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Luli Radfahrer
Luli Radfahrer Consultor e Professor-Doutor da ECA/USP

PhD em Comunicação Digital, já dirigiu a divisão de web de algumas das maiores agências e portais do país. Professor-Doutor da ECA-USP, Professor-convidado da Columbia University, Consultor, Luli também é autor. Sua última obra é "A Arte da Guerra para quem Mexeu no Queijo do Pai Rico".

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Aula Magna - ECA/USP

quarta-feira, 22 de abril de 2009

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Confesso que sempre tive medo de aulas magnas, em sua verdadeira essência. A idéia de uma aula “grandiosa” para receber alunos não me parecia algo que tenha o clima caloroso e aconchegante de quem recebe um estudante novo, assustado e desorientado para um ambiente em que nunca esteve antes na vida. Pelo contrário, sempre acreditei que o excesso de pomposidade e formalidade característicos deste tipo de evento pareciam mais um fator de intimidação e de coerção que de recepção.

Mesmo assim, de vez em quando me chamam para falar em uma delas. Em minha apresentação gosto de mostrar que o mundo do conhecimento é grandioso e fascinante, e que isso não tem nada de assustador, muito pelo contrário. Ignorância, quando acompanhada de curiosidade, é um belo fator de aprendizado e costuma levar a situações fascinantes e inspiradoras. Muita gente é influenciada a acreditar que pode (ou pior, deve) saber de tudo sobre tudo, mas isso é, na minha opinião, completamente estúpido. O máximo de iluminação a que acredito ser possível chegar é a socrática, em que se só poderemos vir a saber o tamanho de nossa ignorância.

Veja que bela a conclusão do Dr. Neil deGrasse Tyson, diretor do Planetário Hayden, sobre o fato de sermos tão “pequenos” no Universo (em que, de fato, ele defende o contrário):

ISSO é que é aula magna, e agora a responsabilidade estava começando a pesar sobre as minhas costas. Mesmo sem entender patavinas de Astrofísica (e de associar Cálculo mais a um problema de saúde que a uma divisão da matemática), acredito que a relação do ser humano com o conhecimento deveria ser a mesma da que ele defende que tenhamos com relação às partículas elementares: deveríamos nos sentir grandes de fazer parte de um aglomerado de conquistas, não pequenos por aquelas que não são exclusivamente nossas. Não há nada exclusivamente individual, se é que você ainda não sabe.

chaplin-dictatorPara muitas pessoas, no entanto, essa percepção da imensidão do mundo é perigosa e assustadora. Assumir-se em um eterno aprender e, nesse processo, rejeitar certezas e maniqueísmos é tornar-se aberto à crítica e ser levado a admitir que suas idéias podem estar erradas. É uma pena. A História mostra que a construção de um raciocínio apoiado em estratégias que não visam se opor a formas de pensar, mas a admitir que existam paradoxos e até contradições entre elas - e que duas ou mais respostas diferentes podem ser igualmente satisfatórias - costuma levar a grandes progressos, por mais que muitos livros de “liderança” e “programação neurolingüística” insistam em afirmar o contrário.

Acima de tudo, grandes profissionais nas mais diversas áreas - principalmente nas criativas - não costumam ter o menor pudor em assumir que as fases mais produtivas e inovadoras de suas vidas foram exatamente as que os forçaram a se portar como aprendizes, sem medo de errar, de cruzar fronteiras de conhecimento, de perguntar o porquê das coisas, de trazer uma nova perspectiva para velhos conceitos e, nesse processo, encontrar atalhos, interligações e curto-circuitos pouco (ou nunca) imaginados.

A genial designer Paula Scher defende brilhantemente este conceito, ao defender que “seriedade” e “solenidade”, que muitos acreditam ser sinônimos, são quase o oposto um do outro:

Essa foi mais ou menos a inspiração que tive para elaborar a minha aula, que deveria recepcionar os calouros, contar para ele que o mundo é cada vez maior e que a comunicação e a interação são essenciais, na procura por remover qualquer comportamento dogmático ou bobagem do tipo “informação é poder”. Como os alunos já tinham um perfil mais conectado, rápido e visual, resolvi montá-la em uma estrutura à Pecha Kucha, mas com 25 minutos e sem se tornar cansativa ou monótona. Um baita desafio.

