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Luli Radfahrer
Luli Radfahrer Consultor e Professor-Doutor da ECA/USP

PhD em Comunicação Digital, já dirigiu a divisão de web de algumas das maiores agências e portais do país. Professor-Doutor da ECA-USP, Professor-convidado da Columbia University, Consultor, Luli também é autor. Sua última obra é "A Arte da Guerra para quem Mexeu no Queijo do Pai Rico".

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Descolagem: comentários sobre minha palestra

domingo, 28 de dezembro de 2008

Depois de sua repercussão inacreditável - quase cem mil downloads em menos de uma semana - e das intensas discussões que provocou, daria até para pensar que não há mais nada a falar a respeito. No entanto, acredito que alguns pontos mereçam esclarecimentos.

Quero começar pelos argumentos mais usados por quem tem aquela velha opinião formada sobre tudo e não está disposto a contribuir com o debate:

1. que eu não tenho autoridade para expor o tema; e
2. que o tema não tem conexão com a realidade brasileira.

O primeiro desses argumentos eu considero simplesmente estúpido - não por mim, mas pela idéia de “autoridade” em si, autoritária por definição. A sugestão que alguém precise “ser autorizado a” ou “ter o direito de” expor um novo conceito, tema, opinião ou tendência é servil e contraditória, típica de uma época em que o poder e a informação eram bens centralizados e controlados (para quem insiste no argumento recomendo a leitura de minha série “o fim da Idade Mídia“, publicada há alguns meses no meu blog).

O que expus não foi uma metodologia ou recomendação - não pretendo estabelecer o Método Radfahrer, as idéias são públicas e podem, devem ser usadas por todos - mas uma amostragem da realidade.

Quem não gostou dos temas apresentados pode tampar os olhos e achar que é invisível. Ou por a culpa no colonialismo, ignorar o assunto e continuar a perpetuar um sistema arcaico e prejudicial àqueles que acredita educar, sei lá. Minha função foi simplesmente mostrar o que há de novo, e não acredito que seja necessária autoridade alguma sobre o assunto. Sou professor e pesquisador na área, mas isso não faz de mim nada especial.

Ninguém é especial. Nem a Helen Mirren ou a tia que ela representa.

O segundo argumento é ainda mais estúpido: sei que o sistema educacional brasileiro enfrenta sérios problemas. Até o sistema coreano enfrenta problemas. Mas isso não é desculpa para cruzar os braços e acatar a situação. O poder de influência de um professor é gigantesco e qualquer um pode fazer uma pequena diferença e mudar o futuro de um ser humano, pouco importa sua idade, formação ou renda. No fundo, é mais ou menos como jardinagem: se o ambiente for muito ruim, o pouco que se faz pode fazer a diferença. Sob esse aspecto, tanto as Conferências TED quanto a Casa do Zezinho são exemplos de ações locais com gigantesco poder de inspiração.

Minha palestra foi resultado de várias práticas que vi nas iniciativas digitais com que convivo diariamente no ambiente digital, e que podem ser facilmente transpostas para o “mundo lá fora”. A idéia de mashups, por exemplo, é razoavelmente antiga. A construção de conhecimento e experiência sempre se deu através de uma troca de idéias em que conceitos são recombinados, reestruturados e enriquecidos nesse processo.

O problema das aulas que “adestram” seus alunos é, sob esse aspecto, semelhante ao das revistas de celebridades, livros de auto-ajuda e programas de auditório em TV (boa parte do conteúdo da TV, aliás). Ao propor soluções fáceis, historinhas maniqueístas, piadas prontas, verdades indiscutíveis, sete hábitos e outras propostas tão genéricas quanto pretensamente infalíveis, esses produtos ignoram a riqueza da experiência de cada indivíduo e assim o corrompem com soluções fáceis, repetitivas e óbvias, que podem até servir de conforto para quem se sente coitadinho e não tem força para mudar a situação.

 

Tio Shakespeare já perguntava:

“O que é mais nobre para a mente:
sofrer as setas e lanças de um destino ultrajante
ou levantar os braços contra um mar de problemas
e, opondo-se a eles, vencê-los?”

Bons filmes, livros e músicas promovem em seus usuários um diálogo interno, em que muitos conceitos são redefinidos. Não acredito que tal processo possa acontecer sob a inspiração de uma Ivete Sangalo, mas posso estar enganado. De qualquer forma, o indivíduo que se recusar a participar de um diálogo desses tende a se tornar preconceituoso, apegado a seu mundinho e sem nenhuma intenção de mudá-lo. Assim ele acaba por se isolar em um mundo de absolutos e mistérios. Confortável, sem dúvida. Mas muito raso. As pessoas burras são mais felizes, afirma a sabedoria popular.

 

A propósito, o termo “recreação”, caso você não tenha parado para pensar a respeito, tem sua origem em “criar novamente”, em usar o tempo livre em atividades construtivas que promovam a evolução pessoal e, nesse processo, reciclem as idéias. RPGs e Videogames, sob certos aspectos, são extremamente recreativos. Já reality shows, programas de auditório, sitcoms e até o futebol de domingo podem ter o efeito oposto.

