.  Luli Radfahrer

Luli Radfahrer
Luli Radfahrer Consultor e Professor-Doutor da ECA/USP

PhD em Comunicação Digital, já dirigiu a divisão de web de algumas das maiores agências e portais do país. Professor-Doutor da ECA-USP, Professor-convidado da Columbia University, Consultor, Luli também é autor. Sua última obra é "A Arte da Guerra para quem Mexeu no Queijo do Pai Rico".

Posts com a Tag ‘criatividade’

Gigatendências, parte II – Zeitgeist e Weltanschauung

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

galileogalilei-1

Quando o bom senso mostra o contrário, penso em Galileu resmungando: “e, no entanto, ela se move…”

Inovação é observação. Quando olhada sob a fita métrica da história, a maioria das descobertas e invenções científicas, tecnológicas e em modelos de negócios surgiu da prestação de um serviço que fazia todo sentido ao eliminar, acelerar, reduzir, limpar… otimizar, enfim, algum processo cotidiano ou simplesmente remover próteses que, apesar de corriqueiras, não faziam o menor sentido. O sucesso de RSS, podcasts, YouTube e o download de músicas, filmes e séries de TV vem muito mais de uma questão prática que de uma econômica.

Já houve tempo em que era considerado normal ser dono de uma cópia particular de uma música ou um filme. Já foi comum enfrentar o pedágio de ter sua diversão interrompida por mensagens comerciais porque alguém teria que pagar a conta – e nada mais natural que fosse você. Impérios financeiros com grande poder e influência nasceram do fato corriqueiro que informação tinha preço, e era vendida em bancas ou livrarias. Outros impérios se apoiaram em cobrar por cada minuto de interação – pessoal ou profissional, tanto fazia. E ainda tem gente que se espanta ao vê-los ruir. Não é crise: esses modelos quebram simplesmente por não fazerem sentido. O surpreendente é que tenham durado tanto.

433px-elizabeth-2O futuro é igual ao presente, tirado dele as coisas que não fazem sentido. Não é fácil perceber que o Rei está nu (ou que, para esses efeitos, a função da Rainha em um país democrático como o Reino Unido é simplesmente e pragmaticamente turística). Muitos dos que se incomodam com a situação logo se acomodam ao perceber sua impotência e logo desistem ou partem para a ficção, como Leonardo, Hergé e Júlio Verne.

home_text-3

Os tempos mudaram e revoluções individuais nunca foram tão fáceis. No entanto, muitos profissionais criativos, de designers a empreendedores, se comportam como crianças mimadas ao cultivarem suas idéias e percepções do mundo sem procurar validá-las na realidade. Agem como o adolescente que visualiza seu romance com a mulher dos seus sonhos sem perguntar se ela se interessa por ele, ou como o comerciante que se vê milionário antes mesmo de mandar sua proposta.

Em futebol, é comum perguntar por ironia ao jogador ou técnico que tanto canta suas glórias se ele tem o resultado combinado com o adversário. Em futebol também se diz que os que se acomodam com vitórias fáceis perdem de virada. Sábias lições.

Costumo dizer que criatividade não é exceção, mas regra. Novas idéias surgem o tempo todo, não há nada de especial em tê-las. Muitas pessoas, no entanto, são reprimidas – por sua educação, ambiente de trabalho, superego, medo do ridículo ou simplesmente acomodação – e se desacostumam da prática regular de buscar por novas idéias. Esse sedentarismo mental costuma levar a uma lerdeza criativa, traduzida pela resistência ao novo e adoção da primeira idéia que surgir ou, depois de lutar para conquistar o novo, se apoiar, ofegante, pelos louros conquistados – e ser engolido pela concorrência.

motorola_aura-4A indolência mental não é exclusividade dos pequenos. Na indústria de telefones celulares existem vários exemplos.

A Motorola investe em design e toma a dianteira, mas esquece de se preocupar com usabilidade e arquitetura de informação, e perde mercado para a Nokia. Esta se acomoda ao perceber que está bem à frente das empresas em seu segmento e perde a soberania para duas empresas sem tradição alguma em telefonia: RIM e Apple. Estas, se bobearem, poderão ser superadas por alguém que observa os problemas que hoje temos mas não nos animamos a melhorar. O que realmente ameaça não parece ameaçar.

