP3 integrado a um software que poderia digitalizar as músicas dos CDs e a uma loja onde essas mesmas músicas poderiam ser compradas. Parece óbvio, mas ninguém tinha pensado nisso até então. Falo mais da integração neste post, mas a conclusão é bastante simples: já não adianta mais estar online, é preciso estar integrado. Graças a essa integração a Apple se tornou uma empresa popular. Não é mais a elite que os MacManíacos arrotavam nem mais a frescura que os pecezeiros desdenhavam. É massa. De manobra.

O ano também foi do Google e de suas invenções. Acredito que se eles tivessem uma figura pública com mais presença talvez tivessem aparecido até mais. A popularização do Maps, do Earth e, principalmente, do Street View, ainda mais quando integrados ao iPhone, mostra como nossas vidas se misturaram com os produtos e as informações da rede e - talvez o mais importante - como achamos tudo isso muito natural. Como diz o Kevin Kelly, é impressionante pela novidade e pelo fato de não nos impressionarmos. Faz cada vez menos sentido pensar em uma Vida de Segunda quando se pode misturar a nuvem à vida de verdade.

Apesar de bastante visíveis, essas inovações são fogos de artifício quando comparadas ao lançamento do Chrome, o browser deles, que, ao usar a ferramenta de código aberto Gears, também criada por eles, permite que os aplicativos desktop e online troquem informações. A integração Chrome - Gears - GMail - Google Apps - Android (sistema operacional para telefones móveis também criado por eles) mostra que a empresa não tem nada de boazinha e que corremos o risco de entregarmos voluntariamente boa parte da informação do mundo ocidental nas mãos de uma só empresa. Sob esse aspecto, as ações da Microsoft são até ingênuas.

Tudo isso me lembra a Skynet.

Alguém se voluntaria para o cargo de John Connor?

Porque a mídia deve se preocupar, parte IV

sábado, 15 de novembro de 2008

Qualquer ação que proporcione prazer físico ou intelectual deixa de proporcioná-lo assim que se torna compulsória. Sexo, sono, comida, viagens… todas são atividades maravilhosas, desde que seja sua opção fazê-las.

Quando obrigatória, até uma viagem às Maldivas pode se tornar um saco. Esse é um dos grandes perigos da época digital: se por um lado é ótimo mudar completamente de cara, corpo e atitude conforme a ocasião, por outro lado é muito chato ser obrigado a fazê-lo o tempo todo.

E no entanto é isso o que mais se faz nas redes sociais: estabelecer e reafirmar a própria identidade. Seu nome de usuário (nick), a forma com que você se apresenta (avatar), as fotos que escolhe, os textos que escreve, os temas que aborda… pode não parecer, mas essas atitudes têm muito pouco a ver com a informação que pretendem transmitir. Em um cotidiano que todos são estrangeiros e não há tempo nem paciência para se ouvir a história de ninguém, as personalidades são extremamente maleáveis.

Você é o que consome.

Já se foi o tempo em que era preciso ter um lado nerd para fazer parte de grupos de IRC e clãs de RPG. Agora que a presença em comunidades é praticamente obrigatória, o indivíduo é descrito pelo que o Google fala dele, pelo que se tuíta a seu respeito, pela forma como se comporta em mídias sociais, pelos avatares que porta e por toda a nuvem de tags que ele próprio cria a seu respeito, intencionalmente ou não, à medida que se transforma em seu próprio Big Brother. Não é de se admirar que tal cenário não tenha sido previsto por autores de ficção científica. Seria estranho demais para ser crível.

É estranho demais para ser crível.

À medida que a informação se popularizou, as identidades se pulverizaram. Sem aviso, o espírito de corpo se tornou uma relíquia dura de explicar nos termos da Teoria do Caos. Fica difícil imaginar um mundo em que só havia uma verdade, uma versão, uma realidade, uma certeza. E no entanto as coisas eram assim há pouco mais de um quarto de século. Sob certos aspectos, ainda o são em comunidades pequenas, grupos fechados, sociedades remotas. Como disse em uma série de posts sobre o Pós-Moderno, não há mais dúvida que Nova York esteja efetivamente mais perto do que o sertão.