Novamente, nada é absoluto. Futebol pode ser um evento social da mesma forma que a prática de videogames pode ser doentia.

É para estimular esse diálogo que é importante o acesso ao conteúdo. Não há problema algum em deixar o aluno procurar o nome dos Faraós egípcios da XVIII dinastia ou dos afluentes do Amazonas no Google. Ele foi feito exatamente para isso.

O aluno tem é que saber diferenciar um Hopper de um Homer. Quanto mais acessar a rede, mais critério terá para avaliar suas fontes.

 

É a eterna questão do critério. Acredito sinceramente que um professor bem preparado conseguirá tirar de uma máquina velha e lerda muito mais do que o contrário. Mais banda sem treino só estimula a perpetuação de certos vícios. A quantidade de horas gastas em jogos de paciência, pornografia e papos vazios mostra o tamanho do desperdício mental no ambiente digital. Ele acontece em praticamente qualquer área.

 

O ensino até hoje é irregular e duvido que um dia deixe de sê-lo. Mas existem certas práticas que podem ajudar a melhorá-lo como um todo. A principal, na minha opinião, é uma reforma na função da escola.

Pouco importa o conteúdo ensinado ou o nível do aluno, ele precisa encarar sua escola não mais como uma fonte de informação ou centro de treinamento, mas como um ambiente que o ensina a questionar.

Mas - perguntaria você - o que há para se questionar em um curso técnico de Photoshop ou Excel? Muita coisa, ué. Pode-se começar por questionar pra que serve a ferramenta, quando deve ser usada, formas alternativas de se atingir um mesmo resultado, aplicações cotidianas e, sobretudo, como não ser enganado por ferramentas similares. Esse tipo de pergunta não torna o ensino elitista, mas duradouro. Ao estimular o pensamento ele ajuda a eliminar a preguiça e a estimular a discussão em todos os níveis e áreas.

Os caras do Mythbusters são professores, Carl Sagan também.

O professor não deve nem precisa competir com seus alunos, não sei de onde surgiu um pensamento tão torto. Em outras profissões nunca foi assim. O técnico de futebol não precisa jogar melhor do que ninguém, o maestro não precisa tocar instrumento algum, o treinador de academia para a terceira idade não precisa ter mais do que 25 anos.

É bom deixar claro que o problema não está só no professor, mas em um sistema viciado, baseado no controle e distribuição da informação. Sob esse aspecto os alunos também estão errados ao procurar um “mestre” que lhes dê respostas prontas. Ora, se os mestres tivessem receitas facilmente aplicáveis, eles as usariam para si e para os seus. E essas respostas, de simples que são, cairiam em domínio público. Como não caíram, eis outro bom motivo para abandonar as fórmulas mágicas de “auto-ajuda”.

Os alunos precisam entender que escolas não são centros de adestramento nem fábricas de certificados, muito pelo contrário. Sua função é mostrar a imensidão, beleza e complexidade do mundo. O professor não deve ser encarado como um sabe-tudo, mas como um guia.

É a mesma idéia de um bom livro, filme ou música. Quando terminados eles promovem um diálogo, uma expansão do universo conhecido. Gil, Caetano e Chico estimulam o pensamento com seus versos. Não se pode dizer o mesmo de “poeira, poeira, levantou poeira”. Nem de “O Segredo”.

Mas quem define o que é um bom livro em tempos de Paulo Coelho? Critério, oras. E critério é construído com amostragem e comparação. Em outras palavras, com educação.

As mídias sociais são o ambiente perfeito para a nova educação (e para sua prima mais pop, a Inovação). Ao permitir e estimular a troca de idéias, elas são as arenas onde poderão surgir novas formas de conhecimento com abrangência e extensão maiores do que os sonhos mais loucos.

Só depende de nós.

Descolagem: a escola do século XXI

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Palmas para você, @largman. Seu evento é inspirador.

Meu amigo Beto Largman é um curador talentoso e aguerrido, quanto a isso não há sombra de dúvida. Nossas conversas começaram há uns seis meses, época em que ele me apresentou o projeto descolagem, a idéia do NAVE e a proposta da Oi Futuro. Ele queria que eu participasse da primeira edição do evento, mas eu estava com a passagem marcada para uma consultoria na Arábia Saudita. Ele chegou a sugerir que desse a palestra via videoconferência (não disse que ele era aguerrido?), mas com um pouco de esforço consegui demovê-lo da idéia.

O argumento foi de uma possível falha de conexão - realidade no Líbano, que enfrenta dificuldades em manter a infra-estrutura por causa de tantas guerras - mas poderia ter sido a censura irrestrita que alguns desses países impõem à Internet. Falar de inovação por ali poderia ser arriscado, preconceituoso e pouco eficiente. Deixamos para depois, então.

Nossas conversas continuaram e, depois de muitos ajustes, ficou combinado que eu falaria na última edição do Descolagem. O tema seria, ao mesmo tempo, desafiador e apropriado: a escola do século XXI.

