Luli RadfahrerConsultor e Professor-Doutor da ECA/USP
PhD em Comunicação Digital, já dirigiu a divisão de web de algumas das maiores agências e portais do país. Professor-Doutor da ECA-USP, Professor-convidado da Columbia University, Consultor, Luli também é autor. Sua última obra é "A Arte da Guerra para quem Mexeu no Queijo do Pai Rico".
Este foi o tema do iMasters InterACT 2009, em Belo Horizonte. Tudo começou com uma conversa com o Tiago Baeta, do iMasters, logo após o InterCon. Ele convidou a mim e ao Rapha para sermos curadores e montarmos um espaço para apresentações e provocações. Ao ver a planta do hotel em que o evento aconteceria, percebi que a boïte seria o lugar perfeito para esse tipo de evento, com seu palquinho, pufes e sofá. Daí pra frente foi só chamar muita gente legal para participar e ficamos bastante felizes com o resultado.
O tema geral do evento estava apoiado na importância de idéias simples e iniciativa para se mudar o mundo - e as apresentações dos curadores tinham que amarrá-lo. A do Rapha veio logo depois da do Bressane, que encheu o auditório e colocou a moçada fervilhando em idéias. Para chamar para o tema, ele fez uma sensacional apresentação sobre os problemas do sistema da comunicação hoje em dia e como ele mata a criatividade. Não vou falar da palestra aqui, porque não dá - cutuquem o homem pra blogar a respeito - mas adianto o vídeo a seguir, que dá uma bela pista do clima:
Para encerrar (e amarrar) uma sucessão de momentos preciosos, entre eles a sensacional história do Comida de Buteco que, a partir de uma idéia simples promoveu o turismo, a higiene, preservou parte da cultura popular e se tornou uma referência, minha palestra perguntou: “o que você faz?“.
Entenda bem: não perguntei sua profissão ou emprego, mas O QUE VOCÊ FAZ. E como isso pode fazer a diferença. O vídeo mostra o espaço da boïte (que chamamos de ‘club’ para perder o ar Richard Clayderman que o nome carrega) e a minha palestra. Acho que vai ficar fácil de entender por que chamavam o lugar de “cafofo do Luli” ou “favelinha do Luli”.
Recomendo que o vejam acompanhando as telas da apresentação:
Por último, a roupa: me perguntaram o porquê da roupa de lixeiro. Pensei que fosse óbvio, mas vale realçar. É por causa da quantidade de informação a que temos acesso e que é puro lixo tóxico.
Enfim, o evento foi o máximo. O público foi muito bacana, os palestrantes, então, nem se fala. Eu confesso que estava apreensivo. Sabia que o Rapha, com sua cancha de TED, se sairia bem. Mas fiquei muito bem impressionado como a dinâmica foi compreendida por todos - incluindo pelos gigantes Gil Giardelli, Fabiano Coura e Emerson Calegaretti, que adaptaram as suas palestras ao formato do evento em menos de cinco minutos. Não que Michel, Suzana e Alexandre Bessa não se destacassem,mas desses não se esperava menos que algo cativante. Até mesmo temas bem mais técnicos, com os da Ana Erthal e o Horácio, hipnotizaram a moçada, que nem tuitar direito conseguia. Se cuida, Cazé, que o Horácio parece ter nascido para o palco. O RAP WCAG quase começou a balada antes da hora:
CLARO que não poderia deixar de lado a mesmerizante Viviane, do Sebrae, que assume um palco de fim de evento, sem que ninguém a conheça, vestida com roupas de escritório e ganha do público merecidíssimo título de Susan Boyle do dia. Para mim, a melhor palestra do evento, com histórias de aventuras pra botar Indiana Jones no chinelo e pilhas de informação preciosíssima de seu blog “Beco com saída“. Resultado: faziam uns 8-10 anos que eu não subia em um palco tão nervoso (e agora, o que eu falo DEPOIS dessa mulher?!?). Me virei, mas não foi fácil.
Por último, queria deixar um agradecimento especial aqui para o público e parceiros mineiros. Vocês são demais. Todo mundo, de todos os lugares, querendo ajudar. Dá até vergonha de ser paulistano. Adorei o evento, mas ele deve ser o penúltimo que organizarei. É um esforço muito grande e toma muito tempo. Acredito que, depois do InterCon 2009, em Novembro, minha participação se restringirá às palestras.