Maior ainda por ser em casa, na escola me ensinou e formou muito mais depois que eu virei professor do que na época em que eu era aluno. Em uma formatura uma vez eu disse que pagaria para ensinar ali, já que era estimulado - praticamente forçado - a repensar minhas idéias, reciclá-las, renovar o discurso e ser desafiado por mentes brilhantes, mais novas e muito mais conectadas que eu, semestre a semestre, semana a semana.

Encarei a jornada como um aprendiz. Até porque a atitude era extremamente adequada ao momento. O resultado final você pode ver logo abaixo. Acredito que ele que tem várias falhas, mas em linhas gerais eu gostei do resultado.

Terminada a apresentação, alguns alunos vieram falar comigo com os olhos brilhando. Isso não tem preço. Mesmo que eu não me lembre deles daqui a cinco anos - ou que eles se esqueçam de mim ou até mesmo da ECA, o simples fato de ter mostrado para eles uma perspectiva diferente do mundo já justifica o trabalho de um professor. Teve gente que não gostou, o que acho ótimo. Não acredito que toda a unanimidade seja burra, mas certamente é perigosa. Se você só convive com aqueles que pensam da mesma forma que você pensa, corre o risco a passar a acreditar que essa visão do mundo é a realidade, e isso tende a ser preconceituoso, fútil e limitado.

Recomendações profissionais para quem pretende viver um século

sexta-feira, 20 de março de 2009

Outro dia reencontrei um grande amigo que não via há cerca de 18 anos. Combinamos de almoçar um dia desses e, depois de vários desencontros, conseguimos finalmente colocar a conversa em dia. Para minha grande alegria, ele estava muito bem. O aspecto profissional era inegável: ele ocupava um cargo importante dentro de uma empresa multinacional, responsável por várias decisões de porte. Tinha vivido um tempo nos Estados Unidos e não lhe faltavam ofertas para voltar para lá, em posições ainda mais altas. Mas não foi nada disso que me impressionou.

O que me deixou realmente feliz foi perceber que, mesmo com todo esse “sucesso” - que tanto eu como ele sabemos, é externo, efêmero e artificial - ele continuava o mesmo sujeito divertido, franco e simpático com quem é sempre um prazer trocar idéias, e nada ali era menos importante do que o cargo que ele ocupava. Saí do almoço inspirado, pensando como a vida e a carreira são longas hoje em dia, e como é importante administrar o legado que se deixa.

Curiosamente ao chegar em casa me esperava na portaria a nova edição da Revista Webdesign e, com ela, a possibilidade de postar meu artigo publicado há seis meses. Ele tratava do mesmo tema: que viveremos provavelmente mais do que um século, e que teremos a carreira mais comprida da história da humanidade, ao trabalhar dos vinte aos oitenta anos.

Ele se chama “Os primeiros dez por cento“, e pode ser lido logo abaixo.

Os primeiros 10%

junho de 2008 - Revista Webdesign nº 54

Uma das características mais marcantes de quem está em começo de carreira é uma enorme pressa. Pressa em aprender todas as técnicas, pressa em montar um portfólio, pressa em arranjar um emprego, pressa em sair da faculdade, pressa em “acontecer”, pressa, pressa, pressa, pressa… mas pra que tanta pressa? Poucos sabem, mas mesmo assim continuam a ter pressa. Afinal de contas o Pelé, aos 17, já era campeão mundial. O Michael Phelps, aos 15, já tinha mais medalhas que o Brasil. Segundo essa linha apressada, se você não “virou” antes dos 25, já era.

Essa lógica, além de perversa, não faz o menor sentido. Duvido que o designer de 25 anos quisesse ter sua casa projetada por um arquiteto da mesma idade. Ou sua causa defendida por um advogado sem um fio de cabelo branco. Por mais competente e seguro que fosse, não acredito que ele encararia tranqüilo ao ser operado por um médico recém-saído da residência. Acho até que mesmo um jovem gerente de banco não inspiraria a sua confiança. O medo faz sentido: por mais habilidoso que seja, o que me garante que um piloto com poucas horas de vôo seja capaz de enfrentar uma tempestade, se as únicas que viu foram em um simulador?

Você pode até argumentar que em criação é diferente, mas está errado. Marcello Serpa, Alexandre Gama e Nizan Guanaes estão na faixa dos 50 anos, Washington Olivetto na dos 60 – junto com Chico, Caetano e Gil. Os fundadores da DPZ ainda estão ativos, com bem mais de 70. E o que dizer do Niemeyer, nosso highlander da arquitetura?

