Cada macaco no seu galho
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008No último final de semana estive no Rio de Janeiro palestrando no 1° Encontro de TI, um evento bem organizado (parabéns aos organizadores) e cuja participação, em sua maioria, era de profissionais de criação web. Num dado momento defendi o ponto de vista que designers não devem tentar entrar na praia de desenvolvimento e desenvolvedores não devem tentar nadar nas águas do design. São duas coisas tão diferentes quanto uma garrafa PET e uma garrafa de vidro. Não é porque são garrafas que são iguais. Entre um garrafa plástica e uma de vidro existem diferenças atômicas e astronômicas.
Claro, como costumeiro em minhas declarações, muita gente não gostou e achou que sou louco (e sou). Se louco sou, então o que dizer daqueles que dividiram as profissões de arquiteto e engenheiro ou ainda a medicina com suas dezenas de área diferentes? Quem você escolheria para operar seu coração: Ivo Pitanguy ou Adib Jatene?
O mesmo ocorre na web. Designers tem uma formação totalmente diferente de um desenvolvedor e trabalham com áreas diferentes do cérebro. Enquanto o primeiro aprende a harmonia de cores e as regras para uma boa apresentação de conteúdo, o segundo aprende algorítimos e linguagens. Um usa o lado mais criativo do cérebro enquanto outro, o lado mais matemático ou exato. Acredite, isso existe e é verdadeiro.
Sem dúvida alguns leitores vão dizer: “mas é possível aprender as duas coisas”. Claro que é; é possível aprender e também se tornar medíocre nas duas. Um designer não será um desenvolvedor tão bom ou melhor que eu. Da mesma forma nunca serei um designer premiado pois nem mesmo bolas rendondas ou quadrados quadrados sei fazer. Misturar cores para mim é tão perfeito quanto é para uma criança no maternal. Em compensação, lógica de programação é algo que faço de olhos vendados. Como não desejo ser medíocre em ambas as áreas, escolhi aquela que me afinizo e nela sou especialista, não sendo um “generalista” como a maioria hoje em dia quer ser.
A mistureba de funções
“O mercado exige a polivalência”. Não existe mentira mais descarada do que essa. O mercado não exige polivalência; ele exige qualidade, preço justo e soluções funcionais, não importando inclusive se a solução está sendo desenvolvida na Av. Berrini em São Paulo ou em algum buraco de Cebu nas Filipinas. Então, a grande verdade sobre a polivalência é que a maioria dos que chutam com as duas não querem partilhar o bolo, mas sim comê-lo sozinho e curtir depois a caganeira em seu vaso banhado a ouro. Estes não passam de medíocres em ambas as áreas (se fossem bom, seriam Leonardo Da Vinci) que procuram uma forma qualquer de se defender da falta de profundidade.
Ivo Pitanguy não se tornou o mago do bisturi para todas as maiores beldades do mundo por acaso. Ele é especialista no que faz porque só faz isso, nada mais, nada menos. Mas como todo médico ele cursou seus anos de residência, aprendeu sobre anatomia, sistemas muscular, respiratório, nervoso e etc. Isso tudo faz parte de sua área mas não é seu foco. Seu foco é a cirurgia plástica que, de uma forma ou de outra precisa das outras áreas da medicina para ser executada. E o que faz então o grande mago? Mantém uma equipe multidisciplinar de especialistas em cada uma das áreas que precisa numa operação.
Já do outro lado da balança estão os cirurgiões plásticos mambembes que fazem de tudo um pouco; desde clínica geral até a troca de um nariz em suaves parcelas mensais, sendo inclusive motivo de riso até para Oprah Winfrey. Qual o melhor entre o mambembe e o Pitanguy? Quem tem Naomi Campbel em sua mesa, claro.
Esta analogia cabe como uma luva para a criação web. A grande maioria das agências de criação não possuem nada além do mínimo necessário de expertise tecnológico dentro de seus quadros. Elas possuem as melhores mentes criativas mas não os melhores profissionais de tecnologia. Estes são terceirizados para cada uma das necessidades pontuais que demandam com o intuito de terem tempo para seu core business que é a criação. Isto acontece por dois motivos: custo e especialização. É muito mais barato contratar uma empresa que já domina uma determinada tecnologia do que formá-la dentro de casa e que nunca será tão especialista como a contratada. A soma das duas pontas resulta num projeto campeão, sempre.
Certamente tanto o designer quanto o desenvolvedor podem e devem conhecer algo de áreas correlatas. O pessoal de criação deve saber quais são as limitações existentes na Internet para suas criações e desenvolvedores devem ao menos fazer uma imagem de letras grandes e brancas num fundo preto. Além de coisas triviais é perda de tempo, dinheiro e principalmente, neurônios.
Seja o melhor no que faz
Outra desculpa esfarrapada daquele que assovia, chupa cana e ainda frita pastel ao mesmo tempo é a empregabilidade. Teme-se que sendo especialista não terá vez e simplesmente será tragado pelo mercado. Voltando a analogia, pense nos seguintes nomes: Nizan Guanaes, Paulo Henrique Amorim, Gisele Bundchen e o padeiro da esquina. Cada um deles é especialista numa área e dela não saem. Alguns chegam ao ponto de serem especialistas dentro de área de suas profissões, como é o caso do Amorim que não poderia ser um jornalista esportivo e tampouco Luciano do Valle, um comentarista econômico. Estão desempregados? Pelo contrário, são cotados a peso de ouro por serem os melhores de suas áreas.
Dito isso, o especialista precisa antes de tudo, saber o que quer e principalmente ter tesão em fazê-lo. Se ele descobre o santo graal e estuda, vai fundo, conhece, discute, troca informações, enfim, “especializa-se” naquilo, trabalho não irá faltar. Quando se especializa, se torna referência e referências são cobradas e cada vez mais caras.
Obviamente que existem os que não querem ou não podem pagar um especialista. Neste momento, cabe a este a decisão de querer ou não atender aquele que paga o valor de um generalista para um especialista. O mercado funciona assim desde sempre e quem decide é quem está vendendo a especialização, não quem está comprando. Se o macaco ficar em seu galho e souber tudo sobre ele, não irão faltar situações onde aquele galho é o melhor e então, neste momento, aquele macaco se dará melhor.
Pense a respeito.

