.  Luli Radfahrer

Luli Radfahrer
Luli Radfahrer Consultor e Professor-Doutor da ECA/USP

PhD em Comunicação Digital, já dirigiu a divisão de web de algumas das maiores agências e portais do país. Professor-Doutor da ECA-USP, Professor-convidado da Columbia University, Consultor, Luli também é autor. Sua última obra é "A Arte da Guerra para quem Mexeu no Queijo do Pai Rico".

Posts com a Tag ‘Design’

Trajano foi ao cinema (e ainda não voltou)

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Entre todas as ocupações que um designer pode ter, poucas fascinam mais que os cartazes de cinema. Existem coisas muito mais esquisitas, como projetar parafusos e bules de chá e outras que, de tão nerds, até chamam a atenção, como desenhar cenários para videogames ou ambientes de imersão. Mas Cinema é cinema, e o cartaz de cinema, por toda a liberdade temática que oferece, está entre as coisas mais criativas que um designer gráfico pode fazer.

Saul Bass

Ou estava. Não é preciso um olho minimamente treinado para reconhecer que filmes tão diferentes quanto Uma mente brilhante, Freddy vs. Jason e Nancy Drew usam, em seus títulos, a mesma - mesmíssima - família tipográfica:

Beautiful mind

freddy-vs-jason1

Nancy drew

O que um drama, um thriller e um filme de adolescentes têm em comum? Ora, o mesmo que este, este, este, este, este, este, este, este, este, este, este, este, este, e principalmente este filme têm. Títulos compostos com a família tipográfica Trajan em seus cartazes, ué.

300px-trajanspec3asvgCriada por Carol Twombly (que pelo que sei não é parente do Cy Twombly) em 1989, Trajan é um exemplo claro de uma família tipográfica Glífica, ou seja, inspirada em um alfabeto esculpido na pedra. Por isso ele tem umas curvas tão suaves e, às vezes, uns terminais tão compridos.

É por isso também que esse alfabeto não tem minúsculas. Na Roma antiga, época em que o texto que inspirou essa família tipográfica foi escrito, elas simplesmente não tinham sido inventadas.

O alfabeto que ela escolheu como inspiração para o trabalho não poderia ser mais importante: ele é o inscrito em mármore no monumento que comemora a vitória do Imperador Trajano sobre os Dácios (mas que você pode chamar simplesmente de Coluna de Trajano se não quiser parecer pedante).

Construída no comecinho do século II, em Roma, a coluna - e a estátua de bronze de São Pedro colocada em seu topo quase 15 séculos depois - garante assunto para vários posts e, a princípio, não tem absolutamente nada a ver com cinema.

Ela é importante porque depois de vários séculos de Idade Média, a caligrafia esculpida no mármore foi substituída pela escrita uncial das Bíblias e, quando chegou o Renascimento, praticamente ninguém sabia mais que forma tinham as letras maiúsculas do alfabeto. Pode parecer bizarro, mas não era nada fácil derivar um G de um g. Ou um R de um r.

A Coluna de Trajano, para alegria da geral, tinha o alfabeto inteirinho, tão bem desenhado e preservado que só faltava estar escrito “The quick brown fox jumps over the lazy dog”.

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Uncial. Pode chamar de Celta, mas ela é mais do que isso. O Império Romano foi tão grande que esse tipo de caligrafia é encontrada em toda Europa ocidental, das ilhas britânicas à Turquia.

OK, mas o que isso tem a ver com cinema? Nada. Absolutamente nada. Taí um mistério contemporâneo mais impressionante do que as vendas de “O Segredo” ou a popularidade da Microsoft. Uma teoria que corre por aí é que um cara que “faz designer” (sic) e trabalhava com cinema resolveu usá-la em um filme épico romano. Depois a usaram em outros tipos de filmes épicos. Depois simplesmente em filmes. Agora tanto faz, virou um chavão mais ou menos como aquele narrador de traillers.

Para se fazer design é preciso ver. Observar o layout que é feito, seja de um ícone para o MSN ou para um cartaz de cinema, como quem realiza um processo ativo e interage com a imagem que é vista. De todos os desenhos usados em um cartaz, as letras são certamente os mais reconhecidos, por isso devem ser variados o bastante para que sejam capazes de transmitir a expressão, ironia ou paixão de um discurso, coisa que se faz tão facilmente com tons de voz e olhares, mas que perde sua força quando por escrito.