A pressa, já dizia a sua avó, é inimiga da perfeição. Nunca se viveu tanto e nunca se trabalhou por tanto tempo. Quando eu era criança, “velho” era quem tinha 40 anos. Hoje é preciso ter umas duas décadas ou três a mais. Do jeito que a tecnologia avança, não é preciso ser otimista para acreditar que você certamente viverá mais de 100 anos – se não for fumante, claro. Também não é difícil acreditar que você dificilmente se aposentará antes de ter completado seus 80 e estiver com a cabeça bem cheia de cabelos brancos. Em uma vida tão longa, os primeiros vinte por cento são claramente desprezíveis: eles são o período de aprendizado, em que o profissional está se formando para encarar umas seis boas décadas de maratona. Aquele que largar desesperado dificilmente terá fôlego para chegar longe.

Apesar das bobagens faladas pelos livros e revistas de auto-ajuda executiva, você não se aposentará antes dos quarenta. Nem que tenha ganho um, dez ou cem milhões de euros. O trabalho é a atividade intelectual que nos mantém vivos e ativos, por mais que não gostemos dele. Mesmo que você não precise do salário, trabalhará pelo prazer de ver idéias acontecerem, de interagir com pessoas, de criar coisas. Vestir o pijama é jogar a toalha, e é isso que tanto deprime os desempregados, muito mais do que a falta de dinheiro.

Dê uma busca nos nomes que você ouviu terem ficado milionários antes do estouro da bolha das empresas pontocom e provavelmente descobrirá que todos estão trabalhando. Pesado. Os donos do Google batem ponto todos os dias, e mesmo o Bill Gates chamou de “aposentadoria” o que muitos chamariam de mudança de emprego. Para um trabalho mais puxado, vale ressaltar. O que ele faz em sua ONG não tem expediente nem final de semana, muito pelo contrário. Mesmo aquele capitalista mais nojento, tipo Donald Trump, com todos seus aviões e banheiros com torneiras de ouro, não é visto de chinelos em praias tropicais, mas de terno em salas de reunião. Se é assim, em quem você se espelha com toda essa pressa? Se não vai parar de trabalhar, pra que a correria?

Hoje em dia quem tem 26 anos acabou de completar os primeiros 10% de sua carreira. Aos 40, terá chegado a um terço dela. A metade só chegará quando ele chegar à meia-idade. Nem mesmo quando ele chegar aos setenta poderá dizer que o fim está próximo. A não ser que aconteça alguma guerra ou pandemia, a expectativa de vida no meio do século XXI pode ser bem maior do que se imagina hoje.

A experiência faz bem. Quem arranja o primeiro emprego em uma empresa grande não tem tempo de treinar. Quando fizer uma besteira – e todos fazem besteiras o tempo todo, não se iluda – será mais visível e frágil. Quem vira chefe rápido, rapidamente será enganado por seus subordinados, trapaceado por seus colegas ou preterido em uma futura promoção. Quem ganha dinheiro fácil e rápido costuma gastá-lo ainda mais rápido e com mais facilidade, como se vê facilmente em muito jogador de futebol, pagodeiro, apresentador de TV, modelo/atriz, participante do Big Brother ou ganhador da MegaSena.

Antes de sair correndo desembestadamente e gastar toda a sua energia, gaste alguns minutos para perceber aonde está e para onde pretende ir. Não se pode seguir vários caminhos ao mesmo tempo e são poucos os que realmente valem a pena. Estude o máximo que você puder, porque o mundo está cada vez menor e cada vez mais difícil de enganar.

A vida não é fácil. Quem diz que é mente ou está ainda mais perdido que você. Como diria um filósofo Zen, “ao caminhar, apenas ande”. Concentre-se no que pretende fazer, como pretende ser reconhecido, aonde pretende chegar daqui a uns 20 anos. E leve 20 anos para chegar lá. Se conseguir o que quer em 18 anos, estará no lucro. Se chegar em 5, provavelmente definiu a meta errado. Ou chegou ao lugar errado.

Ninguém duvida que o Jobs que criou o iPhone é muito melhor do que o Steve que fundou a Apple. O primeiro mudou o mercado, o segundo foi demitido. Por mais que você acredite estar com “vinte e tantos” anos, saiba que o prefixo “vinte” não admite o complemento “tantos”. Isso é coisa para quem tem trinta ou quarenta. Nessa idade, só se tem “vinte e qualquer coisa”.

É a melhor época da vida para se experimentar e errar – pode ir tranqüilo, ninguém está de olho em você.