Pouco importa o desconforto, ninguém leva a sério a idéia de voltar atrás. Mesmo que fosse possível, não seria desejável. Boa parte da situação que se vê hoje em dia nos grandes centros urbanos conectados é fruto de uma maior liberdade de expressão. De escolha. De ação, enfim.

A pulverização da identidade acompanha de perto a disseminação da informação. Em comunidades fechadas, de Amish a Trekkers, tanto como em cidades pequenas, de Turnu Măgurele a Bálsamo, não há espaço para múltiplas interpretações da realidade. Você é aquilo que o grupo determinou que seja, e não se fala mais no assunto. Se você está confortável, ótimo. Se não, na melhor das hipóteses a porta da rua é serventia da casa.

À medida que a economia da informação se descentralizou, a questão da identidade foi se tornando mais e mais complexa. E complicada. Quando o rei é descendente direto da divindade e tem poder inqüestionável, a idéia de uma sociedade de castas não é tão complicada assim. Você nasceu escravo, vai morrer escravo e se rebelar talvez só acelere o processo. Por mais que tente, a Índia não consegue se livrar dessa enorme mancha em sua reputação até hoje.

Sob esse aspecto, o Século XX foi muito louco, já que buscou argumentos racionais para reproduzir as mesmas estruturas. Intelectuais de diversos segmentos e áreas de interesse apoiaram as insanidades de Stalin a Mao, de Adolf a Mobutu, de Médici a Pinochet.

Todos muito parecidos, com uma divergenciazinha ou outra na questão dos recursos humanos. A idéia básica era mais ou menos a mesma do Império Romano: informação controlada, poder absoluto, manipulação da opinião pública e repressão feroz. Por mais bonito que seja falar da China hoje em dia, ela não é exatamente um exemplo nesse quesito. Cuba, então, muito menos. Mas ninguém mais fala de Cuba hoje em dia.

Uma boa prova de que as idéias de liberdade de imprensa, de associação, de escolha e de expressão são forças irresistíveis está no fato de que, pela primeira vez na História, o povo do Século XX reagiu às forças de opressão e colocou no poder uma estrutura com alguma transparência.

Melhor do que nada.

Winston Churchill já dizia que a democracia é a pior forma de governo, exceto todas as outras que são tentadas de tempos em tempos. Ele também disse que o povo dos Estados Unidos sempre teve a capacidade de fazer a coisa certa depois que todas as outras opções foram testadas. Sob esse aspecto, os experimentos americanos para a ascensão e queda do capitalismo corporativo como o conhecemos foram dignos de nota.

Para combater as restrições impostas pelos governos centralizadores, as grandes empresas propuseram maior liberdade e prosperidade. Assim que assumiram o poder, reproduziram os mesmos velhos hábitos. Na década de 1980, só era “alguém” um indivíduo que tivesse um emprego em uma delas. A própria definição de “sucesso” passava, obrigatoriamente, por uma submissão incondicional aos seus valores.

O fim da guerra de 1945 marca o início da idade mídia (o termo é meu), em que os veículos de comunicação crescem, abrem seu capital, se tornam propriedade de empresários e passam a reproduzir seus ideais. Para se opor a eles, jornais “de esquerda” defendem e são custeados por ditaduras militares. Não consigo imaginar melhor exemplo de uma idade das trevas, ainda mais se levarmos em consideração as variadas ameaças nucleares.

 

A alta idade mídia era bastante maniqueísta: você era uma coisa ou outra, sem meio-termo. Combinar pedaços? Impensável. Para reforçar cada lado de uma questão, várias “personalidades”, de executivos a atores, serviam de modelo de comportamento. Os “astros” e “profissionais de sucesso” eram os novos Faraós.

Só que a liberdade promove inquietações. Por mais variados que fossem os modelos de comportamento, eles não eram muito mais abrangentes ou sofisticados do que os propostos pelos vilarejos culturais de antigamente. Expostos à possibilidade de conviver com a diversidade, as pessoas passaram a querer cada vez mais. O Punk, como retratei no post anterior, foi só uma das formas de contestação. Se eu posso determinar meu próprio estilo, por que me negam acesso aos meios de comunicação?