Tabela periódica

É para isso que existem tantas famílias tipográficas. É por isso também que as palavras texto, textura e tecido têm a mesma origem e se usa tantas metáforas têxteis quando se fala em pensamento ou discurso. Mas isso fica para outro post, para não quebrar a linha de raciocínio =D

Pra encerrar, mais dois filmes que não têm nada a ver com a Coluna de Trajano:

Conquista da Honra

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Mecânica dos fluidos: Design no ambiente elástico

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Os vídeos deste post foram gravados em uma palestra minha para o 13º Encontro de Web Design, nas edições de Curitiba, Porto Alegre e São Paulo. Fazia tempo que não falava sobre design, por isso fiz uma palestra um pouco longa, de vez em quando bastante conceitual, mas acho que ficou bacana. Para montá-la, dei uma bela pesquisada em uns livros legais e outros sites melhores ainda. Afinal de contas, já que continuo a enrolar vocês com relação ao meu livro que nunca sai, tinha que prestar algumas satisfações. A primeira parte está no vídeo a seguir:

Chamei a palestra de “mecânica dos fluidos” porque, para mim, esse é o maior desafio do designer hoje em dia. Ao contrário do que acontecia no ambiente certinho, estático e previsível em que vivíamos até dois terços do século passado, o mundo hoje é fluido e fragmentado, feito o resto de azeite e vinagre que sobra no prato no quando a salada acaba.

As categorias das coisas se misturam e se complementam, em uma confusão tão grande que fica a cada dia mais difícil classificá-las. Traduzi-las, então, ainda pior.

E é exatamente isso que o designer faz: cabe a ele traduzir a complexidade dos conceitos e idéias novos na simplicidade das formas e interfaces. Pense em como seria difícil explicar a  Internet se não houvesse a web, por exemplo.

Não é uma tarefa fácil. E tem muito pouco - quase nada, aliás - a ver com arte. Arte é uma forma de expressão individual, uma conversa entre o artista e seu público. Em design, o profissional  é só um intermediário: toda atitude e expressão devem estar no produto.

O trabalho de tradução que o designer realiza está por toda parte. Graças a ele as coisas mais exóticas - como o cursor de um mouse ou o sistema de autofoco de uma câmara, por exemplo, deixam de ser sinais elétricos sem cara e passam a ser visíveis e audíveis. Esse é o motivo, na minha opinião, da crescente popularidade do design nos tempos acelerados em que vivemos.

Sempre vale a pena lembrar que, por mais que muitos desejem, as tecnologias não vão parar. Pelo contrário, elas devem acelerar cada vez mais, e com elas a necessidade de mais design para traduzir um ambiente mais complexo e mutante. Cada nova tecnologia traz consigo um
a sensação de desconforto, que nada mais é do que o sinal da mudança. Cabe aos designers dar a sua cara,
 torná-las compreensíveis e amigáveis.

A palestra se estende explicando alguns caminhos para realizar esse processo de tradução. Se você quiser saber mais delas, dê uma olhada neste post.

A segunda parte da palestra chama a atenção para o fato que design é uma linguagem, e como toda linguagem, é uma interface, ou ponto de contato entre duas pessoas. Mas um tipo de interface especial, que permite ao conhecimento se deslocar no tempo e no espaço, de uma forma muito envolvente - é uma conversa, como eu já tinha dito aqui.

Vivemos cercados de aparelhos que conversam conosco. Do alarme do carro ao autofoco da câmara fotográfica, do vibracall do celular ao barulho do pisca-pisca, todas essas formas de expressão têm seu léxico e gramática próprios, e precisam ser aprendidos para serem compreendidos. Por isso que é tão difícil para um usuário de Mac pilotar uma máquina Vista: Português e Catalão não são a mesma coisa.

e nego se diverte… adoro este país =)

Por definição, design significa desenho, projeto e desígnio - é uma forma de arte gráfica que obedece a uma finalidade e tem uma função clara. À medida que se torna mais importante, design também pode ser compreendido como substantivo (o design de Mies Van de Rohe), verbo (aquela comunicação demanda redesign), ou até adjetivo (essas cadeiras de design são desconfortáveis). Mas isso é só o começo. Design também pode significar criatividade aplicada, pode ser usado para solucionar problemas, pode ser compreendido como um tipo de aprendizado, uma evolução no modo de se encarar um objeto, serviço ou situação, um processo social, um jogo de descobertas e resolução de problemas, uma exploração por um terreno sensorial desconhecido ou pouco trilhado, um diálogo…

Design, enfim, é comunicação. E comunicação é o que faz de nós, humanos, uma espécie tão fascinante.

