Cada macaco no seu galho
No último final de semana estive no Rio de Janeiro palestrando no 1° Encontro de TI, um evento bem organizado (parabéns aos organizadores) e cuja participação, em sua maioria, era de profissionais de criação web. Num dado momento defendi o ponto de vista que designers não devem tentar entrar na praia de desenvolvimento e desenvolvedores não devem tentar nadar nas águas do design. São duas coisas tão diferentes quanto uma garrafa PET e uma garrafa de vidro. Não é porque são garrafas que são iguais. Entre um garrafa plástica e uma de vidro existem diferenças atômicas e astronômicas.
Claro, como costumeiro em minhas declarações, muita gente não gostou e achou que sou louco (e sou). Se louco sou, então o que dizer daqueles que dividiram as profissões de arquiteto e engenheiro ou ainda a medicina com suas dezenas de área diferentes? Quem você escolheria para operar seu coração: Ivo Pitanguy ou Adib Jatene?
O mesmo ocorre na web. Designers tem uma formação totalmente diferente de um desenvolvedor e trabalham com áreas diferentes do cérebro. Enquanto o primeiro aprende a harmonia de cores e as regras para uma boa apresentação de conteúdo, o segundo aprende algorítimos e linguagens. Um usa o lado mais criativo do cérebro enquanto outro, o lado mais matemático ou exato. Acredite, isso existe e é verdadeiro.
Sem dúvida alguns leitores vão dizer: “mas é possível aprender as duas coisas”. Claro que é; é possível aprender e também se tornar medíocre nas duas. Um designer não será um desenvolvedor tão bom ou melhor que eu. Da mesma forma nunca serei um designer premiado pois nem mesmo bolas rendondas ou quadrados quadrados sei fazer. Misturar cores para mim é tão perfeito quanto é para uma criança no maternal. Em compensação, lógica de programação é algo que faço de olhos vendados. Como não desejo ser medíocre em ambas as áreas, escolhi aquela que me afinizo e nela sou especialista, não sendo um “generalista” como a maioria hoje em dia quer ser.
A mistureba de funções
“O mercado exige a polivalência”. Não existe mentira mais descarada do que essa. O mercado não exige polivalência; ele exige qualidade, preço justo e soluções funcionais, não importando inclusive se a solução está sendo desenvolvida na Av. Berrini em São Paulo ou em algum buraco de Cebu nas Filipinas. Então, a grande verdade sobre a polivalência é que a maioria dos que chutam com as duas não querem partilhar o bolo, mas sim comê-lo sozinho e curtir depois a caganeira em seu vaso banhado a ouro. Estes não passam de medíocres em ambas as áreas (se fossem bom, seriam Leonardo Da Vinci) que procuram uma forma qualquer de se defender da falta de profundidade.
Ivo Pitanguy não se tornou o mago do bisturi para todas as maiores beldades do mundo por acaso. Ele é especialista no que faz porque só faz isso, nada mais, nada menos. Mas como todo médico ele cursou seus anos de residência, aprendeu sobre anatomia, sistemas muscular, respiratório, nervoso e etc. Isso tudo faz parte de sua área mas não é seu foco. Seu foco é a cirurgia plástica que, de uma forma ou de outra precisa das outras áreas da medicina para ser executada. E o que faz então o grande mago? Mantém uma equipe multidisciplinar de especialistas em cada uma das áreas que precisa numa operação.
Já do outro lado da balança estão os cirurgiões plásticos mambembes que fazem de tudo um pouco; desde clínica geral até a troca de um nariz em suaves parcelas mensais, sendo inclusive motivo de riso até para Oprah Winfrey. Qual o melhor entre o mambembe e o Pitanguy? Quem tem Naomi Campbel em sua mesa, claro.
Esta analogia cabe como uma luva para a criação web. A grande maioria das agências de criação não possuem nada além do mínimo necessário de expertise tecnológico dentro de seus quadros. Elas possuem as melhores mentes criativas mas não os melhores profissionais de tecnologia. Estes são terceirizados para cada uma das necessidades pontuais que demandam com o intuito de terem tempo para seu core business que é a criação. Isto acontece por dois motivos: custo e especialização. É muito mais barato contratar uma empresa que já domina uma determinada tecnologia do que formá-la dentro de casa e que nunca será tão especialista como a contratada. A soma das duas pontas resulta num projeto campeão, sempre.
Certamente tanto o designer quanto o desenvolvedor podem e devem conhecer algo de áreas correlatas. O pessoal de criação deve saber quais são as limitações existentes na Internet para suas criações e desenvolvedores devem ao menos fazer uma imagem de letras grandes e brancas num fundo preto. Além de coisas triviais é perda de tempo, dinheiro e principalmente, neurônios.
Seja o melhor no que faz
Outra desculpa esfarrapada daquele que assovia, chupa cana e ainda frita pastel ao mesmo tempo é a empregabilidade. Teme-se que sendo especialista não terá vez e simplesmente será tragado pelo mercado. Voltando a analogia, pense nos seguintes nomes: Nizan Guanaes, Paulo Henrique Amorim, Gisele Bundchen e o padeiro da esquina. Cada um deles é especialista numa área e dela não saem. Alguns chegam ao ponto de serem especialistas dentro de área de suas profissões, como é o caso do Amorim que não poderia ser um jornalista esportivo e tampouco Luciano do Valle, um comentarista econômico. Estão desempregados? Pelo contrário, são cotados a peso de ouro por serem os melhores de suas áreas.