Mmmm… perguntinha difícil. Ela deu origem à baixa idade mídia, em que o glamour da indústria do espetáculo dá lugar à decadência dos espetáculos de realidade. Neles, são chamados de “celebridades” uns sujeitinhos desestruturados e inseguros, que não fizeram nada de célebre para celebrar.

A economia do prestígio transfere o poder das tais celebridades para pessoas comuns que tenham adquirido credibilidade pelo conjunto da obra. É um trabalho de formiguinha, inglório, em que fórmulas mágicas simplesmente não acontecem. Seu roteiro é tão previsível que chega a ser piegas, com valores que lembram um filme do Tom Hanks. Ou a campanha do Obama.

 

Existe, no entanto, uma enorme diferença entre a economia do prestígio e o ideal clássico de ascensão social. No novo ambiente, todos os temas são importantes, desde que elaborados com afinco. O valor da obra só depende de sua coerência, consistência e profundidade. Um tutorial de legislação é tão importante quanto uma coletânea de textos humorísticos. Cada leitor preza o que achar mais adequado conforme a ocasião. Não tem nada de errado nisso, muito pelo contrário.

Como já disse antes, o errado está na busca pelo absoluto.

Se a sociedade contemporânea parece para você muito mais bagunçada e confusa do que este texto tenha sugerido, é porque ainda estamos a caminho. Por mais que pareça corriqueira, a economia da atenção não é fácil de controlar. A descentralização da informação gera um número tão grande de variáveis que administrá-las é quase uma arte. É um processo que toma tempo, demanda estrutura e dá um baita trabalho.

Por isso, se você acha o conteúdo gerado pelas mídias sociais ainda ruim demais, amador demais ou imaturo demais para ser levado a sério, você tem razão. Em parte e por enquanto. De certa forma, isso não é ruim. Significa que ainda há espaço para entrar e fazer a diferença. Seria muito pior se você quisesse ser trompetista de Jazz, pois teria que competir com Chet Baker ou Miles Davis.

Na verdade, as mídias sociais não são ruins. Elas são, em sua maioria, amadoras, em seu melhor sentido. Como este blog, amam o que fazem e buscam, através de seu trabalho, contribuir para mudar o mundo. São diletantes não por fazerem pouco, mas por acharem delicioso o que fazem.

Não consigo pensar em nada mais meritório do que isso.

Esta série acaba aqui. Agora você segue por conta própria. Ou não.

Porque a mídia deve se preocupar, parte II

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Por mais que berre, esperneie e faça escândalo a velha mídia e todos os representantes de uma indústria baseada em escassez de informação, é fato consumado que o conteúdo está cada vez mais pulverizado, abundante e distribuído.

Se você ainda tem dificuldade em “comprar” esse argumento, pense na forma com que veio a saber dos fatos mais relevantes das últimas semanas: a crise financeira mundial, a eleição do prefeito de sua cidade, o resultado do futebol, da Fórmula 1 ou até mesmo um crime passional qualquer. Antigamente – há uns dez anos, mais ou menos – dizia-se a respeito de uma notícia que ela tinha sido “lida na Veja” ou “vista na Globo”. Hoje em dia ninguém mais diz onde viu algo ou até mesmo se sabe quem disse alguma coisa. Essas informações simplesmente não são mais relevantes. A informação é tanta e tão abundante que o veículo não tem mais importância. A não ser, é claro, nos casos em que for autor da informação.

O aumento da entropia da mídia é inevitável, e isso acontece por uma razão muito simples: ele é resultado de uma maior liberdade de expressão. Os mais apressados poderiam chegar à falsa conclusão que estamos em uma época de informação mais democrática. Mmmm… mais ou menos. Por um lado é inegável que o acesso à informação é muito mais fácil e direto, mas não se pode esquecer que a democracia não é sinônimo absoluto de liberdade. Ela também implica em um confronto de idéias em que um lado sai vencedor e o outro precisará aprender com a derrota.