É por isso que não acredito em Windows Mobile ou SilverLight: forçar uma solução pronta para dentro de outro aparelho sem pesquisar suas particularidades não é inovar, mas forçar a barra nos piores pontos de uma relação que já não está em seus melhores dias.

adobe-flash-logo-5

Por que ninguém reclama de PDF?

O pior problema do Flash é ser um plug-in instalável, de código complexo e fechado, operação difícil e SEO praticamente impossível. Isso sem falar que ele é uma nulidade em termos de acessibilidade por dispositivos fora de padrão, como celulares ou videogames e invisível para pessoas com necessidades especiais. Ele tem a seu favor o fato de ter sido pioneiro, se popularizado e ter uma legião de profissionais habilitados para tirar dele recursos muito além do que a maioria dos browsers oferecia. O Silverlight resolve algum desses problemas? Não. É só mais um plug-in, mais uma tralha a instalar, mais uma linguagem de programação a aprender, mais um empecilho para os profissionais de métricas, usabilidade e arquitetura de informação. Já tinha perdido a batalha antes mesmo de entrar nela.

internet-explorer-logo-5

O problema não está na Microsoft, mas em sua atitude. Ela tinha condições de atualizar compulsoriamente o Internet Explorer 6 e abrir seu código, mas grande e teimosa feito burocrata comunista, se recusa a fazer a gentileza.
reebok-6
Mesmo fora do segmento eletroeletrônico a regra se mantém. Adidas já foi a rainha do mercado de tênis esportivos. Perdeu espaço para a Nike, que foi alcançada pela Reebok e New Balance. A Mizuno estava entrando na festa quando a Nike resolveu investir em tecnologia (+iPod etc) e a Adidas, em estilo. Mizuno voltou ao nicho e Reebok… quem fala em Reebok hoje?

614px-peoplebirding-7

Os dois palavrões que entitulam este post mostram a importância da observação no processo de inovação. Retirados do psicologês, eles estão mais para jargão que para barbarismo. Zeitgeist, em alemão, quer dizer “espírito dos tempos”, mas não tem nada de místico. Ele se refere ao conjunto de estímulos que, derivado das mais variadas fontes, resulta na “personalidade” de uma época. Os loucos anos 20, a revolução sexual, o otimismo generalizado com o fim da II Guerra Mundial e com a queda dos regimes autoritários do leste europeu, os excessos da época da bolha pontocom são alguns exemplos, como também o são a depressão depois da quebra da Bolsa de Nova York em 1929, a tensão da Guerra Fria, a depressão dos anos Reagan, o pessimismo depois dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001.

picture-8

Sim, Twitter também é um bom medidor do Zeitgeist.

Identificar o Zeitgeist não é nada fácil. Demanda entrevistas, leituras, comparações, análises e muita, muita observação. Institutos de pesquisa de mercado e consultorias de tendências se desdobram na busca por definir com alguma precisão o que permanece e o que muda a cada novo movimento econômico / político / social / tecnológico. Você consegue imaginar o efeito que a eleição de Barack Obama teve sobre a indústria de cosméticos? Ou o impacto das falsificações chinesas na redução de preços para o consumidor ocidental – e conseqüente redução no prazo de renovação do guarda-roupa? Pois é, muita gente vive de investigar possíveis respostas para estas e várias outras perguntas, e cobra somas bastante consideráveis pelos seus insights.

Hoje a busca pelo espírito dos tempos não é mais privilégio de empresas especializadas. Pelo contrário, deveria ser tarefa de todos. Mesmo que instrumentos caseiros não sejam tão precisos ou que não se imagine nenhuma aplicação imediata de suas descobertas, a compreensão do zeitgeist é fundamental para que as mudanças sejam absorvidas, assimiladas e utilizadas de forma sensata.

pai-emo-9

Todos deveriam, independente da área de atuação, fazer para si mesmos a pergunta “por que as coisas são do jeito que são hoje em dia?”, seguido de “o que está errado e pode ser melhorado?”. Muitas perguntas ficarão, obviamente, sem resposta. Não importa. Como em uma jornada zen de autodescoberta, o caminho é mais importante e significativo que o destino final. As respostas mudam com o cenário, que nunca é fixo.
Nos anos 1930, pais sonhavam com um futuro em que cada filho tivesse um automóvel, hoje sonhamos com a geração que não precisará deles. Nos anos 50, astronautas de episódios de Twilight Zone fumavam na lua e em foguetes. Nos anos 70, James Bond pegava uma estrela-do-mar e a jogava no barco com o mesmo desapego com que jogava um saco plástico na água.

