Livin’ la vida local
sexta-feira, 13 de março de 2009
A convite do pessoal da AGADi fui falar sobre mobilidade em um ciclo de eventos chamados de F5, na FNAC de lá. Já estava com boa parte do material preparado quando meu amigo César Paz tuíta:

OK, de volta para o bloco de rascunho. A workshop, que estava focada no cenário atual, teve de ganhar uns toques de projeção e acabou ficando bem mais completa. Agora o problema seria manter a exposição no tempo previsto para tirar o máximo das perguntas posteriores.
O lugar era pequeno, mas a platéia era bem qualificada. Parabéns à AGADi. A presença de rostos conhecidos e extremamente respeitáveis na platéia - como o sr. Abduzeedo e o Marcos Nähr, cujos blogs estão entre minhas referências - me confirmou a importância de não se repetir apresentações. Me choca ver quanto cobram determinadas “celebridades” que fazem de si um triste espetáculo teatral-egocêntrico, repetitivo, desatualizado e, principalmente, desconectado das platéias que a eles devotam sua atenção. Para mim palestras são como aulas: quanto mais alto for o nível da platéia, maior a necessidade de preparação prévia.
Pra aproveitar melhor o subtema “mundo pós-iPhone”, resolvi começar pelo contexto. Dados são sempre variáveis, por isso preferi mostrar atitudes. Nada melhor que os dois filmes feitos pelos fanboys da Apple e da RIM pra mostrar o nível de paixão dessas pessoas por seus… telefones?!?
acima a veneração, abaixo, a competição. Tsk.
Essa devoção exagerada, cega a qualquer espécie de senso crítico, é perigosa e alienante. Não chega a ser tão intensa quanto as guerras religiosas, mas é inegável nela um componente de torcidas de futebol. A disputa Mac vs. PC até passou pela minha cabeça como um paralelo, mas logo percebi que a briga dos celulares era mais intensa. Computadores são sistemas insulares que, mesmo quando conectados em rede, ainda são razoavelmente independentes.
O senhor aí do lado é um bom exemplo da diferença entre os desktops e notebooks e os computadorezinhos que passamos a carregar no bolso: nas raras fotos em que ele aparece só, quase sempre está se comunicando com alguém via seu Blackberry.
Ué, mas isso não é legal? Depende. O problema é que a Research In Motion é canadense, e isso torna as coisas um bocado mais complicadas do que usar um computador chinês ou um videogame japonês: protocolos, servidores, senhas, registros e backups têm que ser armazenados em algum lugar, e não há país que possa se dar ao luxo de perder sua nuvem de vista ou de vê-la cruzar desapegadamente as fronteiras nacionais. A presidência dos EUA pode demandar privilégios e exceções, mas por quanto tempo? Quem mais pode fazer o mesmo?
Esse é o problema das novas tecnologias: ninguém as entende por inteiro, ou mesmo as leva a sério até que chegue a hora em que não seja mais possível ignorá-las. Produtos vão e vêm, as mudanças de comportamento que eles proporcionam permanecem. Outro dia me lembrei da histeria coletiva que aconteceu por causa do Bug do Milênio. Li o que a Wikipedia fala dele e comparei com o que o The New York Times falou na época.
Ri da minha própria paranóia.

A apresentação de cada nova tecnologia costuma ser acompanhada de uma empolgação técnica desproporcional a seu verdadeiro poder. Com ela brotam dúzias de novas siglas e nomes que só aumentam a confusão. Quanto tempo levou para você entender a diferença entre TVs de plasma e LCD? Pois. Raros são aqueles que, pelo menos em sua comunicação, deixam a técnica de lado e se concentram no benefício.
Acredito que parte do sucesso da Apple venha dessa prática:
Já a RIM parece insistir na velha técnica de atordoar as pessoas com tecnologia (ou, como melhor define Thomas Dolby, cegá-las com ciência). Conte a quantidade de termos técnicos que são citados nesse comercial, em que mal se consegue entender o benefício:
Confesso que sou um grande fã do Blackberry, mas não posso negar que o comercial acima parece um trecho daqueles filmes de ficção científica de terceira com a Sandra Bullock, cheios de diálogos improváveis e termos técnicos que, depois de assimilados, se tornam ridículos.
Mas, afinal, o que a mobilidade tem de tão especial se um celular nada mais é que um radinho metido a besta? Se boa parte da Internet móvel é rádio? Se Bluetooth, Wi-Fi, CDMA, UMTS, EVDO e um monte de outras siglas dizem respeito a freqüências de rádio?
Não é tão simples assim. Rádio é um suporte, e muito pode ser feito sobre ele. A TV analógica, por exemplo, usa rádio. Sob o ponto de vista das descobertas tecnológicas, o PC também não é muito mais que uma calculadora com memória anabolizada e automática.
O abismo de compreensão que separa o portador de uma dessas maquinetas de quem usa o celular apenas para ouvir música, mandar SMS e falar está na compreensão que um smartphone não é o equivalente de um computador “socado” dentro de um telefone, mas algo completamente diferente. O que não significa que seja perfeito. Longe disso.