Al Gore é um excelente exemplo do aprendizado proporcionado pela democracia. Depois de perder uma eleição que teve alguns aspectos dignos de republiqueta bananífera, ele teria todo o direito de ficar de chorumelas. Pois ficou? Nada disso. Reconheceu a queda, não desanimou, levantou, sacodiu a poeira, abraçou a causa do aquecimento global e deu a volta por cima. Mesmo se a causa não fosse nobre ele já estaria de parabéns. Já seu oponente…

O mundo democrático permite que velhas estruturas que já foram donas do poder um dia voltem eventualmente a sê-lo. Quer melhor exemplo disso que um PFL em suas diversas encarnações? Já a migração das estruturas de poder é parte de um processo evolutivo muito mais intenso - e que, em si, não tem nada de novo. Da mesma forma que a crise financeira e o estouro da “bolha” pontocom, ela é só um efeito de demandas sociais muito mais poderosas do que poderia imaginar.

O Punk e seus descendentes não “inventaram” nada, só deram voz a pessoas que se sentiam esmagadas pelas velhas estruturas de mídia ainda mais repressoras do que as que encaramos hoje. Ele é, na minha opinião, é um dos movimentos culturais mais libertários. Ao propor que qualquer pessoa poderia tocar ou cantar como que quisesse, vestir o que quisesse, onde quisesse e editar a revista que quisesse com máquina de escrever, tesoura e xerox, eles abriram caminho para a editoração eletrônica - e subseqüentemente, para a Blogosfera. Claro que a turminha produzida pelo Malcolm McLaren não tinha a menor intenção de promover uma revolução na mídia (nem, naturalmente, poder algum para fazê-lo). Eles apenas pegaram carona em um movimento social poderoso.

A história da democrat popularização das fontes de informação não começou com a Internet (nem vai parar por aqui, para desespeiro de alguns ex-blogueiros que viram casaca feito os porcos gordos da Revolução dos Bichos). Ela é muito, muito longa. No começo do que podemos chamar de civilização organizada, toda a informação, orientação e código de conduta tinham uma só fonte e origem: o monarca governante, descendente direto da divindade e considerado fonte suprema de sabedoria.

Tirânicos ou pacíficos, esclarecidos ou belicosos, bonzinhos ou malvadões, pelo menos uma coisa todos eles tinham em comum: sua palavra era a lei. Naquela época, a simples idéia de se separar religião de Estado seria considerada uma heresia de causar horror.

E no entanto essa crença inquebrável, como é comum com todas as crenças inquebráveis, acabou sendo confrontada e se quebrou. As forças de fé se separaram das forças políticas, e mesmo com os termos da separação sendo quase promíscuos de tão amigáveis, chegou uma hora em que os interesses das duas partes entraram em conflito.

(Imagino o tamanho do escândalo que essa divisão deveria significar para o povaréu da época. O indivisível tinha se partido em dois, e os dois trocavam acusações com uma virulência de fazer inveja a pais mal-divorciados. Pois eles mal sabiam que essa seria só a primeira de uma série de divisões em cascata, em que cada nova etapa implicaria em uma perda ainda maior de poder.)

Anos mais tarde a Igreja se partiria em várias formas de fé, cada uma com igual dose de razão em sua versão dos mundo e seus motivos. Antes que a Monarquia pudesse dar risada da perda de poder de sua ex-companheira, eta também teve de ceder e passou a dividir residência com os três poderes da República. A fonte de informação, que era uma só (o governante, representante direto da divindade), se multiplicou. O que no princípio causou uma baita confusão, em pouco tempo se mostrou mais esclarecedor: quanto mais portadores a verdade tivesse, mais sincera e poderosa ela seria. A lei do mercado aplicada à teoria da informação, nada mal.

Mas a evolução, por definição, é um processo contínuo, e não pdoeria parar por ali. No melhor dos espíritos democráticos surge a indústria da comunicação, e por um tempinho todos se sentiram representados. A publicidade quase conseguiu pegar carona nessa onda, mas seus excessos a transformaram em uma forma alternativa de entretenimento. Na segunda metade do século passado as coisas pareciam ter sossegado.

Daí surgiu a Internet, essa intrometida.