Less is more, século XXI » Vida Simples

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Um  mundo de abundância é um mundo de escolhas. Quando praticamente tudo é possível, o que faz a diferença não é mais o volume, mas o critério. É isso que os designers modernistas queriam dizer quando proclamavam que “less is more”: menos só significa mais quando os elementos escolhidos têm valor. Caso contrário, menos só quer dizer pobre.

O design contextualiza, explica e familiariza. Cabe ao designer ser o tradutor e intérprete dos novos tempos. Só que não adianta mais fazer algo bonito. Novos tempos demandam novos adjetivos. Selecionei alguns deles para ilustrar:

 
Por apenas mil doletas você também pode ter um par dessas BeoLab 4, pra compensar a $ que você economizou pirateando MP3.

O melhor exemplo desse uso de critério está no que nos acostumamos a chamar de minimalismo. Termos da moda à parte, ele propõe a redução do design aos componentes mais relevantes. No caos urbano, ele representa um abençoado silêncio. Essa simplicidade está muito longe de ser simplória. É preciso prestar muita atenção no detalhe. E fazer mais com menos.

O design pode ser fluido quando a superfície e a estrutura se fundem, a ponto de ficar difícil identificá-los. Apesar de novo em ambientes tecnológicos (como é o caso do GINA, falado no post anterior), é bastante comum em formas orgânicas. Cabe ao designer harmonizar o ambiente com a experiência dos usuários, para que suas fronteiras não sejam perceptíveis.


A hélice desse mixer imita as espirais de um lírio.
Super
Poder dos Limites.

Os avanços da tecnologia permitiram ao design abandonar aquela estrutura “certinha” do plástico e do vetorial. Ele agora pode ser físico e lançar mão de transparências, luzes, sombras e texturas. Alguns podem achar que isso é reação à tecnologia, mas é exatamente o contrário: é expansão.


A poltrona de ursinhos dos irmãos Campana tem tanta textura que mal se vê.
A forma segue a emoção.

Não é preciso ser retrô nem gostar de Brian Setzer para se praticar o design reciclado. Muito pelo contrário, ele é um claro sinal de adaptação aos novos tempos, em que todos os materiais podem ser encarados como matérias-primas. Se bem feita, a intervenção passa a ser muito divertida e claramente identificável. Ou como diriam os curadores de museu e professores de semiótica, tudo é uma questão de repossuir os elementos e ressignificar as velhas formas, embora eu não esteja bem certo do que isso queira dizer.

 
As capas das edições comemorativas do James Bond usam um estilos
de bico de pena, simulando todos os defeitos inerentes ao meio.

Em um mundo hiperconectado, o valor do local não é mais o exótico, mas a forma de pensar. Tradição e essência se misturam em uma sopa geográfica, e cada região contribui como pode. O local pode ser físico, histórico ou cultural. Se for uma mistura dos três, tanto melhor.


Meus alunos da ECA me chocam. A primeira vez que vi usarem o keffieh,
fiquei impressionado pelo tamanho da falta de respeito. Depois acostumei.
Fora do ambiente, a simbologia desaparece e ele é só um lenço.

Costumam associar design a branding porque ele é extremamente identificador. Pensando bem, nós vivemos dentro de redes de mensagens, sinais, informações e aprendizados que produzem nossa experiência do real. Uma marca familiar funciona como um ponto de referência nessa confusão.


Air Jordan. Claro que não é da Adidas.

Por falar em pontos de referência, é interessante falar da função narrativa do design. Ao organizar os elementos de múltiplas fontes, ele pode contar histórias e estimular a imaginação, transformando experiências que seriam tediosas em verdadeiras performances.


Esses museus são muito diferentes daqueles que você conhece.
Eles proporcionam uma imersão tamanha que a sensação é de se conversar com alguém que tem muito a contar.

Por último, como não poderia faltar, há o design incrível, que brinca com os sonhos e emoções em uma mistura que beira o imaginário. É ele que nos mostra a visão de um futuro possível, que não tem medo de delirar. Mesmo que se torne datado ou até mesmo ridículo com o tempo, não custa lembrar que todas as cartas de amor são ridículas.

Espero que este post sirva de inpiração para a próxima vez que você se sentir sem idéias. Elas existem às pencas por aí. O que é difícil é arranjar critério. Não se angustie por não poder pegar tudo, não dá para comer todos os pratos do cardápio. Da mesma forma, um design que use cores ou letras demais costuma provocar uma bela indigestão visual.


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