Semana que vem vou para o Japão e devo ficar por lá umas duas semanas. Não vou tuitar de lá porque, com 12 horas de fuso horário, vou parecer o pássaro madrugador. Mas devo postar uma ou outra coisa interessante que encontrar por lá, mesmo que seja depois de voltar.
Depois de sua repercussão inacreditável - quase cem mil downloads em menos de uma semana - e das intensas discussões que provocou, daria até para pensar que não há mais nada a falar a respeito. No entanto, acredito que alguns pontos mereçam esclarecimentos.
Quero começar pelos argumentos mais usados por quem tem aquela velha opinião formada sobre tudo e não está disposto a contribuir com o debate:
1. que eu não tenho autoridade para expor o tema; e
2. que o tema não tem conexão com a realidade brasileira.
O primeiro desses argumentos eu considero simplesmente estúpido - não por mim, mas pela idéia de “autoridade” em si, autoritária por definição. A sugestão que alguém precise “ser autorizado a” ou “ter o direito de” expor um novo conceito, tema, opinião ou tendência é servil e contraditória, típica de uma época em que o poder e a informação eram bens centralizados e controlados (para quem insiste no argumento recomendo a leitura de minha série “o fim da Idade Mídia“, publicada há alguns meses no meu blog).
O que expus não foi uma metodologia ou recomendação - não pretendo estabelecer o Método Radfahrer, as idéias são públicas e podem, devem ser usadas por todos - mas uma amostragem da realidade.
Quem não gostou dos temas apresentados pode tampar os olhos e achar que é invisível. Ou por a culpa no colonialismo, ignorar o assunto e continuar a perpetuar um sistema arcaico e prejudicial àqueles que acredita educar, sei lá. Minha função foi simplesmente mostrar o que há de novo, e não acredito que seja necessária autoridade alguma sobre o assunto. Sou professor e pesquisador na área, mas isso não faz de mim nada especial.
Ninguém é especial. Nem a Helen Mirren ou a tia que ela representa.
O segundo argumento é ainda mais estúpido: sei que o sistema educacional brasileiro enfrenta sérios problemas. Até o sistema coreano enfrenta problemas. Mas isso não é desculpa para cruzar os braços e acatar a situação. O poder de influência de um professor é gigantesco e qualquer um pode fazer uma pequena diferença e mudar o futuro de um ser humano, pouco importa sua idade, formação ou renda. No fundo, é mais ou menos como jardinagem: se o ambiente for muito ruim, o pouco que se faz pode fazer a diferença. Sob esse aspecto, tanto as Conferências TED quanto a Casa do Zezinho são exemplos de ações locais com gigantesco poder de inspiração.
Minha palestra foi resultado de várias práticas que vi nas iniciativas digitais com que convivo diariamente no ambiente digital, e que podem ser facilmente transpostas para o “mundo lá fora”. A idéia de mashups, por exemplo, é razoavelmente antiga. A construção de conhecimento e experiência sempre se deu através de uma troca de idéias em que conceitos são recombinados, reestruturados e enriquecidos nesse processo.
O problema das aulas que “adestram” seus alunos é, sob esse aspecto, semelhante ao das revistas de celebridades, livros de auto-ajuda e programas de auditório em TV (boa parte do conteúdo da TV, aliás). Ao propor soluções fáceis, historinhas maniqueístas, piadas prontas, verdades indiscutíveis, sete hábitos e outras propostas tão genéricas quanto pretensamente infalíveis, esses produtos ignoram a riqueza da experiência de cada indivíduo e assim o corrompem com soluções fáceis, repetitivas e óbvias, que podem até servir de conforto para quem se sente coitadinho e não tem força para mudar a situação.
“O que é mais nobre para a mente:
sofrer as setas e lanças de um destino ultrajante
ou levantar os braços contra um mar de problemas
e, opondo-se a eles, vencê-los?”
Bons filmes, livros e músicas promovem em seus usuários um diálogo interno, em que muitos conceitos são redefinidos. Não acredito que tal processo possa acontecer sob a inspiração de uma Ivete Sangalo, mas posso estar enganado. De qualquer forma, o indivíduo que se recusar a participar de um diálogo desses tende a se tornar preconceituoso, apegado a seu mundinho e sem nenhuma intenção de mudá-lo. Assim ele acaba por se isolar em um mundo de absolutos e mistérios. Confortável, sem dúvida. Mas muito raso. As pessoas burras são mais felizes, afirma a sabedoria popular.