Nos tempos atuais, a abundância de conteúdo faz com que ninguém mais precise dar ouvidos a algum dos (ainda) grandes órgãos de imprensa se não quiser. O Google, a Wikipedia e a Blogosfera tornaram-se recursos (por que não dizer, patrimônios) de uso recorrente tão preciosos que dá trabalho imaginar um mundo sem eles. Quem quiser mensurar seu impacto é só imaginar um mundo sem esses serviços. Pense em todas as dúvidas que você encaminha diariamente para o oráculo da Internet. Para quem você as encaminharia há dez anos?

A resposta não poderia ser mais simples: as perguntas simplesmente não eram feitas e pronto. Todo mundo carregava por aí um belo punhado de incertezas como se isso fosse a coisa mais normal do mundo. Esquisito, naquela época, seria imaginar o contrário, pensar em alguém que pudesse ter ao alcance da mão respostas para praticamente todas as dúvidas da humanidade. Tudo bem, já ouve épocas em que se acreditava ser ruim tomar mais do que um banho por mês.

A popularização da informação a banaliza (sem segredos fica difícil preservar privilégios) e indica uma mudança considerável na forma com que se vê o mundo. Pode parecer um exagero, mas não é. Veja a crise econômica que se avizinha, por exemplo. Ela pode não ser nada mais do que a falência decretada de um modelo de se transacionar bens e conteúdos baseado em informações privilegiadas, lobbies e conchavos.

O mercado de ações, futuros e derivativos é um mercado de especulação. Em última instância, é um mercado de informação, expectativa e confiança.

Pensando nisso fica curioso notar que a crise coincide com uma epidemia de empreendedorismo sem precedentes. Mais curioso ainda fica perceber que enquanto um segmento da economia (aquele ligado às grandes corporações e macro estruturas) se desfaz enquanto outro (o das pequenas cooperativas, idéias inovadoras, aproveitamento sensato de recursos e conexões inesperadas) prospera maravilhosamente. Curiosíssimo quando se identifica que a parte que vai bem é exatamente aquela que contraria o mandamento Nizanesco e investe, sem medo nem piedade, no novo.

Será preciso ser irremediavelmente otimista para imaginar que estamos às portas de uma mudança radical na sociedade como a conhecemos? A cada diz fazem menos sentido aquelas empresas gigantescas, com mais de cem pessoas só no departamento de RH. Pense bem: como pode dar certo uma estrutura que ostenta mais de 100 profissionais empenhados somente na árdua tarefa de…administrar os outros? Tem algo errado aí.

 

Se para você as grandes empresas parecem uma máquina de Governo inchada, lerda e ineficiente, você não está paranóico (ou estamos todos). O Império que já foi do Estado, da Igreja, da Monarquia e da República agora é das grandes empresas e de sua máquina de comunicação e publicidade. Na década de 40 era chique trabalhar para o poder público. Na de 80, ser executivo de uma multinacional. Hoje o funcionário público precisa de um enorme esforço para provar que é íntegro - e sabe que o faz apesar do Estado. O tiozinho de terno azul e sapato caramelo (com cinto combinando) pode não saber, mas segue o mesmo caminho.

Vivemos hoje uma época de transição. O poder migra hoje das empresas para as pessoas. Tenho várias considerações sobre essa metamorfose, mas o texto já está longo demais. Continuo no próximo post.

Antes que você o leia, recomendo que dê uma olhada na excelente apresentação do meu amigo Cris Dias baseada neste livro do Cory Doctorow. Se quiser, dê também uma olhada neste artigo que a analisa. 

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Livros para entender o HOJE

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

 

ATENÇÃO: Este não é um post apropriado para uma época de dólar oscilante.
Continue a ler por sua própria conta e risco.

