.  Paulino Michelazzo

Paulino Michelazzo
Paulino Michelazzo CMS Expert e Escritor Técnico

Escritor por DNA, programador por opção e vivenciando a Internet desde 1995, é diretor da Fábrica Livre, empresa especializada em soluções para a Internet com ferramentas de gestão livres.

Posts com a Tag ‘pirataria’

Como nós e o Pirate Bay perdemos

segunda-feira, 20 de abril de 2009

The Pirate Bay on the seaEra esperada a condenação dos caras. Somente aquele cego ou aquele que não quer ver (que é pior que o cego) acreditava que eles seriam absolvidos. Ao contrário da grande maioria que disse ser a condenação absurda ou injusta, ela atende preceitos jurídicos e arrisco a dizer ser inclusive pequena pelo que poderiam ter recebido. Um ano de cana e alguns milhões de multa? Pouco pelo que fazem.

A afirmação usada nas alegações dentro do tribunal que são somente um indexador de conteúdo existente em outros locais da rede não colou e não colaria mesmo. Desculpe-me mas o The Pirate Bay não é um Google. Ele é uma ferramenta que conduz as pessoas para cometerem “crimes” contra o copyright de empresas detentoras dos mesmos e fazer esta comparação é o mesmo de afirmar que a indústria de armas não pode ser culpada pelas milhares de mortes em todo o mundo. Sim, ela tem sua grande parcela de culpa mesmo não sendo quem puxa o gatilho. O exemplo cabe para o The Pirate Bay; não são o fim mas um meio para o fim.

Eu, você, os quatro condenados e todos os que usam os servidores deles sabem no fundo qual o verdadeiro propósito da ferramenta. Será que não estamos querendo jogar a sujeira para baixo do tapete só porque ela está do nosso lado? Será que nossos berros e comentários estão sendo realizados não pela condenação, mas sim por não termos conseguido mudar as regras do jogo? Será que não deveria ter sido este o foco da defesa deles, e nossa também?

Penso que o pecado cometido está neste sentido. Não sou advogado e tampouco conhecedor profundo dos sistemas judiciários nacionais e/ou suecos, mas em minha santa ignorância creio que a discussão deveria ser levada no patamar da defesa da liberdade de expressão e compartilhamento que tanto desejamos. Lá estava sendo julgado um serviço, uma ferramenta e não uma idéia, um desejo, uma ideologia. Sendo assim, acredito que as empresas e associações aproveitaram-se de exemplos como da indústria de armas para criar uma “jurisprudência” ao assunto e conseguir a condenação. Jogada esperta de quem está neste campeonato há muito tempo.

Outro erro foi acreditar que os braços destas mesmas associações e empresas não seriam tão longos para chegar a justiça de um país liberal e correto como a Suécia. Em minha humilde opinião, somente em países onde não existem leis, na Antártida de na Lua seria possível ganhar uma ação contra eles. Como tentáculos de polvos, vão até onde pouco imaginamos e não foi diferente desta vez.

Mas não foi tudo perdido, ao contrário, muito foi ganho. O P2P saiu-se mais forte desta condenação, mais conteúdo será indexado e disponibilizado na web, mais “piratas” nascerão em toda a rede e abiru-se uma porta importante para a discussão deste assunto em outras esferas em todo o mundo. Poderemos agora usar as mesmas armas com as quais eles foram condenados para atacar o outro lado onde, tal como a indústria de armas, a indústria de copyright é culpada pelo cerceamento do conhecimento em todo o mundo, mesmo sendo somente o meio para um fim.

Lei Azeredo versão maori

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Se você pensa que somente no Brasil existem pessoas com idéias estranhas ou de resultado duvidoso, reveja seus conceitos. Lá na Nova Zelândia também acontece a mesma coisa quando o assunto é Internet.

Está em curso a alteração da lei de copyright da Nova Zelândia que só não é mais bizarra que o projeto tupiniquim do senador Azeredo por um pequeno fato: ela estaria em vigor a partir de 28/02/2009. Como lá a “coisa funciona” quando o barulho é grande e aqui não, esta é a única diferença pois no restante, o mesmo absurdo.

Reza a nova redação da lei neozelandesa que os provedores de Internet podem, a qualquer tempo, desconectar usuários suspeitos de estar compartilhando arquivos simplesmente baseados numa acusação de qualquer um. Sem processo, sem acusação formal, sem nada. Você manda um e-mail acusando seu vizinho e pronto, lá está ele sem Internet.

Para entender um pouco do quão problemática é esta atitude, imagine uma escola ou hospital que teve seus sistemas infectados por um vírus ou trojan. De um minuto para outro os computadores destes estabelecimentos começam a compartilhar e enviar arquivos para outras máquinas. A partir deste momento, mesmo que o usuário nem imagine o problema, ele poderá ser desconectado e acusado de pirataria. Insano!

Este cenário de execução sumária pode ser visto também em outras épocas da história humana, tal com os nazistas, com a ditadura brasileira ou com a inquisição. Muda-se a época e o objetivo mas o método continua o mesmo: calar a qualquer preço aquele que quer falar o que for.