A revista Wired mostra que, mesmo sendo popular no mundo inteiro, o iPhone poderia se dar melhor no Japão. É a reação do consumidor que, cada vez mais mimado, se acostuma rapidamente com a novidade a ponto de considerá-la obrigatória. Para o Homo Dissatisfactens, a Internet sem modem já foi uma maravilha. Hoje não há banda larga o bastante.
Mobilidade, no entanto, quer dizer muito mais do que todas aquelas coisas que nossos telefones fazem que tanto impressionam, como ler e-mails e acessar o YouTube via telefone. Esqueça o raio do telefone e pense no mundo de possibilidades que surgem partir do instante que qualquer aparelho, de qualquer tamanho, possa coletar informações do seu contexto, interligá-las, calculá-las e compará-las com vários bancos de dados, instantaneamente e praticamente sem custo.
Tal situação está longe de ser ficção científica. Independente de qualquer crise, o preço dos componentes eletrônicos continua a cair. Por mais que eu não faça idéia de qual seja o preço de custo de um smartphone touchscreen, imagino que não seja alto. Nele, quanto custa o WiFi? O GPS? O Bluetooth? O telefone, enfim? Se um chip localizador pode custar meia dúzia de doletas, o que me impede de implantá-lo não na minha pele, mas em meu jeans?
MatrixphoneAs plataformas brigam – sempre brigaram – entre si. Já houve o tempo que a “computação gráfica” era disputada entre quem espremia os 8 bits de cor de um Commodore Amiga e quem perdia a noite esperando a placa TARGA funcionar sem incendiar o PC. Usuários de StarTac e de Nokia 8110 disputavam quem era mais descolado (eu adorava esse Nokia, um dos últimos celulares com a capacidade de bater instantaneamente o telefone na cara de alguém). Já houve até quem acreditasse em Windows Vista, veja você. O iPhone é popular até onde não poderia, mas por quanto tempo?
Ainda é muito cedo para definir quem tem mais chances de ganhar a briga de cachorro grande entre Apple e RIM (e Google, nunca se esqueça). Como se não bastasse, empresas como a Palm mostram um poder de recuperação impressionante, marcas como a Nokia (ou a Motorola, lembra dela?) não podem deixar barato e quem acredita que SonyEricsson ou Microsoft vão jogar a toalha sem tentar convencer muita gente que seus produtos são inovadores pelo caminho só pode ser ingênuo.

Nessa corrida a Apple sai na frente por ter tido uma idéia genial ao inverter o lema da comunidade Open Source, transformando-o em um baita modelo de negócios. Enquanto o pessoal do Unix, altruísta, dizia:
“não trabalhe para grandes empresas, desenvolva módulos pequenos em sua casa, faça parte de uma cooperativa grande e descentralizada que, se você for bom, poderá até se livrar de seu emprego com o tempo”
A turma do Jobs foi mais pragmática e apelou para o instinto Slumdog Millionaire que existe dentro de cada um, dizendo:
“trabalhe de graça para nossa grande empresa, desenvolva módulos pequenos em sua casa, faça parte de uma estrutura grande e centralizada que, se você for bom, poderá se livrar de seu emprego no fim do mês”
Faltou dizer que não tem muito espaço no topo da pirâmide, mas isso seria exigir muito da Apple, que não é uma ONG e nem mesmo original: o Facebook veio com a mesma promessa há pouco tempo, mas quem se lembra disso? O que importa é que a apropriação da filosofia descentralizada criou um modelo de negócios que gerou 25 mil aplicativos e perto de um bilhão de dólares em menos de um ano.
Pois é, nada em tecnologia é definitivo. Ainda mais quando a força que está em jogo é muito maior que qualquer empresa.

Acredito que um dos principais indicadores da overdose de inovação que vem por aí se chama Arduino. Apesar de ter um nome tão desconhecido do público geral quanto praticamente qualquer outra tecnologia emergente, a idéia por trás dessa empresa é tão simples quanto poderosa: hardware open source.
Isso mesmo. Permitir a qualquer pessoa que tenha algum conhecimento em eletrônica que faça sua própria máquina e a popularize, contanto que mantenha seus padrões igualmente abertos. Pense no tamanho da Tsunami de inovação que poderá surgir assim que as barreiras - de entrada, de porte, de patentes, de sigilo, de restrição do acesso livre ao conhecimento, enfim - forem, pelo menos em parte, removidas?
Não conheço a Arduino nem tenho formação técnica sólida o suficiente para saber se seu modelo de negócio dará certo, mas tenho certeza que a idéia de open hardware vingará. A indústria de software já provou que produtos abertos são mais versáteis e evoluem mais rápido do que os dinossauros que insistem em permanecer fechados, pouco importa seu tamanho ou poder.
Mobilidade e hardware aberto permitem que as mesmas velhas coisas que você usa desde sempre se transformem em novos Tamagotchis que conversam entre si e formam uma rede de conteúdo contextual e ambiental, cujos efeitos ainda somos primitivos demais para imaginar.
O futuro próximo nunca esteve tão distante dos nossos modelos mentais. Por mais que tudo isso dê medo, é um medo bom.
Semana que vem tem mais. Por enquanto ainda dá para prevê-la.