 

Muita gente me pede indicações de bons livros para entender essa maldita sopa primordial de informação e inovação em que vivemos nos últimos anos. Sempre recomendo um ou outro livro, mas senti que minha listinha estava ficando desatualizada. Pedi ajuda a meus amigos via Twitter para completá-la e consegui uma seleção espetacular de livros atuais, livros um pouco velhinhos mas mesmo assim fundamentais, autores de primeira que vale a pena se refestelar (mas que eu recomendo seguir com moderação para não enlouquecer), livros que eu não li, mas me indicaram e eu já tinha ouvido falar e até uma listinha de best-sellers que não são do mal, mas são… inócuos. Eles não falam bobagens, mas têm a velha mania americana de escrever em 300 páginas o que bem caberia em cinco. Divirtam-se. E por favor comentem e dêem mais sugestões para que essa lista fique o mais completa e atualizada possível, para o bem de todos.

 

LIVROS ATUAIS:

 

BENKLER, Yochai. The wealth of networks: how social production transforms markets and freedom. Yale University Press, Estados Unidos, 2006.

FRIEDMAN, Thomas. O mundo é plano. São Paulo, Objetiva, 2007.

GILLMOR, Dan. We the Media: grassroots journalism by the people, for the people. Estados Unidos, O’Reilly, 2006.

GOLDSMITH Jack , WU Tim. Who Controls the Internet? Illusions of a Borderless World. Estados Unidos, Oxford University Press, 2006.

HAWKINS, Jeff. On Intelligence. Times Books, Estados Unidos, 2004.

JENKINS, Henry. Fans, Bloggers, and Gamers: Media Consumers in a Digital Age. Estados Unidos, NYU Press, 2006.

JOHNSON, Steven. Emergência: a dinâmica de rede em formigas, redes, cérebros, cidades e softwares. Rio de Janeiro, Zahar, 2001.

KEEN, Andrew. The Cult of the Amateur: How Today’s Internet is Killing Our Culture. Estados Unidos, Doubleday Business, 2008.

LANHAM, Richard. The Economics of Attention: Style and Substance in the Age of Information. Estados Unidos, University Of Chicago Press; 2007.

McDONOUGH, William, BRAUNGART, Michael. Cradle to Cradle: Remaking the Way We Make Things.  Estados Unidos, North Point Press, 2002.

PINK, Daniel. A Whole New Mind. Estados Unidos, Riverhead Trade, 2006.

SHIRKY, Clay. Here Comes Everybody: The Power of Organizing Without Organization. Estados Unidos, Penguin Press, 2008.

SPYER, Juliano. Conectado. Rio de Janeiro, Zahar, 2007.

SUROWIECKI, James. The Wisdom of Crowds. Estados Unidos, Anchor Books, 2005.

WHEEN, Francis. Como a picaretagem conquistou o mundo: equívocos da modernidade. Rio de Janeiro, Record, 2007.

WRIGHT, Robert. Não Zero: a Lógica do Destino Humano. São Paulo, Campus, 2000.

 

LIVROS VELHINHOS, MAS BONS:

 

BARABÁSI, Albert-Laszló. Linked. The new science of networks. Estados Unidos, Plume, 2003.

BERMAN, Marshall. Tudo que é Sólido Desmancha no Ar. São Paulo, Cia. das Letras, 1989.

BERNERS-LEE, Tim. Weaving the Web: The Original Design and Ultimate Destiny of the World Wide Web. Estados Unidos, Collins Business, 2000.

BEY, Hakim. TAZ: Zona Autônoma Temporária. São Paulo, Conrad, 2001.

BOLTER, David, GRUSIN, Richard. Remediation: Understanding New Media. MIT Press, Estados Unidos, 2000.

CRITICAL ART ENSEMBLE. Distúrbio Eletrônico. São Paulo, Conrad, 2001.

CSÍKSZENTMIHÁLYI, Mihály. A descoberta do fluxo. São Paulo, Rocco, 1999.

DAWKINS, Richard. O Gene egoísta. São Paulo, Cia. das Letras, 2007.

GILLMOR, Dan. We the Media: Grassroots Journalism By the People, For the People. Estados Unidos, Oreilly & Associates, 2006.

GLEICK, James. Faster: the accelerationm of just about everything. Estados Unidos, Pantheon Books, 1999.

HIMANEN, Pekka, TORVALDS, Linus (colaborador), CASTELLS, Manuel (Epílogo). The Hacker Ethic. Estados Unidos, Random House Trade Paperbacks, 2002.