logo_uniban-101

A visão de mundo, quanto mais ampla e bem informada, mais criativa, inovadora e livre de preconceitos costuma ser. O Tao Te Ch’Ing diz que os seres vivos, ao nascer, são flexíveis e maleáveis e, ao morrer, se tornam duros e resistentes. A elasticidade dos pensamentos e crenças é, segundo eles, discípula da vida. A rigidez, seguidora da morte.

hong-kong-skyline-11

As redes sociais podem ser, ao mesmo tempo, potencial e perigo para o cultivo dessa observação. Ao estimularem o contato com formas diferentes de se pensar funcionarão, como grandes viagens, para ampliar a perspectiva e melhorar a compreensão dos tempos. Se funcionarem como câmaras de eco para velhas idéias, vícios e preconceitos terão o efeito contrário.

Aí que entra o outro palavrão do psicologês usado neste título: Weltanschauung – isso mesmo, com dois “uu”, Alemão é quase um código secreto. O termo vem de olhar (anschauen) o mundo (die Welt, ou “a” mundo) e é exatamente isso que o processo contínuo e freqüente de mensuração do Zeitgeist promete: uma visão/observação do mundo com familiaridade.

Perceber o mundo como um membro da família, reconhecê-lo em suas qualidades e defeitos, aceitar sua personalidade sem afetações, surpresas ou restrições é, hoje em dia, uma habilidade admirável. Espero que, em um futuro próximo, ela seja corriqueira.

É bom estar de volta. Obrigado pelo carinho e paciência.

Na máquina dos outros

sábado, 27 de junho de 2009

wipeout

Para matar o tempo de vocês enquanto eu não produzo conteúdo novo, seguem duas coisas que talvez vocês já tenham visto. A primeira é meu artigo para a revista Webdesign de dezembro que, passados seis meses, pode ser tornado público aqui. Ele trata do fato que quase sempre esquecemos ao produzir idéias criativas: que elas serão consumidas pelos outros, que rodarão no computador dos outros, enfim. Acredito que seja mais por concentração que por desleixo, muitas boas idéias parecem se esquecer do outro, no melhor estilo “temo tudo para ganhar este jogo mas… faltou combinar com o adversário”. Não é dos meus melhores textos, mas acredito que vale postá-lo aqui nem que seja para servir simplesmente como lembrete.

Quem acompanha este blog há algum tempo (ou que tenha visitado minha seleção dos 10 61 posts de que mais gostei) pode ter dado de cara com um post de quase dois anos atrás, chamado Surf e tendências. Recentemente, em uma brincadeira com os estilos de storytelling que se pode desenvolver em apresentações - um tema que eu prometo desenvolver mais tarde por aqui - resolvi transformar parte do conteúdo do post em uma apresentação de 30 slides, que está a seguir. Quem conhece o post, experimente a comparação e me diga o que achou. Quem não o conhece, me diga se a apresentação consegue transmitir a mensagem. Ela nada mais é que um exercício de estilo:

Quem conhece essa comparação mas tem certeza de nunca ter lido nada a respeito talvez se lembre do iMasters InterCon 2007 em que, no papel de mestre de cerimônias, tive que “enrolar” a platéia por 25 minutos enquanto o Raphael Vasconcellos estava sendo retido na AgênciaClick pelo JeffPaiva. Na época não os conhecia bem o suficiente para sair distribuindo tapanoreias e tive que improvisar. Nada melhor que usar uma história que, como quase todas as outras deste blog, surgiu em um momento que eu estava de bobeira fazendo algo que não tinha nada a ver com a tal da Internet. É aquela história da verdade estar lá fora, etc.

Boa leitura. Prometo que volto com conteúdo novo se não explodir de tantas pendências atrasadas antes disso.

Trajano foi ao cinema (e ainda não voltou)

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Entre todas as ocupações que um designer pode ter, poucas fascinam mais que os cartazes de cinema. Existem coisas muito mais esquisitas, como projetar parafusos e bules de chá e outras que, de tão nerds, até chamam a atenção, como desenhar cenários para videogames ou ambientes de imersão. Mas Cinema é cinema, e o cartaz de cinema, por toda a liberdade temática que oferece, está entre as coisas mais criativas que um designer gráfico pode fazer.