A propósito, o termo “recreação”, caso você não tenha parado para pensar a respeito, tem sua origem em “criar novamente”, em usar o tempo livre em atividades construtivas que promovam a evolução pessoal e, nesse processo, reciclem as idéias. RPGs e Videogames, sob certos aspectos, são extremamente recreativos. Já reality shows, programas de auditório, sitcoms e até o futebol de domingo podem ter o efeito oposto.
Novamente, nada é absoluto. Futebol pode ser um evento social da mesma forma que a prática de videogames pode ser doentia.
É para estimular esse diálogo que é importante o acesso ao conteúdo. Não há problema algum em deixar o aluno procurar o nome dos Faraós egípcios da XVIII dinastia ou dos afluentes do Amazonas no Google. Ele foi feito exatamente para isso.
O aluno tem é que saber diferenciar um Hopper de um Homer. Quanto mais acessar a rede, mais critério terá para avaliar suas fontes.
É a eterna questão do critério. Acredito sinceramente que um professor bem preparado conseguirá tirar de uma máquina velha e lerda muito mais do que o contrário. Mais banda sem treino só estimula a perpetuação de certos vícios. A quantidade de horas gastas em jogos de paciência, pornografia e papos vazios mostra o tamanho do desperdício mental no ambiente digital. Ele acontece em praticamente qualquer área.
O ensino até hoje é irregular e duvido que um dia deixe de sê-lo. Mas existem certas práticas que podem ajudar a melhorá-lo como um todo. A principal, na minha opinião, é uma reforma na função da escola.
Pouco importa o conteúdo ensinado ou o nível do aluno, ele precisa encarar sua escola não mais como uma fonte de informação ou centro de treinamento, mas como um ambiente que o ensina a questionar.
Mas - perguntaria você - o que há para se questionar em um curso técnico de Photoshop ou Excel? Muita coisa, ué. Pode-se começar por questionar pra que serve a ferramenta, quando deve ser usada, formas alternativas de se atingir um mesmo resultado, aplicações cotidianas e, sobretudo, como não ser enganado por ferramentas similares. Esse tipo de pergunta não torna o ensino elitista, mas duradouro. Ao estimular o pensamento ele ajuda a eliminar a preguiça e a estimular a discussão em todos os níveis e áreas.
Os caras do Mythbusters são professores, Carl Sagan também.
O professor não deve nem precisa competir com seus alunos, não sei de onde surgiu um pensamento tão torto. Em outras profissões nunca foi assim. O técnico de futebol não precisa jogar melhor do que ninguém, o maestro não precisa tocar instrumento algum, o treinador de academia para a terceira idade não precisa ter mais do que 25 anos.
É bom deixar claro que o problema não está só no professor, mas em um sistema viciado, baseado no controle e distribuição da informação. Sob esse aspecto os alunos também estão errados ao procurar um “mestre” que lhes dê respostas prontas. Ora, se os mestres tivessem receitas facilmente aplicáveis, eles as usariam para si e para os seus. E essas respostas, de simples que são, cairiam em domínio público. Como não caíram, eis outro bom motivo para abandonar as fórmulas mágicas de “auto-ajuda”.
Os alunos precisam entender que escolas não são centros de adestramento nem fábricas de certificados, muito pelo contrário. Sua função é mostrar a imensidão, beleza e complexidade do mundo. O professor não deve ser encarado como um sabe-tudo, mas como um guia.
É a mesma idéia de um bom livro, filme ou música. Quando terminados eles promovem um diálogo, uma expansão do universo conhecido. Gil, Caetano e Chico estimulam o pensamento com seus versos. Não se pode dizer o mesmo de “poeira, poeira, levantou poeira”. Nem de “O Segredo”.
Mas quem define o que é um bom livro em tempos de Paulo Coelho? Critério, oras. E critério é construído com amostragem e comparação. Em outras palavras, com educação.
As mídias sociais são o ambiente perfeito para a nova educação (e para sua prima mais pop, a Inovação). Ao permitir e estimular a troca de idéias, elas são as arenas onde poderão surgir novas formas de conhecimento com abrangência e extensão maiores do que os sonhos mais loucos.