HOFSTADTER , Douglas R. Gödel, Escher, Bach. Um entrelaçamento de gênios brilhantes. Brasília, Editora UnB, 1979.

GRAHAM, Gordon. The Internet:// a philosophical inquiry. Routledge, Reino Unido, 1999.

HOBSBAWN, Eric. A era dos extremos. São Paulo, Cia. das Letras, 1995.

JOHNSON, Steven. Cultura da Interface. Rio de Janeiro, Zahar, 2001.

LOCKE, Christopher. The Cluetrain Manifesto: The End of Business as Usual. Estados Unidos, Basic Books, 2001.

MELMAN, Charles. O Homem sem gravidade: Gozar a qualquer preço. Rio de Janeiro, Cia. de Freud, 2003.

POOLE, Steven. Trigger Happy. Reino Unido, Arcade Publishing, 2004.

TOFFLER, Alvin. A Terceira Onda. Record, Rio de Janeiro, 1981.

TREND, Dave. Reading Digital Culture. Blackwell publishers. Oxford, Reino Unido, 2001.

TUKLE, Sherry. Life on the screen. Estados Unidos, Simon & Schuster, 1997. Este também saiu em português de Portugal como A Vida no Ecrã, a identidade na era da internet. Portugal, relógio d’água, 1997.

VAIDHYANATHAN, Siva. Copyrights and Copywrongs: The Rise of Intellectual Property and How It Threatens Creativity. Estados Unidos, NYU Press, 2003.

WARDRIP-FRUIN, Noah, MONTFORT, Nick (Eds). The New Media Reader. Estados Unidos, MIT Press, 2003.

 

AUTORES

 

Autores de primeira que buscam explicar a condição atual. Alguns com maior sucesso que outros, alguns com menos firulas que outros. Acho que uns são prolixos, outros até meio infelizes em algumas obras. Sou fã de alguns deles, acho outros esnobes, recomendo a leitura de vários livros de todos eles. Ame-os ou odeie-os, só não deixe de conhecê-los.

 

Félix Guattari

Giles Delleuze

Gilles Lipovetsky

Lawrence Lessig

Manuel Castells

Massimo Canevacci

Michel Maffesoli

Noam Chomsky

Pierre Lévy

Ray Kurzweil

Richard Florida

Steven Pinker

Vilém Flusser

Zygmunt Bauman

 

(para facilitar a sua vida, o Tiago Moresco sugeriu alguns livros deles: Félix Guattari: Caosmose, As Três Ecologias, Cartografias do Desejo - Gilles Deleuze: Foucault - Massimo Canevacci: Antropologia da Comunicação Visual - Pierre Lévy: O que é o Virtual, Cibercultura, A Inteligência Coletiva - Vilém Flusser: O Mundo Codificado, Filosofia da Caixa Preta - Zygmunt Bauman: A Modernidade Líquida. Os marcados em laranja eu também li e recomendo. Mas há mais coisas desses caras)

 

(outra recomendação: o Fabio me relembrou do Michel Maffesoli e do Noam Chomsky, que não estavam na lista original mas foram atualizados para esta - como pude me esquecer deles? Os livros que ele recomenda do Maffesoli são Tempo das Tribos e The Shadow of Dionysus: A Contribution to the Sociology of the Orgy. Do Chomsky tem muita coisa boa de linguagem, muita coisa chata de globalização. escolha com moderação ou não se decepcione mais tarde)

NÃO LI

 

Não se pode ganhar todas. Como essa lista é colaborativa, natural que alguns dos livros eu não tenha lido. Mas ouvi falar bem de todos os livros abaixo. E temo não ter tempo de lê-los todos o quanto antes:

 

CASALEGNO, Federico. Memória Cotidiana. Porto Alegre, Sulina, 2006.

HEATH, Joseph e POTTER, Andrew. Nation of Rebels: Why Counterculture Became Consumer Culture. Estados Unidos, Collins Business, 2004.

HURST, Mark. Bit Literacy: Productivity in the Age of Information and E-mail Overload. Estados Unidos, Good Experience Press, 2007.