Saul Bass

Ou estava. Não é preciso um olho minimamente treinado para reconhecer que filmes tão diferentes quanto Uma mente brilhante, Freddy vs. Jason e Nancy Drew usam, em seus títulos, a mesma - mesmíssima - família tipográfica:

Beautiful mind

freddy-vs-jason1

Nancy drew

O que um drama, um thriller e um filme de adolescentes têm em comum? Ora, o mesmo que este, este, este, este, este, este, este, este, este, este, este, este, este, e principalmente este filme têm. Títulos compostos com a família tipográfica Trajan em seus cartazes, ué.

300px-trajanspec3asvgCriada por Carol Twombly (que pelo que sei não é parente do Cy Twombly) em 1989, Trajan é um exemplo claro de uma família tipográfica Glífica, ou seja, inspirada em um alfabeto esculpido na pedra. Por isso ele tem umas curvas tão suaves e, às vezes, uns terminais tão compridos.

É por isso também que esse alfabeto não tem minúsculas. Na Roma antiga, época em que o texto que inspirou essa família tipográfica foi escrito, elas simplesmente não tinham sido inventadas.

O alfabeto que ela escolheu como inspiração para o trabalho não poderia ser mais importante: ele é o inscrito em mármore no monumento que comemora a vitória do Imperador Trajano sobre os Dácios (mas que você pode chamar simplesmente de Coluna de Trajano se não quiser parecer pedante).

Construída no comecinho do século II, em Roma, a coluna - e a estátua de bronze de São Pedro colocada em seu topo quase 15 séculos depois - garante assunto para vários posts e, a princípio, não tem absolutamente nada a ver com cinema.

Ela é importante porque depois de vários séculos de Idade Média, a caligrafia esculpida no mármore foi substituída pela escrita uncial das Bíblias e, quando chegou o Renascimento, praticamente ninguém sabia mais que forma tinham as letras maiúsculas do alfabeto. Pode parecer bizarro, mas não era nada fácil derivar um G de um g. Ou um R de um r.

A Coluna de Trajano, para alegria da geral, tinha o alfabeto inteirinho, tão bem desenhado e preservado que só faltava estar escrito “The quick brown fox jumps over the lazy dog”.

439px-codex_bezae_latin

Uncial. Pode chamar de Celta, mas ela é mais do que isso. O Império Romano foi tão grande que esse tipo de caligrafia é encontrada em toda Europa ocidental, das ilhas britânicas à Turquia.

OK, mas o que isso tem a ver com cinema? Nada. Absolutamente nada. Taí um mistério contemporâneo mais impressionante do que as vendas de “O Segredo” ou a popularidade da Microsoft. Uma teoria que corre por aí é que um cara que “faz designer” (sic) e trabalhava com cinema resolveu usá-la em um filme épico romano. Depois a usaram em outros tipos de filmes épicos. Depois simplesmente em filmes. Agora tanto faz, virou um chavão mais ou menos como aquele narrador de traillers.

Para se fazer design é preciso ver. Observar o layout que é feito, seja de um ícone para o MSN ou para um cartaz de cinema, como quem realiza um processo ativo e interage com a imagem que é vista. De todos os desenhos usados em um cartaz, as letras são certamente os mais reconhecidos, por isso devem ser variados o bastante para que sejam capazes de transmitir a expressão, ironia ou paixão de um discurso, coisa que se faz tão facilmente com tons de voz e olhares, mas que perde sua força quando por escrito.

Tabela periódica

É para isso que existem tantas famílias tipográficas. É por isso também que as palavras texto, textura e tecido têm a mesma origem e se usa tantas metáforas têxteis quando se fala em pensamento ou discurso. Mas isso fica para outro post, para não quebrar a linha de raciocínio =D

Pra encerrar, mais dois filmes que não têm nada a ver com a Coluna de Trajano:

Conquista da Honra

am_ws_hotelrwanda_1


  • InterCon
  • DialHost
  • Impacta
  • Pagseguro

2001 - iMasters FFPA Informática Ltda - Todos os direitos reservados.