Dito isso, o especialista precisa antes de tudo, saber o que quer e principalmente ter tesão em fazê-lo. Se ele descobre o santo graal e estuda, vai fundo, conhece, discute, troca informações, enfim, “especializa-se” naquilo, trabalho não irá faltar. Quando se especializa, se torna referência e referências são cobradas e cada vez mais caras.
Obviamente que existem os que não querem ou não podem pagar um especialista. Neste momento, cabe a este a decisão de querer ou não atender aquele que paga o valor de um generalista para um especialista. O mercado funciona assim desde sempre e quem decide é quem está vendendo a especialização, não quem está comprando. Se o macaco ficar em seu galho e souber tudo sobre ele, não irão faltar situações onde aquele galho é o melhor e então, neste momento, aquele macaco se dará melhor.
Pense a respeito.
Tags: Carreira, desenvolvedor, designer, profissão














2 de dezembro de 2008 às 0:09
Ola meu amigo,
Na minha sincera opniao este negocio de especialista não é bem assim.
Poderiamos dizer que alguem é especialista em programação por saber tudo sobre uma LP , por exemplo php?
Não , pois ele seria especialista em php.
Agora ele poderia ser especialista em php e java?
Sim poderia.Ele gastar tempo para isto, não é por que ele sabe php que vai apreender java em 1 dia.
E por que ele não poderia ser especilista e php e design de paginas?
Nao precisa ser design de todos os tipos(produtos,paginas , etc), e programador em todas as linguagens(php,java,asp,cf).
Ou seja. ‘cada macaco no seu galho’ refere-se a ter pessoas alienadas a determinas conhecimentos.
Como bruce lee dizia:
‘Você tem de esvaziar tudo que sabe para apreende algo novo.’
Pense nisto…
te mais jovem
2 de dezembro de 2008 às 8:34
Meu caro, que discurso inflamado(pra variar…)
Sempre digo para amigos e inimigos que não existe isso de ficar desempregado quando se é muito bom no que se faz ou no que se sabe, mas é difícil para eles acreditarem que o que digo é a realidade do mercado.
Sábado passado(29/11) ocorreu em Campina Grande-PB o I Encontro PHP-PB, e durante uma das palestras lembrei-me de você palestrando aqui em João Pessoa-PB, no I ENSOL, sobre a criação de Websites com Mambo Server, que foi uma aula memorável… você e todos os outros que organizaram aquele evento incrível me mostraram o outro lado da moeda(..e não foi o lado ruim), fo o lado em que quero estar, e sou eternamente grato por isso.
Mais uma vez, obrigado.
2 de dezembro de 2008 às 12:22
Eu sou adepto da adaptabilidade. O atual cenário do mercado de trabalho não exige os termos chiques empregados hoje. Exige apenas indivíduos que exerçam suas funções na “linha de montagem”; e cada parte da linha tem seus requisitos que podem ser cumulativos ou não. Apreendê-los é oportuno a um profissional tanto quanto é para um fabricante de plugs saber como é o produto de um fabricante de tomadas. Onde você se coloca nessa linha é preferência sua (ou aptidão, vocação, vontade, esforço, “querência” ou coisa que o valha). É paradoxal que exista hoje ao mesmo tempo uma demanda tão grande pela excelência e tantos profissionais saindo das faculdades incompletos ou com uma visão tão limitada das possibilidades (ou ambições tão doentias comparadas à experiência…). Enfim, não acreditar na adaptabilidade é abolir um dos lados do cérebro e se contentar apenas com o outro.
2 de dezembro de 2008 às 16:11
Concordo com o autor, claro que as “empresas” que preferem trabalhar pagando um valor baixo vão buscar no mercado os x-tudo, mas para projetos realmente complexos e grandes serão os especialistas que são procurados.
Basta vermos o altamente falado SEO, mesmo lendo alguns artigos, tutoriais, dicas, até mesmo do Google não é tão fácil aplicarmos realmente as técnicas de SEO para melhorar a resposta do site nos mecanismos de busca.
3 de dezembro de 2008 às 13:57
Essa coisa de “especialista/generalista” é o que vem sendo pregado nas universidades. Eu falei um pouco sobre isso num outro comentário por aqui… Muitas vezes o curso nas faculdades faz é tão abrangente que deixa os estudantes muito generalistas e pouco especialistas… E aina passam que essa visão é a certa pra todo mundo!! É uma tristeza só!!
3 de dezembro de 2008 às 15:55
Bom, temos tomar cuidado, pois há uma função que está sendo criada e que é chamada de designer de interfaces.
Esse camarada fica em cima do muro.
A PUC-SP possui um curso de Tecnologia e Mídias Digitais cuja habilitação é em designer de interface, ele faz a interface entre o designer e o programador, pondendo então contradizer um pouco a citação do autor.
Obviamente que jamais podemos levar isso ao extremo.
Principalmente nos dias de hoje.
Um grande exemplo: Quem gera o XHTML de um site? É o designer ou o programador?
Por que criaram liguagens de templates como Smarty? Querendo ou não há uma grande lógica por trás e há muitos designers que sabem smarty e isso gera uma grande parceria entre o trabalho de designer/programador.
Acredito que não podemos ser 8 ou 80, principalmente se a empresa que você trabalhar não for uma “multinacional” toda segmentada e super organizada.
Abraços, ótimo artigo. Ótimo e polêmico.
28 de janeiro de 2009 às 18:34
Discordo de você, uma pessoa pode sim exercer duas funções completamente diferente e ser bom naquilo que faz, claro que ser designer é não é igual a desenvolver software, mais com dedicação e prática que aprendemos, isso se torna uma automática. Eu por exemplo crio software e trabalho como designer gráfico, isso vai de cada pessoa…