JENKINS, Henry. Convergence Culture: Where Old and New Media Collide. Estados Unidos, NYU Press, 2006.

LAKOFF, George e JOHNSON, Mark. Metaphors We Live By. Estados Unidos, University Of Chicago Press, 1980.

LI, Charlene e BERNOFF, Josh. Groundswell: Winning in a World Transformed by Social Technologies. Estados Unidos, Harvard Business School Press, 2008.

MASON, Matt. The Pirate’s Dilemma: How Youth Culture Is Reinventing Capitalism. Estados Unidos, Free Press, 2008.

RHEINGOLD, Howard. Smart Mobs: The Next Social Revolution. Estados Unidos, Basic Books, 2003.

SCHWARTZ, Barry. The Paradox of Choice. Estados Unidos, Harper Perennial, 2005.

SOLOVE, Daniel. The Future of Reputation: Gossip, Rumor, and Privacy on the Internet. Estados Unidos, Yale University Press, 2008.

WEINBERGER, David. A Nova Desordem Digital. São Paulo, Campus, 2007.

ZAKARIA, Fareed. The Post-American World. Estados Unidos, W. W. Norton, 2008.

 

300×5:

 

Por último, a lista mais polêmica. Se você gostou dos livros abaixo, não se ofenda e por favor não fique bravo comigo. Eles são bons livros, mas poderiam ser mais completos e abrangentes. Analisam o específico e ignoram o geral. Provavelmente não serão lembrados em cinco ou dez anos. Valem se você está com pressa ou se quiser ler sua bibliografia:

 

ANDERSON, Chris. A Cauda Longa: do mercado de massa para o de nicho. Campus, Rio de Janeiro, 2006.

GLADWELL, Malcolm. O Ponto de Desequilíbrio. Rio de Janeiro, Rocco, 2002. Do mesmo autor, o livro “Blink” ou “A decisão num piscar de olhos” segue a mesma filosofia.

GODIN, Seth. Small Is the New Big: and 183 Other Riffs, Rants, and Remarkable Business Ideas. Estados Unidos, Portfolio, 2006.

LEVITT, Steven D. e DUBNER, Stephen J. Freakonomics: o lado oculto e inesperado de tudo que nos afeta. São Paulo, Campus, 2007.

MAU, Bruce. Massive Change. Estados Unidos, Phaidon Press, 2004.

SUROWIECKI, James. The Wisdom of the crowds. Estados Unidos, Anchor Books, 2005.

TALEB, Nassim Nicholas. A lógica do cisne negro. São Paulo, Best Seller, 2008.

TAPSCOTT, Don, WILLIAMS, Anthony D. Wikinomics: Como a Colaboração em Massa Pode Mudar o Seu Negócio. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2007.

 

UFA! Este post deu trabalho. Mas valeu a pena, não? Acredito que muitos dos livros que citei aqui já devam ter suas versões em português. Se você souber de algum, me avise que eu corrijo a referência.

 

ATENÇÃO: este post não é uma bibliografia minha, mas uma iniciativa que eu tive e que foi complementada por várias sugestões via Twitter e comentários neste blog. Por isso o post será constantemente reeditado e atualizado. Com o tempo, alguns dos comentários abaixo perderão seu sentido.

Entrevista: Serginho Groisman

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Não, não foi no Altas Horas. Mas foi igualmente constrangedor.

Um pessoal criativo me chamou para falar para uma platéia de TI. Depois que minha apresentação estava pronta, me contaram que não havia espaço na cenografia para permitir uma coisa careta feito um telão.

Tudo bem, fazer o quê? Reformulei tudo e fiz umas fichas para não deixar nenhum tema de fora. Na véspera do evento, resolveram mudar tudo e transformar minha apresentação em uma entrevista com o Serginho Groisman. O cara é gente boa, mas entende de tecnologia o que eu entendo de TV. Ou menos. Refiz tudo e transformei em uma pauta de perguntas para ele. Escolado, ele não topou e resolveu improvisar.

O resultado taí. Fiz o melhor que pude, ele também. Acho que a entrevista tem alguns pontos bem legais, por favor releve o entrevistador.

Entrevista


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