Argumentei com ele que, apesar de conhecer bem o tema (é parte da minha livre-docência, que um dia eu defendo, talvez até antes de fazer o DWD3. Algumas de suas idéias foram publicadas aqui), de usar várias ferramentas de redes sociais com meus alunos na ECA, participar de bancas e orientar trabalhos a respeito, não me considero um pesquisador ou especialista na área. Tampouco sou psicólogo, pedagogo e minha carga horária (8 a 12h/semana) não me qualifica até mesmo como professor.

Isso não quer dizer que eu não conheça o Construtivismo e alguns de seus principais teóricos. Desde que li Piaget pela primeira vez (tinha acabado de sair de uma reunião com professores para um projeto Internet e, de ouvi-los falar do tema com tanta paixão, fiz uma escala na livraria antes de ir pra casa) percebi que tinha uma forte conexão entre o trabalho dele e os blogs e a Wikipedia, por mais que ninguém entendesse o que eu queria dizer com isso na época.

Mas o que faz mesmo a diferença é que venho de uma família de professores. Como casa de ferreiro tem espeto de pau, nunca tinha perguntado a meu pai (ele sim um expert na área) sobre a conexão entre mídias sociais e escolas até minha livre-docência.

Pois é, acontece nas melhores famílias. Literalmente.

O resultado está aí embaixo, se é que você ainda não viu . Mal terminada a palestra, vídeos “piratas” feitos em câmaras amadoras e fatiados em até 8 partes já corriam a rede. Assim que o pessoal do Videolog ajudou o Largman a colocar a versão “oficial” no ar, influenciadores de peso como o MeioBit e até mesmo o Chongas ajudaram a replicar a mensagem, mesmo que não estivesse diretamente ligada à sua linha editorial.

O resultado: mais de 20.000 visitas em menos de 24 horas. Nunca imaginei que uma palestra intensa, um pouco técnica, longa, acelerada e sem pausas sobre educação fosse tão popular. Nem que essa palestra seria dada por mim.

Até porque eu estava tenso - coisa que dá pra perceber pela quantidade de “ãhn” que falei durante o discurso. O evento, como eu bem imaginava, tinha palestrantes muitíssimo mais qualificados que eu.

O turbilhão de idéias da profa. Patrícia Konder Lins e Silva, diretora pedagógica da Escola Parque, tem material para inspirar gerações. A propósito, alguém tem o MindMap dela? queria estudá-lo.

Logo depois dela o genial Paulo Blikstein, que para muitos lembrou o Sheldon do The Big Bang Theory (pela sua absoluta genialidade, não pelo tipo físico), deu uma aula prática de Construtivismo e inclusão, com pistola de paintball e crianças montando vulcões em Angola. Eu estava mais esticado que corda de berimbau. O evento estava ótimo, mas aquilo era arena para o meu pai, não para mim. Que roubada! Para detalhes da palestra dos dois, recomendo a cobertura competente da Maffalda, virtuose de teclado, que conseguiu ao mesmo tempo registrar e comentar. Queria ter um poder de concentração desses.

Pra relaxar um pouco - ou não - veio o Lens Kaftone e sua música tocada com Wiimotes e Nunchucks, pra Johnny Lee nenhum botar defeito. Por mais que pareça nerd, foi um exemplo prático de envolvimento e descoberta, um show de curadoria visível para poucos. Se eu não falasse logo depois deles, estaria inspirado e fascinado. Mas tinha sobrado para mim “amarrar” os conceitos todos, e eu não fazia idéia como.

Minha palestra procurava evidenciar que o processo de aprendizado já não era mais exclusividade das salas de aula. Como professor de Comunicação Digital na escolas de vestibular mais puxado do país, sempre fui desafiado, questionado e - principalmente - enriquecido pelos meus alunos. Foi com eles que aprendi várias “novas” tecnologias, de Orkut a Spore. Foi um deles que conseguiu, depois de muita discussão, mudar minha opinião sobre Blogs. Em meus 15 anos de experiência na web percebi como é fácil se tornar engessado, reacionário e careta em uma área inovadora. A curva de aprendizado costuma ser tão intensa que, uma vez que se chega “lá” dá uma enorme preguiça intelectual de recomeçar. Meu alunos me forçam a rever, repensar, reestudar todos os meus conceitos de seis em seis meses. Eu é que deveria pagar para ensiná-los.

Enfim, o objetivo da palestra era mostrar, com um viés construtivista, as coisas que via, sem nenhuma pretensão autoritária de “professor da USP”, coisa que mais odeio em muitos dos meus colegas e sua velha opinião formada sobre tudo. Foi por isso que usei o formato de Graphic Novel, pena que o vídeo mostrou muito pouco dela. Fiquei fascinado pela idéia simples e inovadora do Google e resolvi usá-la não por ser “diferente”, mas por ser exploratória. No melhor estilo deste vídeo do Discovery Channel:

Acredito que consegui.

No próximo post comento partes do que foi falado.

Muito obrigado a todos pela consideração.


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