Less is more, século XXI » Vida Simples

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Um  mundo de abundância é um mundo de escolhas. Quando praticamente tudo é possível, o que faz a diferença não é mais o volume, mas o critério. É isso que os designers modernistas queriam dizer quando proclamavam que “less is more”: menos só significa mais quando os elementos escolhidos têm valor. Caso contrário, menos só quer dizer pobre.

O design contextualiza, explica e familiariza. Cabe ao designer ser o tradutor e intérprete dos novos tempos. Só que não adianta mais fazer algo bonito. Novos tempos demandam novos adjetivos. Selecionei alguns deles para ilustrar:

 
Por apenas mil doletas você também pode ter um par dessas BeoLab 4, pra compensar a $ que você economizou pirateando MP3.

O melhor exemplo desse uso de critério está no que nos acostumamos a chamar de minimalismo. Termos da moda à parte, ele propõe a redução do design aos componentes mais relevantes. No caos urbano, ele representa um abençoado silêncio. Essa simplicidade está muito longe de ser simplória. É preciso prestar muita atenção no detalhe. E fazer mais com menos.

O design pode ser fluido quando a superfície e a estrutura se fundem, a ponto de ficar difícil identificá-los. Apesar de novo em ambientes tecnológicos (como é o caso do GINA, falado no post anterior), é bastante comum em formas orgânicas. Cabe ao designer harmonizar o ambiente com a experiência dos usuários, para que suas fronteiras não sejam perceptíveis.


A hélice desse mixer imita as espirais de um lírio.
Super
Poder dos Limites.

Os avanços da tecnologia permitiram ao design abandonar aquela estrutura “certinha” do plástico e do vetorial. Ele agora pode ser físico e lançar mão de transparências, luzes, sombras e texturas. Alguns podem achar que isso é reação à tecnologia, mas é exatamente o contrário: é expansão.


A poltrona de ursinhos dos irmãos Campana tem tanta textura que mal se vê.
A forma segue a emoção.

Não é preciso ser retrô nem gostar de Brian Setzer para se praticar o design reciclado. Muito pelo contrário, ele é um claro sinal de adaptação aos novos tempos, em que todos os materiais podem ser encarados como matérias-primas. Se bem feita, a intervenção passa a ser muito divertida e claramente identificável. Ou como diriam os curadores de museu e professores de semiótica, tudo é uma questão de repossuir os elementos e ressignificar as velhas formas, embora eu não esteja bem certo do que isso queira dizer.

 
As capas das edições comemorativas do James Bond usam um estilos
de bico de pena, simulando todos os defeitos inerentes ao meio.

Em um mundo hiperconectado, o valor do local não é mais o exótico, mas a forma de pensar. Tradição e essência se misturam em uma sopa geográfica, e cada região contribui como pode. O local pode ser físico, histórico ou cultural. Se for uma mistura dos três, tanto melhor.


Meus alunos da ECA me chocam. A primeira vez que vi usarem o keffieh,
fiquei impressionado pelo tamanho da falta de respeito. Depois acostumei.
Fora do ambiente, a simbologia desaparece e ele é só um lenço.

Costumam associar design a branding porque ele é extremamente identificador. Pensando bem, nós vivemos dentro de redes de mensagens, sinais, informações e aprendizados que produzem nossa experiência do real. Uma marca familiar funciona como um ponto de referência nessa confusão.


Air Jordan. Claro que não é da Adidas.

Por falar em pontos de referência, é interessante falar da função narrativa do design. Ao organizar os elementos de múltiplas fontes, ele pode contar histórias e estimular a imaginação, transformando experiências que seriam tediosas em verdadeiras performances.


Esses museus são muito diferentes daqueles que você conhece.
Eles proporcionam uma imersão tamanha que a sensação é de se conversar com alguém que tem muito a contar.

Por último, como não poderia faltar, há o design incrível, que brinca com os sonhos e emoções em uma mistura que beira o imaginário. É ele que nos mostra a visão de um futuro possível, que não tem medo de delirar. Mesmo que se torne datado ou até mesmo ridículo com o tempo, não custa lembrar que todas as cartas de amor são ridículas.

Espero que este post sirva de inpiração para a próxima vez que você se sentir sem idéias. Elas existem às pencas por aí. O que é difícil é arranjar critério. Não se angustie por não poder pegar tudo, não dá para comer todos os pratos do cardápio. Da mesma forma, um design que use cores ou letras demais costuma provocar uma bela indigestão visual.


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