A comunidade digital dos kiwis alavancada pela organização Creative Freedom já colocou a boca no trombone, está recebendo apoio do mundo todo e  já conseguiu uma expressiva vitória no parlamento das ilhas postergando a entrada em vigor do ato. Mas aqui… continua seu Azeredo, azedo com a possibilidade de seu projeto não vingar e sinceramente espero que esta notícia não seja lida por sua assessoria. É possível que viagem à Oceania para ter algumas aulas do outro lado do mundo de como fazer certo a coisa errada.

Caiu a ficha?

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Sou réu confesso. Adoro um torrent. Faço downloads gigantescos em meu Mac de dezenas de coisas que vejo, observo e depois apago porque a maioria não presta e se não me cuidar, daqui há pouco não tenho mais HD.

E que atire o primeiro monitor aquele que nunca baixou um arquivinho da Internet. Atira vai! Duvido e deu dó!

Não sei se a prática usada por mim é correta mas sei que funciona. Ao mesmo tempo que o DSL fica gordo na madrugada, sou um ávido comprador. Vou nos magazines e compro 3, 4 DVD’s de uma vez. Adoro ter os discos em minha casa e assistir quando quiser. Da mesma forma, sou rato de livraria daqueles que passa horas vendo aquele montão de livros. E não é por causa do torrent que minha biblioteca deixa de crescer. Ao contrário, tenho que comprar mais uma estante em breve. E software então? A coitada de minha companheira que o diga. Vê a fatura do cartão e não entende como podem aparecer tantas entradas em moeda estrangeira.

Para a indústria capitalista sem medidas, o que faço é um crime tão sério quanto um homicídio. Se bobear, vou parar numa cela ao lado do Beira-Mar (lá tem Internet?). Para outros, sou mais um fã que aproveita uma nova forma de compartilhamento para engordar os cofres daqueles que compõem, escrevem ou representam.

Parece que não sou só eu que penso assim. Há dias li duas reportagens interessantes. Uma delas dos famosos cantores Zezé de Camargo e Luciano e outra do eterno-ex-Sandy, Júnior. Ambos com a mesma visão: a Internet é menos ruim que imagina-se quando falamos de pirataria.

Claro que é. Quem faz todo o terror são aqueles que sempre ganharam muito dinheiro e agora estão se estrepando. Estúdios de cinema e gravadoras ficam irados só na menção do nome Pirate Bay e não medem esforços para criminalizar quem quer que seja. Empresas de software então, de um lado chamam todos de ladrões enquanto nos roubam colocando vírus em nossos computadores (menos no meu).

Agora você vai dizer: mas a indústria precisa sobreviver! Sim, claro que precisa. E sei bem disso porque os boletos bancários não param de chegar no escritório. Mas existe um canyon entre sobreviver e viver a custa da desgraça alheia. Vejamos:

Uma empresona começou um projeto de dar cópias de seus softwares gratuitamente para estudantes brasileiros. Qual é a real intenção por trás desta benevolência toda? Dar instrução? Conhecimento? Claro que não! É cativar os burraldinos que aprendem produtos nas faculdades e colégios técnicos (ao invés de conceitos) para que futuramente tornem-se consumidores dependentes (semelheança com uma atividade ilícita é mera coincidência). Se fosse para dar instrução, pegariam o mesmo valor das cópias (falaram em US$ 240 milhões) e injetariam na educação brasileira e em projetos de melhoria do ensino. Mas aí meu caro, não tem lucro não é mesmo?

O mesmo acontece por exemplo com os estúdios de cinema. Os DVD’s que compro são aqueles que estão em promoção e custam não mais que 12 reais; um preço que acredito ser justo e que paga não somente a confecção do mesmo, mas o lucro de toda a cadeia. Mas lhe pergunto: o que pode fazer um DVD copiado aos milhões custar 50 reais ou um CD, 40? O ator que está no filme, a voz do morto que está cantando ou a ganância de quem produz? Já contou uma vez Courtney Love, cantora americana, sobre a relação promíscua das gravadoras com seus artistas e a coisa é aterrorizante. Se depender da venda de CD’s, morrem de fome.

Você tem fome de quê?
Os defensores ferrenhos vão dizer: “você gostaria que seu software fosse pirateado”?

Antes de mais nada, vamos esclarecer. Pirataria é o que está acontecendo na águas da Somália e o que acontecia nos mares do Caribe lá por 1500. O termo pirataria é equivocado, pejorativo e somente serve para induzir pessoas ao erro (tal qual aquele filmeco que passam no cinema).

Dito isso, a resposta: SIM! Eu adoraria ver uma criação minha sendo copiada e usada por milhões de pessoas. Tanto é verdade que faço software livre, coloco na Internet tudo o que crio e nem por isso deixo de ganhar dinheiro. Este texto que você está lendo agora está licenciado sob CreativeCommons (uma licença livre) e você pode usá-lo como bem entender. Além disso, não ganho um único níquel do site.

Pergunte à Paulo Coelho o quanto ele perde com a pirataria de seus livros. Perde tanto, mas tanto que ele mesmo pirateira suas obras. Não acredita? http://piratecoelho.wordpress.com

A questão, no frigir dos ovos gira em torno da fome que tens. A minha não é gananciosa, mas sim compartilhada. Enquanto a de outros… tire suas conclusões.


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